A Marcha do Imperador – Prólogo
(Postado em 26/04/06, às 8:08.)
Não. Não é um pingüim quem vos fala. Assim não sendo, e apesar do título, não poderia ter e não tem esta narrativa qualquer relação com o documentário homônimo, ganhador do Oscar. A migração, aqui, foi em cima de uma bicicleta; e é bem outra a espécie rara.
Feriadão da Semana Santa de um lado, do outro o de Tiradentes, quatro dias de férias no meio: hora de pôr em prática a Grande Marcha Ciclística que eu vinha por meses ameaçando. Verbo esse, aliás, bastante adequado, pelo menos segundo a opinião generalizada de que tal passeio constituiria literal e descabida ameaça à minha integridade física e mental — se é que esta última já não se encontrasse irrecuperavelmente comprometida.
Meus padrinhos moram em Uberlândia, Minas Gerais, e fazia anos que eu não os via. Consta no Guia 4 Rodas que, da cidade do Rio de Janeiro, onde moro, até lá, há 1008 quilômetros de rodovias. Não nego que, ao ensejo de rever meus entes queridos, o número redondo de quilômetros tenha adicionado certo apelo irresistível. “Pô, Fulano pedalou mil quilômetros”. Garboso, não? Não tive, assim, qualquer dúvida sobre onde seria o ponto final de minha aventura. Além do mais, meu primo Otávio, filho de meus padrinhos, sujeito gozador, vinha desafiando — leia-se atiçando — meu instinto empreendedor, dizendo que eu seria “o Imperador” caso realmente pedalasse até lá, que ele próprio enviaria vinhetas para as rádios locais e faria panfletagem nos sinais-de-trânsito sobre “a chegada do Imperador”, que haveria eunucos com folhas de bananeira me abanando, mil virgens seminuas pendendo cachos de uvas sem caroço, toda essa fanfarronada. É claro que eu caí na pilha.
Lembro-me perfeitamente da noite em que tomei a decisão. Estava já deitado quando me ocorreu o eporquenão definitivo. Acendi a luz, peguei o mapão rodoviário do Brasil e fiquei debruçado sobre ele por quase três horas. Foi tanta a adrenalina imediatamente injetada em minha corrente sangüínea que depois mal consegui dormir. Quando finalmente o fiz, foi para sonhar que estava sobrevoando a ponte que atravessa o Rio Grande numa bicicleta alada. As semelhanças com o E.T. estariam apenas começando.
Decidido, fiz todos os preparativos e pesquisas para viabilizar o intento. Sondei distâncias, cogitei rotas fantásticas, importunei prefeituras, centros de informações turísticas, pais de amigos e fóruns de cicloturismo com perguntas sem fim. E a hora chegou.

Por ter um apego ridículo à minha cabeça e por querer conservá-la, até o fim da aventura, intacta e convenientemente posicionada acima do pescoço, o frio na barriga, na véspera, era enorme. A verdade é que eu estava muito confiante no meu preparo físico, a ponto de ter conscientemente ignorado, no planejamento, a recomendação do pessoal mais experiente de não fazer mais que uma centena de quilômetros por dia (e já tinha ignorado também a velha regra de não ir sozinho). Só que o preparo físico é apenas uma das muitas variáveis envolvidas num assunto desses, de modo que na quinta-feira, véspera da partida, eu podia ser visto nervoso até a medula, caladão, concentrado e apreensivo diante da aventura que ia começar. Minha mãe que o diga, pois mal consegui despedir-me dela quando fui a sua casa, na ânsia de ir embora para ajeitar todas as coisas nos alforjes recém-comprados. E de dormir logo e muito, pois tinha que acordar totalmente inteiro no dia seguinte para encarar a empreitada.

O veículo