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A Marcha do Imperador - 4º dia

(Postado em 27/04/06, às 21:02.)

Campinas — Pirassununga (125,95 Km)
Segunda-feira, 17 de abril de 2006

Como que por milagre, o dia amanheceu com meu joelho direito de volta à vida, totalmente recuperado e pronto para novas façanhas e aventuras. Mudança de cenário, eu agora percorreria a rodovia Anhangüera, que liga São Paulo (a capital) ao Triângulo Mineiro.

Como viria a fazer todos os dias a partir desse, comecei a pedalada de casaco devido ao vento frio das primeiras horas da manhã. Pouco tempo depois, já o estaria tirando. Quando fui fazê-lo, porém, já distante vários quilômetros do hotel de Campinas, percebi em um de seus bolsos a chave do quarto que eu esquecera de devolver. Roubo involuntário, primeiro souvenir da viagem. Mas voltar é que eu não ia.

Aliás, se você quer saber qual foi a primeira ocorrência digna de nota nessa nova estrada, vou precisar falar do Suco de Laranja Infinito. Ficava numa reentrância de beira de estrada. Como havia muitas coisas escritas na placa, acabei registrando apenas as chamadas “suco de laranja” e “R$ 1,50″. Atendendo ao imperativo da sede, parei e pedi um suco para a dona tímida, que depois não quis aparecer na foto. Um suco, eu pedi. Veio um copo de plástico vazio. Um suco, dona, não zero sucos. Achei que tinha alguma coisa errada e olhei de esguelha para a placa, o suficiente para perceber novos chamarizes: “tome a vontade” (sic) e “por pessoa” saltaram-me aos olhos. Meu Deus! Disfarçando minha ignorância inicial, dirigi-me ao enorme reservatório — que por extrema distração ou cegueira eu não tinha ainda visto — e tomei o primeiro de uns seis ou sete copos. Detalhe: suco natural de laranja doce, geladíssimo.

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Bom demais para ser verdade

Mais adiante parei no Graal Castelo, nas imediações de Limeira. Esse eu achava que conhecia bem; os ônibus de viagem sempre o usam para um pit-stop e já foram vários os lanches que fiz ali, tonto de sono, às duas da madrugada. Matei a saudade traçando um sanduíche caprichado e tentando entender como podem as coisas, algo como uma mera década depois, parecer tão diferentes.

De Campinas a Ribeirão Preto, só de estrada, são duzentos quilômetros e lá vai uma fumacinha. Confesso que, vendo o joelho bom, fiquei tentado a ir até lá de uma vez nessa segunda-feira. Acontece que, depois de três dias de esforço moderado pra forte, achei melhor idéia interpor qualquer coisa como uma Pirassununga no meio do caminho. E foi o que fiz, vencendo tranqüilamente a distância até aquela aprazível cidade.

Como cheguei lá relativamente cedo, me alojei num hotelzinho honesto e pude fotografar bastante a pracinha-com-igreja habitual após os não menos habituais e necessários ritos de banho e comida. Depois fui dormir tão cedo que mal tinha escurecido.

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Meu quarto no Hotel Municipal, em Pirassununga

Só um comentário: é inacreditável como as coisas são baratas nessas cidades longe dos eixos turísticos e das capitais. Com uma nota de dez reais, você faz miséria. Comi um crepe poderoso de peito de peru, queijo, tomate, cebola e orégano com molho de tomate e parmesão por cima, mais um balde de quase um litro de suco, e ainda um crepe de morango com chocolate, de sobremesa. Tudo pela bagatela de dez reais. Sabe quanto custa um único crepe de chocolate daqueles aqui no Rio? Nem queira saber.


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