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Europa 2007 – 3º dia

(Postado em 18/04/07, às 18:20.)

Amiens — Paris (140,33 Km)
Sábado, 31 de março de 2007

Como de costume (até o momento), o dia começou com um café-da-manhã digno. Não satisfeito em encher a barriga e os bolsos de pão com queijo e Nutella, dessa vez me empolguei e enchi de suco de laranja o reservatório da mochila. São 3 litros, mas em minha defesa alego que não enchi até a boca. A técnica foi a da simples cara-de-pau: fui até a mesona com as coisas bebíveis, peguei a jarra inteira de suco e levei-a até minha cadeira, em cujo encosto o Camelbak já estava devidamente dependurado e desenroscado. Olha prum lado, olha pro outro e tchuáááá, volta com a jarra vazia pro mesão e reclama com a atendente que acabou o suco. (Brincadeira! Não reclamei, não!) Não cheguei a me sentir um ladrão na verdadeira acepção do termo, posto que não há limite de consumo por ciclista e o preço do hotel era uma exorbitância que eu só concordara em pagar por causa dos eventos da véspera envolvendo Audis e reservas online fajutas. Estava só compensando um pouco.

O tempo estava meio esquisito mas eu, muito otimista, saí de novo sem as partes impermeáveis. Explico: o casaco Gore-Tex azul que eu praticamente tatuei na minha pele pelos dez dias de viagem é, na prática, impermeável. Parece que só não é considerado como tal porque existe um teste em que o material precisa impedir a passagem de água jorrada de uma bica situada a 10 metros de altura. Segundo a lábia do vendedor inglês, o casaco azul resistiria a bicas que estivessem a 9 metros de altura, por isso seria water-resistant, não water-proof. Eu tinha levado um casaco à prova d’água de verdade, mas tive medo de deixar a coisa toda menos transpirável e vir a ser mais incômodo do que vantajoso o desprezível ganho em impermeabilidade que ele pudesse representar.

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O começo de um dia difícil

Não demorou muito e começaram a me jogar água de uma altura bem maior do que os 9 metros certificados. A roupa até que agüentou bem, sim; o problema foram os pés. Explico de novo: eu estava usando, nesta ordem, meia comum de algodão, meia impermeável, sapatilha e overshoe impermeável. Verdadeira couraça intransponível, resistente a (ou “à prova de”, whatever) emissões radioativas e tiros de escopeta. Só que eu mesmo sabotei o invento, deixando as pernas apenas com a bermuda do bretele, os pernitos removíveis e nada mais. A chuva batendo ali o dia inteiro transformou os pernitos em esponja. Uma vez que os pernitos estavam infiltrados nos bunkers antibomba das sapatilhas como cavalos de Tróia, a água chegou até os pés sem ter que atravessar o escudo, mas por dentro dele. Se eu estivesse metido na calça impermeável, não teria passado nem uma gota d’água. Maldição.

Debaixo de chuva, com frio e com as patinhas molhadas, nunca antes na vida quisera eu tanto chegar a Paris. Aí veio o lado bom: pedalei bem forte, podia sentir a forma voltando. E foi assim, numa espécie de contra-relógio para portadores de bagageiro de canote, que entrei em Paris. Pena tê-lo feito pela porta dos fundos, e não subindo a Champs-Élysées.

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A caminho de Paris

Eu ainda precisava cumprir minha promessa de passar por baixo da Torre Eiffel com a bicicleta, num gesto simbólico de ter completado sem amarelar o Londres-Paris, único objetivo que eu considerava realmente atingível naquela loucura toda de Roubaix, Amsterdã, Flandres. Tinha dito ao Brasil que, se não o fizesse, mudaria meu nome para Carmelita, com certidão passada em cartório. Mas resolvi deixar para o dia seguinte (a visita à torre, não ao cartório), quando o tempo estivesse melhor e meus pés, mais secos. O nome já estava a salvo.

A chegada no albergue Le D’Artagnan foi tranqüila. Na recepção perguntei pelo Baiano, que já deveria ter chegado e que teria dado meu nome para reclamar a reserva. Disseram que não havia baiano algum hospedado ali e deram-me a chave de um quarto desocupado. Subi de elevador com a bicicleta sem grandes problemas, improvisei um varal no quarto vazio e dei uma arrumada nas coisas. Depois, tomei banho e fui dar um alô para casa num cyber próximo. Jantei, em seguida, no próprio albergue, perguntei de novo pelo Baiano (nunca foi visto) e fiquei fazendo hora na área social do lugar, esperando, num golpe de sorte, vê-lo ou ser visto por ele. Mas o Baiano nada de surgir. Mal sabia eu que ele já tinha chegado (antes de mim!) e sido encaminhado para um quarto diferente do meu — e àquela hora já tinha até visitado a cidade e subido a pé as escadas da torre famosa.

Já era meio tarde e eu estava preocupado e pensando e-agora-josé quando resolvi subir e descansar. Enquanto me encaminhava para o elevador, vi o sujeito e o sujeito me viu. Eu tinha que ser eu, ele pensou, e ele tinha que ser ele, pensei eu. Éramos.

Depois que desfizemos, após encontro tão casual e fortuito, toda a confusão dos recepcionistas loucos (o Baiano chegara inclusive a pagar a diária dos dois e eu, a minha), carreguei minhas coisas paro o quarto onde ele estava (adeus, varal) e ficamos conversando e repassando os planos. Depois ele tentou jantar, mas já tinha passado da hora. Então fomos mesmo dormir, que o dia seguinte prometia.

Veja também:
– o álbum de fotos completo do dia.


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Um comentário em “Europa 2007 – 3º dia”

  1. Cida diz:

    Aqui, deu pra sentir de tudo: vergonha… passou logo… afinal, aquilo não era bem aquilo; raiva – que teimosia, hein?; dó… tadinho do garoto; alívio!

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