A Marcha do Imperador – 3º dia
(Postado em 26/04/06, às 17:25.)São José dos Campos — Campinas (157,14 Km)
Domingo, 16 de abril de 2006
Os vinte dinheiros que paguei pelo pernoite no hotel-quase-um-pulgueiro não me davam o direito de reclamar da frugralidade radical do desjejum que ofereciam: pão com manteiga e café com leite. Muito bem, a gente complementa mais pra frente.
Esse mais pra frente foi a meros 25 quilômetros do meu ponto de partida, num posto já na boca da Dom Pedro. Na falta de ovo de Páscoa, um de galinha, quente ou cozido, não iria mal. Mas o menu não era tão variado e fiquei com os sempre confiáveis suco de laranja e pão com queijo. Aproveitei também a chance de abastecer de água a mochila e as garrafinhas.
Nutrido e hidratado, enfim, despedi-me da Dutra e entrei naquele tapetão que liga Jacareí a Campinas, embora em muitos trechos pareça ligar Coisa Alguma a Lugar Nenhum. Rios, vales, tudo muito bonito por ali. Eu, para poupar o joelho, pedalando bem mais sossegado e deixando a perna direita de boba em todas as subidas. A verdade é que eu estava lento como um crocodilo manco. Os pensamentos é que voavam. Absorto neles e em meu novo mundo, nem vi passarem as horas daquela manhã pascoal sem chocolate e sem coelho.
Apesar de toda a a mordomia que vinha recebendo, o joelho direito acabou jogando a toalha no meio desse terceiro dia. Falou que para ele a viagem tinha acabado. Eu disse que por mim estava OK e que continuaríamos sem ele. Fui, então, em frente, naquele esquema de girar mais e fazer força menos, o selim alto para poupar as articulações. Mas a viagem não estava nem na metade e eu não poderia ignorar o joelho grevista por muito tempo; precisava me recuperar e não parecia fácil. Por outro lado, a boa notícia era que o problema com as assaduras já estava resolvido: nem sinal delas.
Nos trechos de estrada mais próximos de centros urbanos, vi algumas bicicletas, em geral Barrafortes modelo Sassá Mutema, com canudinhos nos raios, pesando um chumbo, guiadas em geral por gente simples indo pro trabalho e que jamais viu coisa melhor. Guerreiros, estes sim! Ciclistas treinando vi muito poucos. Os primeiros surgiram nesse terceiro dia, na altura de Atibaia: uma menina e um cara bigodudo. Disseram-me que estavam se preparando para uma corrida que ia ter por lá não sei que dia. Achei legal conversar um pouco com eles, senti-me menos E.T.
Ah, sim! as aventuras estavam ainda começando. Esse foi o dia da chuva. Primeiro fez que ia desabar o mundo, começaram umas gotinhas, botei o casaco — menos por necessidade, àquele momento, que pra justificar o fato de tê-lo levado — e a chuva parou. Tirei o casaco e ela voltou bem forte.
Ia tudo muito bem e muito molhado quando um parafuso que vivia na sarjeta em meio a detritos de acostamento resolveu passar uma temporada alojado confortavelmente na maciez interna de meu pneu traseiro. A água caindo e o pneu furado, que jeito? Pra fazer o momento valer a pena, tirei fotos daquela situação toda com a bicicleta de cabeça pra baixo e o parafuso enfiado no pneu. Aliás, olhei bem para ele para ver se era um dos que alegadamente me faltavam à cabeça, mas não me pareceu familiar.
Fiz o conserto de forma nada seca, é verdade, e, pra piorar, a câmara de ar que botei, por alguma razão, não pegava pressão direito. Forcei um pouco e acabei arrancando o bico da infeliz. Tive que tirar de novo o pneu e pôr outra câmara, o que fiz sem reclamar. Fiquei ligeiramente desesperado, porém, quando a nova câmara também não quis encher direito. Antes que outro bico fosse arrancado, tirei a dita cuja pra tentar entender o que estava acontecendo. O que estava acontencendo é que eu, careca de trocar pneus na cidade, resolvi errar justamente na estrada. A ignorância que cometi foi simplesmente a de não ter tirado a rosca que prende a válvula-presta ao aro, tendo botado a câmara dentro do pneu com rosca e tudo!… tsc, tsc… Feliz de pelo menos ter descoberto a causa do problema, abri a roda pela terceira vez, tirei a rosca, coloquei a câmara e enchi. Dessa vez deu tudo quase certo. O problema agora foi que a bomba de encher não era boa o suficiente para botar a pressão necessária. Na cidade, quando fura um pneu, a menina quebra bem o galho: bota lá umas trinta e cinco libras e fica tudo bem. Agora, com a bicicleta carregada daquele jeito, qualquer coisa inferior a umas cinqüenta e cinco ou sessenta libras deixava o pneu baixo demais. Mas jeito não teve, então tive que seguir com a bicicleta ainda mais “pesada” em razão do pneu baixo. Só treze quilômetros à frente, e após várias subidas e descidas, é que fui conseguir um posto de gasolina para calibrar com a pressão certa… Nem preciso dizer que a bombinha vagaba viveu seus últimos dias de glória nessa viagem e já foi aposentada por imprestabilidade.

Pneu furado na D. Pedro I, debaixo de chuva
Hostilizado pelos quatro elementos durante todo o terço final do percurso do dia, cheguei em Campinas cansado, sujo e molhado até a alma. Mas feliz. Agora, pelo menos, já tinha superado algum contratempo. Estivera fácil demais.
Minha rotina, ao chegar a uma cidade desconhecida, era seguir as placas que indicassem a direção “Centro”. Não que a região central fosse necessariamente a melhor de cada lugar; o que queria era de alguma forma fincar minha bandeira, poder dizer que estive lá. E, fazendo dessa forma, teria também melhores chances de encontrar hotel e restaurante próximos um do outro. Depois, tendo chegado ao centro em questão, eu abordava algum transeunte com cara de cidadão pacato e pedia indicação de hotel “direito”, “que não seja um cinco-estrelas mas não tenha pulgas”, “só pra passar a noite”…
Em Campinas, falei com duas pessoas na rua. A primeira foi um cara numa moto que me perguntou, enquanto estávamos os dois esperando abrir o sinal num cruzamento, se era eu quem estivera na D. Pedro I, mais cedo, trocando pneu. Putz, era. O segundo foi o cidadão pacato que me deu o rumo do Hotel Opala, tão no centro da cidade que quase ocupava o lugar do chafariz ou da igreja.
Invertendo um pouco a ordem das coisas, apenas deixei a bicicleta no hotel e antes mesmo de tomar o banho — que teria que ser bem demorado — saí correndo para encontrar o que comer, com ganas de barbarizar a primeira lanchonete que visse pela frente. Tal era a fome. Acabei entrando num restaurante da década de trinta, onde ataquei ferozmente um prato apimentado e uns três ou quatro sucos de laranja, para pasmo e graça do garçom que muito simpaticamente me atendeu. Depois renovei meu estoque de barrinhas de cereal numa farmácia próxima, cuja atendente até agora não conseguiu decifrar satisfatoriamente de que planeta teria vindo aquele personagem de aspecto imundo e metido num casaco fechado até o pescoço e numa bermuda de lycra.



December 9th, 2007 at 9:42 pm
Três ou quatro sucos de laranja!!??
Isso me lembrou uma certa viagem pampulhesca…
Pelo menos vc encontrou um garçom simpático… (rs…)