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A Marcha do Imperador – 6º dia

(Postado em 29/04/06, às 15:29.)

Ribeirão Preto — Uberaba (177,93 Km)
Quarta-feira, 19 de abril de 2006

Ribeirão Preto e Campinas são enormes. De interioranas, só mesmo a localização e o sotaque da rapaziada. Naquelas cidades, os quilômetros pedalados da estrada para os hotéis e deles de volta para a estrada foram consideráveis e respondem pela diferença entre o total que eu efetivamente percorri, ao longo da viagem, e a distância anunciada pelo Guia.

Saindo do hotel, precisei ziguezaguear pela dezena ou mais de quilômetros que me separavam da Anhangüera antes que o sol nascendo à minha direita finalmente me trouxesse de volta a certeza de estar indo rumo ao Norte.

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Em movimento

O dia estava fantasticamente bonito. Por já me sentir experiente o bastante no manejo da bicicleta e da câmera, atrevi-me a fazer algumas fotos em movimento, sem parar de pedalar. Uma das mais legais foi a da minha própria sombra. Outra foi a de um jatinho que, de tão vertical em sua trajetória, mais parecia um foguete.

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Lançamento de foguete, próximo a Ribeirão

Dia que seria longo, já no primeiro terço dos quase cento e oitenta quilômetros que teria pela frente tive outro furo no pneu traseiro. Resolvida a intercorrência empatadora de vida, segui meu caminho sob um sol de fritar os miolos.

Era chão que não acabava mais, mas finalmente cheguei à última subida antes da divisa com Minas.

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Quase lá!

Logo a seguir, a descida até a ponte sobre o Rio Grande foi um dos momentos mais inesquecíveis da viagem: o retão descomunal morro abaixo, braços abertos à Titanic e nos ouvidos “Twilight”, do Eletric Light Orchestra. Eu estava voando.

Na hora de atravessar a ponte, passei o cordão da câmera pelo pescoço e, segurando-a com uma das mãos o mais firme que o chão cheio de pedrinhas permitia, filmei a travessia.


Ponte sobre o Rio Grande (cenas da filmagem)

Preciso neste ponto fazer uma reclamação: que ponte foi essa por onde passei? O que foi feito daquela ponte estreita, com as laterais altas, que nem ponte de filme? Fiquei decepcionado com a ponte impostora, não entendi nada.

A estrada sofre uma mutação de dar dó tão logo passamos para o lado mineiro. Nem sinal dos acostamentos paulistas impecáveis, por vezes nem sinal de qualquer acostamento. O mato alto tapando as placas, a estrada sem duplicação, sujeira pelos cantos. Até a Natureza resolveu bagunçar o coreto e reservou seus altos-e-baixos mais pronunciados para aquelas paragens. Foi complicado.

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Estradas de Minas, coitadas

Minha expectativa de chegar a Uberaba era muito grande, já que, durante uma fase de minha vida, freqüentei aquela cidade com assiduidade só explicada pelos arroubos juvenis de um coração enamorado. Jamais poderia imaginar que estaria, dez anos depois, passando por ali daquela maneira.

Encontrei uma Uberaba bem mudada. Foi difícil reconhecer-lhe as ruas, o casario antigo agora entremeado de lojas com letreiro neón. Fiquei também triste com o abandono de certos lugares que me foram caros, como a Praça Carlos Gomes com seu mato crescido subindo pelos bancos. Já com poucas esperanças de identificar algo que tivesse resistido incólume à passagem dos anos, vi-me em frente à sorveteria de onde outrora costumávamos sair com as goelas geladas; e acreditei, enfim: eu estava ali. De bicicleta.

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Uberaba, dez anos depois

Dos outros lugares que visitei, de como consegui guarida na casa de uma senhora bondosa e de como comi a primeira comida caseira em uma semana, não porei aqui os pormenores. Detalhes que apenas adiariam o fechamento de um dia que já tinha dado, para mim, mais do que tinha que dar.


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