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Europa 2007 - 2º dia

(Postado em 17/04/07, às 23:58.)

Calais — Amiens (170,55 Km)
Sexta-feira, 30 de março de 2007

Café-da-manhã em hotel é bom porque sempre dá para encher os bolsos de suprimentos para o pedal do dia. Até aí, como se diz, morreu Neves. A novidade é que os hotéis franceses têm, além de croissants e queijos bacanas, potinhos tipo manteiga-de-restaurante com porções individuais de Nutella, aquela pasta de chocolate diabolicamente deliciosa. Já não é novidade nenhuma que as malhas de ciclismo possuem três bolsos atrás… bom, acho que já dá para ter uma idéia do que repôs as calorias que consumi ao longo dos 170 Km desse dia complicado.

Na saída de Calais, cometi um erro bisonho. Seguindo as indicações do GPS para sair do centro da cidade, houve um momento em que me distraí e me perdi. Aí, coisa mais fácil, bastava olhar pro GPS e voltar pro ponto da rota que estivesse mais próximo — e pronto! Foi o que fiz: voltei para o ponto mais próximo e pronto, só que ao invés de retomar a rota no sentido certo, sem perceber fui no sentido oposto! Quando vi, estava a poucos quarteirões do ponto de partida — e só percebi a burrice porque vi uma das imensas torres que já tinha visto antes reaparecer muito maior do que deveria, depois de uma curva. Perdi quase uma meia-hora nessa brincadeira.

Falsos planos, sobe-e-desce (verdadeiro!), asfalto irregular, vento-contra e muito frio deram o ar de sua graça nesse dia. O frio foi por minha culpa, que saí de manhã sem a calça e o casaco impermeáveis. Depois que já estava molhado mesmo, fiquei com preguiça e com sensação de já-era e não parei para vesti-los.

O lugar mais interessante por onde passei foi a Floresta Dominial de Dresves (tradução livre, principalmente no “dominial”). Poucos quilômetros antes da floresta, havia uma placa dizendo “Estrada interditada a 7 Km”. Não havia indicação de rota alternativa. E mesmo se tivesse, não estava nos planos ter que fazer um desvio que acrescentaria ainda mais quilômetros à puxada do dia. Resolvi, pois, insistir. Encontrei um senhor um pouco à frente e o interpelei quanto aos motivos da interdição da estrada. Não entendi muito do que ele disse, mas o importante é que daria para passar de bicicleta e segui por ali mesmo, um pouco apreensivo.

Não demorou e eu estava mesmo no meio de uma floresta bastante densa dos dois lados da estrada. Parei pra tirar uma foto, mas meu instinto de preservação me impediu de fazê-lo. Estava já com a câmera apontada pro meio das árvores, num ponto em que havia uma pequena clareira próxima à pista, quando vêm lá de dentro, muito de repente e correndo à toda na minha direção, dois lobos pretos. Tudo bem, não tenho como saber se eram de fato lobos ou meros cachorros, mas… se não me falha a memória das leituras que costumava fazer duas décadas e meia atrás, dentro de floresta tem é lobo. E mau. Claro que dei no pé, sem nem guardar a câmera no case amarrado no guidom. (A interdição da estrada era afinal por causa de umas obras, segundo pude depreender da presença de caminhões no meio da pista, bem mais adiante. Sua única conseqüência, para mim, foi o fato de não haver, além do meu, nenhum outro veículo passando por ali, o que contribuia para o clima meio soturno do lugar.)

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Pelos ermos franceses — solidão boa

A escolha do trajeto exato que segui foi quase sempre feita de véspera e baseada em critérios objetivos (tipo de estrada, distância total, relevo) e subjetivos (beleza, importância histórica, probabilidade de virar almoço de lobo). O desse segundo dia foi um que poderia ter sido traçado de várias maneiras diferentes. Minha idéia, porém, foi a de seguir mais ou menos um outro evento “clássico”, pelo menos para os ingleses: o pedal beneficente Londres-Paris, que é realizado anualmente para levantar fundos — através do patrocínio motivado pela visibilidade do evento — para algumas instituições filantrópicas. Os caras costumam fazer o trajeto em quatro dias: Londres-Calais, Calais-Abbeville, Abbeville-Beauvais e Beauvais-Paris, parando a vinte ou trinta quilômetros do centro de Paris e sendo escoltados pela comitiva de apoio até a Torre Eiffel. Eu precisava cumprir o trajeto sem comitiva e em apenas três dias, portanto escolhi Amiens, que fica a meio-caminho entre Abbeville e Beauvais, para o pernoite anterior a Paris. Mas tracei o caminho de forma a passar por Abbeville, para assim respirar um pouco o mesmo ar da turba caridosa — e ruidosa — que, em poucos meses, estaria por ali.

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Abbeville

Depois dessa dureza de dia, metade do qual passei debaixo de chuva, cheguei a Amiens. O recepcionista do hotel que eu tinha reservado pela Internet não era muito amigável e foi logo dizendo que não havia vagas, lotação máxima. Eu sorri e disse que tinha uma reserva. Ele não sorriu de volta e repetiu ainda mais rispidamente que estavam lotados. Pára um pouco. O cidadão pedala o dia inteiro, chega morto ao hotel pelo qual ele já pagou e recebe um tratamento daqueles? Comecei a contar até dez, o velho truque. Lá pelo sete surgiu outro sujeito, um pouco mais educado a princípio e bastante mais educado depois da forma como eu expus minha, digamos, insatisfação com o serviço. Deu-me razão e desculpou-se. No fim das contas, parece que o hotel estava mesmo lotado e não faria qualquer sentido despejar um hóspede honrado para hospedar um ciclista maluco que estava ligeiramente irritado e demoradamente imundo. O que fez o segundo cara — que era um dos donos do hotel, como percebi depois — foi telefonar para outro hotel, conseguindo-me uma vaga. Depois devolveu meu dinheiro, colocou a culpa no site de reservas e me levou no seu Audi A6 até o outro hotel. O mínimo, não é?

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Bicicleta no Audi, depois pão e vinho em Amiens

Banho tomado, raiva dissipada, a fome era o último problema. Como a chuva tinha parado, calcei novamente minha “invenção”, da maneira como tinha feito na véspera: trata-se de um par de sandálias havaianas cobertas pelos overshoes das sapatilhas de ciclismo. Fica perfeito, parece que você está ainda de sapatilhas ou numa espécie de calçado de astronauta; mas ninguém diz que você está de chinelos. Resolve o frio e o problema de te barrarem na porta do restaurante, que lá tem disso. E, é claro, evita andar de sapatilha pelas ruas com a desenvoltura de um pato de tamancos. A melhor solução, é claro, é levar um par de tênis na bagagem, mas estou me especializando em bagagens minimais.

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A chegada, a Havaiana (”pura”, sem o overshoe) e a Notre Damme de Amiens

Peguei, portanto, um táxi para o centro de Amiens, onde comi e fiz as inevitáveis fotos. O dia tinha sido tão duro que dei-me ao luxo não só do táxi como de jantar num restaurante mais ou menos decente. Depois fui ao cyber local para resolver e-mail e GPS.

Na saída, o último problema do dia. Já era noite alta, não tinha mais quase ninguém nas ruas, tinha voltado a chover e eu não conseguia de jeito nenhum pegar um táxi. Tudo o que eu trazia era o nome do hotel, nada mais. Ou seja, ir de ônibus também não seria nada fácil, ainda mais com meu francês fajuto. Sem falar que eu também não via ônibus nenhum circulando. Perguntava para alguém onde podia conseguir um táxi, mandavam-me para um lugar. Chegava lá, tudo deserto. Surgia uma alma viva, perguntava de novo, mandavam-me de volta ao lugar original. Esperava quinze minutos, nem sinal de táxi, nem sinal de nada. Perguntava de novo, não sabiam. Confesso que rolou um princípio de pânico, ainda mais por perceber o quanto estava ficando realmente tarde e eu ali trocando minhas horas de sono por horas vagando, com pés encharcados e péssimas perspectivas, por aquelas ruas frias. No fim, passou um táxi pelo outro lado da rua e eu saí em disparada acenando e gritando. E foi assim que não precisei dormir na Notre Damme de lá.

Veja também:
– o álbum de fotos completo do dia.


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Um comentário em “Europa 2007 - 2º dia”

  1. Cida diz:

    Divertissement et patience…
    Loups ? Là déjà c’est mauvais excessivement. J’irais pour la maison de la vovó. Là, le café du matin est mieux encore.
    Perdoe-me a ousadia. Foi só pra manter o clima de Amiens… Rss…

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