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Europa 2007 - 10º dia (Flandres)

(Postado em 08/07/07, às 13:10.)

Tour de Flandres: Brugge — Ninove (272,41 Km)
Sábado, 07 de abril de 2007

O temido caminhão-vassoura — ou broom wagon, se preferirem meus amigos do Richmond Park — é o responsável por recolher os restos mortais dos ciclistas que abandonam uma prova por falência física, mental, ou ambas; com ele teriam sido os pesadelos daquela noite, se apenas tivéssemos lembrado de sonhar alguma coisa. Mas foi um sono tão superficial, tão desperto, que pulamos dos beliches sem lembranças de caminhões, vassouras ou coisa alguma. O Baiano talvez estivesse mais tranqüilo. Quanto a mim, só queria saber de ingerir o conteúdo dos embrulhos e sair correndo, um meio afã de adiantar o tempo.

Exterminamos, então, aquela verdadeira fartura sobre a pia do banheiro, para não acordar nossos amigos nipocanadenses, o Barba e o China. Aliás, pensar que tornaríamos a ver, na noite daquele mesmo dia, os caras que àquela hora roncavam completamente a salvo de nosso iminente Juízo Final era algo de certa forma reconfortante, porque nos lembrava mais uma vez que, come what may, em breve estaríamos mesmo de volta inventariando as mais recentes aquisições para nossa bagagem eterna. Com ou sem linhas de chegada, com ou sem caminhões sinistros.

Nem sinal dos raios do sol. Saímos do albergue, às 5h30 daquele pretume, e pedalamos juntos até a mesma estação de trem em que tínhamos chegado, na véspera. Lá, tivemos que nos despedir, pois pegaríamos trens diferentes: eu, para Brugge; para Ninove, o Baiano. Essa cena, na estação de trem, mais parecia a do gado que se entreolha pela última vez antes do matadouro. Sentia-me um verdadeiro boi manso, açoitado por ventos milenares, escorraçado por atendentes de kebabs malcheirosos, dormido em mangas de pernitos, e com a poeira de quatro países nas ventas. Marche!

foto: Eurosport.fr

Alessandro Ballan & Cia. em 2006 (sente o drama…)

For those about to ride, we salute you! A região de Flandres é a metade norte da Bélgica (a Valônia é a metade sul) e, se não possui extensas cordilheiras com picos imponentes, é, por outro lado, recheada de morrinhos enjoados. Muitas vaquinhas, carneiros e todas aquelas alegorias camponesas típicas como igrejinhas, riachos, vilarejos e caricaturas do Tom Boonen. Eis o cenário.

Toma-se um homem (feito de nada, como nós) em tamanho natural. Embebe-se-lhe a carne de um jeito irracional como a fome, como o ódio. Depois, perto do fim, levanta-se o pendão e toca-se o clarim. Serve-se morto.

Esse é o resumo. Foi uma verdadeira guerra, e a “Receita Para Se Fazer Um Herói” (salve, Ira!) por alguma razão me soou apropriada. Talvez porque tenha sido assim, uma espécie de herói, que eu, o Baiano e — acredito — todos os outros amadores que completaram a prova nos sentimos. Nossa guerra foi, evidentemente, a da auto-superação, aquela travada apenas contra os limites do corpo e da mente. Adaptando, porém, a receita, obtemos descrição bastante fiel, ainda que sucinta, do que foi nossa batalha final.


Filinha para a largada

Ponha alguns milhares de bicicletas e alguns milhares de fanáticos em fogo brando por cem quilômetros planos. Certifique-se de que esses fanáticos não estejam oficialmente competindo entre si, apenas brincando (à vera!) de quem-chegar-por-último-é-mulher-do-padre. Junte, então, algumas longas seções de paralelepípedos e algumas subidas por mais cinqüenta quilômetros. (Os mais fracos vão começar a pipocar, é normal. Aumente o fogo.) Quando começar a ferver, comece a acrescentar, uma a uma, dezoito paredes assustadoras, cada uma das quais tenebrosa o bastante para fazer qualquer pedaleiro diletante se arrepender por não ter escolhido jogar sinuca ou derrubar dominós. Não pare com os paralelepípedos, salpique-os aqui e ali até o fim, inclusive nos trechos com 20% de inclinação. No quilômetro 260, a receita está pronta. Serve-se morto.


Primeiros momentos na estrada

Verdade seja dita: serve-se, morto ou não, absurda, estupidamente feliz o seu ciclista, de um jeito que gruda no rosto, por horas ou dias, um sorriso de máscara. Mas entenderei o leitor que quiser seu dinheiro de volta se, depois de ter lido até aqui, se decepcionar com a incompetência do escritor em descrever a sensação final de qualquer modo mais convincente do que usando uns advérbios ou metáforas idiotas. Sinto muito, é o meu melhor. O fato é que estávamos mesmo tourdeflandrianamente felizes. Só dá pra saber se você viveu.

É como ler um livro do Amyr Klink. É como visitar uma recém-mãe na maternidade. A gente observa, até se emociona. Mas não tem idéia, a gente não tem idéia. O mais estranho é que agora, de narrador da história, eu já quase não tenho mais idéia. Sei que era eu quem estava lá, com o Baiano, mas aquela emoção já se esvaiu, diluída em tantas outras atividades e preocupações de que a vida é feita. Escrevo essas linhas, portanto, de uma forma até patética, até contemplativa. Também não estou mais lá — e a falta daquelas bicicletas todas e daquela comunhão em torno de um objetivo comum (verdadeiro exercício de fraternidade universal) dá uma solidão de náufrago.

Deixando de lado qualquer frustração por uma descrição emocional fajuta, atenhamo-nos então aos acontecimentos e seus detalhes físicos, que pelo menos ajudam a imaginar — ou relembrar — a coisa toda.


Meio ridículo, mas a câmera estava lá presa ao guidom…

Era chegada a hora. Parti de Brugge, às 7h30, no meio de um pelotão monstruoso (foram 18.000 participantes no total; acredito que de 3 a 5 mil tenham participado do percurso completo, de Brugge a Ninove). Já tinha conhecido, no trem, um italiano chamado Carmelo que estava correndo pela terceira vez, tendo abandonado em sua primeira tentativa e concluído em 12 horas mais uns quebrados na segunda. Admito que saber de seu abandono no primeiro ano não foi muito tranqüilizador, menos ainda quando descobri que ele era extremamente forte e pedalava igual. Ficamos lado-a-lado quase todo o tempo — graças exclusivamente ao excesso de paciência e solicitude do italiano — e reconheço que a experiência dele foi vital para o meu sucesso. O cara deu várias dicas — entre elas a de passar o mais rápido possível pelos paralelepípedos para minimizar a trepidação e a de começar as subidas realmente bizarras pedalando o mais lenta e cadenciadamente possível –, me deu um macete para contornar o defeito que surgiu, com ainda mais de cem quilômetros pela frente, no passador traseiro Dura Ace de minha super-bicicleta (super-castigada e sem qualquer manutenção havia mais de mil quilômetros), revezou a frente comigo para amenizar o vento, me deu biscoito, foi um verdadeiro team mate em todos os momentos e até comeu arroz que carregava num saco plástico em um dos bolsos.


Salve, Carmelo!

A organização do evento também esteve de parabéns, com as quatro paradas de alimentação muito organizadas e funcionais, tanto quanto a largada e a chegada. Os milhares de “torcedores” também fizeram parte do espetáculo e contribuiram muito para o gostinho de estar participando de uma clássica. As subidas eram brabinhas mesmo, não é um exagero narrativo. Teve muita gente empurrando. Reza a lenda que já teve ano em que até os profissionais empurraram, porque o chão molhado não dava tração para subir, em alguns pedaços. Eu só empurrei na subida número 6, que nem era a pior (era talvez a segunda ou terceira pior). Mas foi apenas nos metros finais, quando um cara resolveu parar bem na minha frente, me desequilibrando. Aí, tendo uma das sapatilhas desclipado do pedal, não conseguia equilíbrio suficiente para reclipar e continuar subindo.


Hora do lanche

As subidas eram todas numeradas. Antes de começar, vinha uma placa enorme com um número e com as informações sobre a criança: grau de inclinação médio, grau de inclinação máximo, distância total e desnível. Algumas vezes a placa aparecia antes de você ver a subida. Aí você passava pela placa, fazia uma curva e… valham-me todos os santos e mártires da história, o monstro estava lá.


No alto da 17ª subida (Muur-Kapelmuur)

O pelotão permanceu compacto durante muitas horas. Quando as subidas sérias começaram, já havia dezenas de pelotinhos, grupetos, trios, duplas, e aí era cada um por si. Mas tinha tanta gente boa e experiente que era ótimo quando dava para entrar no ritmo de um grupo, avançava-se muito. Quando não dava, o Carmelo estava lá! E algumas de nossas caçadas foram bem-sucedidas.


Eu e Carmelo dando uma respirada antes da patada final

O negócio foi tão puxado que eu comemorei muito a placa de 40 Km para a chegada, já me sentia em casa. Eu pensava: “pô, essa é praticamente a distância que faço todo dia de casa para o trabalho, não é possível que algo terrível vá me acontecer daqui para a frente. Eu vou conseguir!” Mas eram 40 Km diferentes, e a placa dos 30 só apareceria um século e meio depois…


Restos da última parada e a estrada começando a escurecer

Aconteceu. Passei pela linha de chegada, em Ninove, às 19h30, meio segundo antes de meu amigo italiano (sim, rolou um sprint fanfarrão!) e exatas doze horas depois da largada. Fotos, apertos de mão, abraços, caras de bobos. Dirigimo-nos ao ponto de entrega dos certificados e brindes, pegamos o que nos era de direito e nos despedimos. A Sra. Carmelo o aguardava. Eu, sem esposa, sem ninguém, ainda vaguei por lá mais um pouco, vendo as coisas, olhando para as caras das pessoas, tirando foto de pôr-de-sol e aproveitando os minutos finais de um dia inesquecível. Por volta das 22h, em Bruxelas, descia de um trem repleto de ciclistas satisfeitos e exaustos.

Reencontrei o Baiano na mesma pizzaria. Tagarelamos uma eternidade. Ele também tinha vencido, e eu fiquei, pela segunda vez no dia, um bocado emocionado, agora por ele. O Baiano do tombo, o Baiano das costas, o Baiano das metas. O Baiano de três capitais, o Baiano da Volta de Flandres. O cara estava ali comendo a mesma pizza que eu, afinal, e ao final. Fantástico. A amizade estava definitivamente selada.

Acabou. Podíamos, agora, finalmente, apenas fechar os olhos e descansar nossos trapos. E lembrar. E sorrir.

eu2 baiano
Valeu demais!

PS. Descobri que adoro parelelepípedos. Agora, toda vez que passo por eles, lembro de Flandres. E acelero!


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5 comentários em “Europa 2007 - 10º dia (Flandres)”

  1. jose antonio diz:

    Olá Vinicius, acabei de chegar de Campos do Jordão, cansado de pedalar alguns miseros kms de Caloi 100 e adorei encontrar sua msg na minha caixa.
    Sou obrigado a concordar com alguns por aqui - vc é ¨O CARA¨- .
    Não conseguiria dormir antes de lêr mais essa sua façanha.
    Conclusão: amanhã atraso no trabalho, mas valeu a pena.
    Abração.
    José Antônio.

  2. Alessandro diz:

    Pois é, e o Carmelo com essa pinta de gordinho, quem diria que pedalava tanto hein? rs… Anotação mental: “Não fazer juizo prévio baseado na circunferência abdominal do oponente”!

  3. vigusmao diz:

    Pois é. Precisava ver o cara nas subidas. Um touro…

  4. Baiano diz:

    Demorei para me manifestar mas não podia de deixar registrado mais uma vez registrado a experiência incrível que foi a viagem e sem dúvida grande parte devido a companhia do grande Sr. Pernito! E se consegui sobreviver as estilingadas e completar com tantos acontecimentos, agora motivo de boas risadas, foi graças ao “CARA”! Hoje além de companheiro de pedal, um grande amigo!

  5. vigusmao diz:

    É… só que agora o Baiano é o Sr. Alpe d’Huez!!! Venceu sozinho a subida mais clássica da Volta da França, e depois de ter encarado duas outras montanhas no mesmo dia. Ninguém segura mais o cara… da próxima vez, com certeza eu é que irei na roda!

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