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A Marcha do Imperador - 1º dia

(Postado em 26/04/06, às 9:20.)

Rio — Penedo (167,87 Km)
Sexta-feira, 14 de abril de 2006

Sexta-feira Santa. Bendito dia! Acordei cedo, tomei uma vitamina com hipercalórico, bati algumas fotos da bicicleta feita em burro de carga, fiz as últimas verificações, ensaiei um girozinho na garagem do prédio para me acostumar com o novo peso de minha montaria, ajeitei os alforjes que estavam batendo um pouco nos calcanhares, beijei uma noiva aflita e parti, com a promessa de que voltaria inteiro.

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A ansiedade da partida

A propósito da Germana, minha noiva, e respondendo a pergunta das mais freqüentes: sim, ela ficou desesperada. Mas tenho que reconhecer que, apesar da preocupação natural, deu o melhor de si no apoio àquilo que faria de mim um avô com mais histórias para contar pros netos. Só que, na hora do vamos-ver, quase abandonou completamente a idéia de ser boa e compreensiva… e meus planos por um triz não foram por água abaixo! É que, bem na hora H, no auge da tensão do adeus, um de nós teve a maldita idéia de se interessar por qual seria o dia do mês em que estávamos e, por um erro de conta, pensamos estar no dia 13. Sexta-feira, 13! Ah, não, aí já era demais! E podem estar certos de que não me teria deixado ir com esse mau agouro, fora de brincadeira! Por sorte, refizemos os cálculos e descobrimos o erro: o dia não era 13; e, ainda por cima, era santo!

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Germana e sua eterna carinha de sono

Por ser feriado, encontrei as ruas todas tranqüilas, sem trânsito algum. Estranhei um pouco o peso da bicicleta, no começo, mas não demorou até eu me acostumar. A massa em movimento era composta de: um ciclista; uma bicicleta com bagageiro e clipe-triatlon, caramanholas, alforjes traseiros, ciclocomputador e bolsinha de selim; mochila de hidratação; bomba de ar, cinco câmaras, um pneu de kevlar, cola, lixa, espátulas, remendos, canivete tipo tudo-em-um; três litros d’água; dúzias de barrinhas de cereal e gelzinhos repositores de carboidratos tipo Exceed e Carb Up, alguns Polenguinhos e barrinhas de proteína; câmera fotográfica; celular; tocador de MP3; pilhas extras, carregadores de bateria do celular e da câmera; protetor solar, escova e pasta de dentes, sabonete, xampu e a pomada para assadura que sempre salva minha vida; mapa rodoviário; roupas de ciclismo, sapatilha, capacete, luvas; óculos com lentes escuras e claras sem grau; lentes de contato para miopia com estojinho e vidrinho pequeno com soro fisiológico; chinelo Havaianas e sandália franciscana (a famosa “Jesus”); dinheiro e cartão de banco; uma calça comprida, uma bermuda, uma camiseta, uma blusa de malha e uma camisa de botão; casaco impermeável; três pares de meias e três cuecas; e uma sunga de banho que eu sabia que iria usar, se sobrevivesse, em Uberlândia.

Cada vez mais à vontade com o peso da bagagem, sentindo cada vez menos temor do desconhecido e, principalmente, muito empolgado e feliz por ter dez dias de descanso pela frente (ok, foi uma piada), fui aos poucos deixando para trás os caminhos costumeiros e me enveredando por lugares nunca dantes pedalados como Realengo, Bangu, Senador Vasconcelos, Santíssimo, Campo Grande, Seropédica… até que finalmente peguei a Rodovia Presidente Dutra (BR-116), já num trecho bem afastado dos lugares mais complicados da Baixada Fluminense por onde ela passa em seu começo. Após alguns quilômetros de Dutra, e ainda antes da subida da Serra das Araras, fiz minha primeira parada.

É claro que um de meus maiores medos era o de ser assaltado, mais ainda do que o de sofrer algum acidente. Talvez porque o risco do acidente possa ser minimizado quase que completamente por um máximo de cautela, atenção e atitude defensiva do ciclista, ou seja, dá para se sentir suficientemente no controle da situação, pelo menos o bastante para eliminar a paúra de um atropelamento funesto. Além disso, no acidente, ninguém sai ganhando; todos os envolvidos gostariam, por definição, de tê-lo evitado. Assalto é outra história: você simplesmente descobre que alguém tem planos exatamente opostos aos seus.

Ainda que esse receio não me houvesse impedido de pegar a estrada, resolvi, para chamar menos atenção (se é que isso era posível), deixar a câmera fotográfica bem escondida dentro de um alforje. Mas logo percebi que isso, na prática, só atrapalharia o registro dos momentos e lugares interessantes da viagem, por inviável que é o parar, saltar da bicicleta, abrir o alforje, pegar a câmera, bater a foto, guardá-la de volta, retornar ao selim e retomar o pedal. Por isso, logo naquela primeira parada da Dutra, arrisquei um pouco mais e amarrei a bolsinha da câmera no clipe-triatlon, de forma que eu pudesse apenas abrir o zíper, puxar a câmera, bater as fotos e guardá-la de volta, sem sequer parar de pedalar. E foi assim que procedi, daquele momento em diante; quase todas as fotos de estrada foram feitas em movimento ou em paradas muito breves.

O primeiro desafio veio logo a seguir: oito quilômetros de subida. Com as duas buzinadelas de praxe, caminhões caridosos ofereciam imensa massa movente à qual me agarrar, mas em todas as vezes agradeci e recusei impavidamente a “carona-íma” — havia honra em jogo! Algo em torno de uma hora depois, e não sem ter penado um pouco, já estava no topo da serrinha tirando fotos bem legais do mar de morros lá embaixo.

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Placa auto-explicativa

Poucos metros à frente da festejadíssima placa “Serra das Araras - Final da Subida” fica a lanchonete onde bebi o primeiro repositor hidroeletrolítico — Gatorade, vá lá — da viagem. (Na verdade, como depois me dei conta, subir a serra é muito mais tranqüilo do que encarar o interminável sobe-e-desce de alguns trechos à primeira vista inofensivos. A serra, quando chega, já o encontra preparado psicologicamente, você sempre soube que ela viria, que alguém um dia achou divertido colocá-la ali, bem no meio do seu caminho. Já as infindáveis montanhas-russas de alguns trechos que você juraria perfeitamente planos pegam-no desprevenido e vão aos poucos minando sua esperança de ter, nas oito ou dez horas seguintes, qualquer moleza duradoura.) Apenas bem mais tarde, na altura de Volta Redonda, faria uma segunda parada para ingerir algo mais substancioso que meus Trios e Polenguinhos: o velho e bom pão com ovo.

Episódio engraçado aconteceu numa subida, já nas redondezas de Barra Mansa, quando vi à minha frente três bicicletas sendo empurradas ladeira acima: uma por um rapazote e as outras por duas meninas. Passei por eles com um meio-cumprimento e segui meu rumo. Dali a pouco, vejo o moleque pedalando desesperado em meu encalço. Deixei que se aproximasse, o que fez muito valentemente. Já do meu lado, perguntou “cê tá vindo láááá de Volta Redonda?” e, quando ouviu que sim, botou um sorriso enorme no rosto e proferiu seu veredito — “maluuuuco”. Depois foi ficando para trás, rindo-se todo, ainda.

Dos livros que li este ano, dois entraram em minha lista pessoal dos mais marcantes: “Mar Sem Fim” e “Dom Quixote de la Mancha”. Eis que, em algum momento desse primeiro dia, percebi que me sentia justamente um misto de Amyr Klink, autor e herói do primeiro livro, e Dom Quixote, o famoso anti-herói do segundo. Talvez um pouco mais são do que este, só um pouco! E bem menos intrépido que aquele, não tenham dúvida (meus planos excluem definitivamente uma tentativa de circunpedalar a Antártida). E assim eu ia, montado em meu Rocinante de rodas, mas sem Sancho para debater balelas. E, sobretudo, na mornidão de um outono tropical.

OK, admito que o parágrafo anterior não acrescentou nada à história. Mas estou certo de que sobreviverá à fúria assassina de minhas eventuais revisões apenas por revelar o tipo de pensamento obtuso que gira na cabeça de um indivíduo como eu, que passa horas a fio pedalando sozinho e sempre adiante nos ermos sem fim. É claro que ter um ou dois parafusos a menos ajuda.

Quase chegando em Resende, perdi a chance de tirar aquela que teria sido provavelmente a melhor foto da viagem: a de um louco que dormia à sombra de uma árvore, na beira da estrada. A seu lado havia uma bicicleta improvável, cheia de garrafas penduradas, trouxas de roupa, panelas e o diabo. O absurdo cidadão — um misto de mendigo, aborígene e saltimbanco — dormia, barbudíssimo e sem camisa, um sono de pedra (assim pensei). Sorrindo do pitoresco da coisa, apeei da magrela e voltei um pouco na estrada, sorrateira e mui silenciosamente, para fazer a foto. Mas à menor menção de me aproximar para o enquadramento perfeito, nosso cicloandarilho abriu um olho. Sim, um olho, pois o outro continuou dormindo. Resmungou então qualquer coisa como “vá embora” ou “dê o fora”, com voz cavernosa e gestos confusos de quem perdeu a razão. Aí deixei para lá e dei no pé. Melhor não arriscar uma rusga.

Em Penedo, parei num daqueles bangalôs de informações turísticas que ficam junto ao pórtico de entrada das cidades para perguntar sobre pousadas barateiras que pudessem me acomodar. Como era feriadão e Penedo é lugar altamente turístico, disseram-me que era bem provável que todos os hotéis e pousadas estivessem lotados. Eu disse que ia tentar e que, na pior das hipóteses, iria mais à frente até Itatiaia. Mas foram todos muito gentis e ofereceram até que eu dormisse lá, na tal casinhola informativa; parece que tinham colchonete e tudo para me oferecer. Aquilo muito me interessou, mas quando me avisaram que estava faltando água e que meu banho teria que ser adiado à mercê da indefinível probabilidade de que ela voltasse, decidi fazer mesmo minha busca e me mandei.

Coincidência incrível é que um dos primeiros lugares que vi em Penedo, antes mesmo de bater à porta do primeiro hotel, foi uma casa de venda de antigüidades em cuja calçada estava ninguém menos que o próprio Dom Quixote em pessoa. O homem, a lenda! Tive que aparecer numa foto com o doido.

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O mito

Logo no primeiro hotelzinho que arrisquei, dei sorte e encontrei vaga. Chorei o preço, consegui que o quarto saísse pela metade do valor normal; então fiquei por ali mesmo. Depois do banho, saí para comer truta, fui na famosa sorveteria finlandesa, dei uma sacada nuns roqueiros da antiga levando “Blackbird” e “The Boxer” no baixo, violão e percussão e então voltei ao hotel para dormir o sono dos justos que subiram de bicicleta a Serra das Araras. Aliás, é preciso dizer da sensação de dever cumprido que se tem no momento exato em que a cabeça bate no travesseiro após um dia desses. Seria preciso dizer, mas não sei dizer. É meio mágico. É também a explicação para a qualidade do descanso daquela noite, apesar da cama tenebrosa.

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A noite do primeiro dia

Fechei assim o primeiro dia da viagem, de pança cheia, todo torto sobre um colchão molenga, feliz e contente com a pedalada de quase 170 Km e ansioso por ver como me sentiria na manhã seguinte.


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3 comentários em “A Marcha do Imperador - 1º dia”

  1. Sonia Maria diz:

    PARABÉNS!vc é mesmo filho da célia gusmão…
    CORAJOSO VC!

  2. Sonia Maria diz:

    Eu quero ver as fotos,pô

  3. vigusmao diz:

    Fotos corrigidas! Os links estavam quebrados, mesmo, me desculpe!

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