Europa 2007 – 4º dia
(Postado em 26/04/07, às 21:05.)Paris — Dammartin-en-Goële (69,55 Km)
Domingo, 01 de abril de 2007
Amanheceu um lindo dia de sol, finalmente. Perfeito para o passeio de bicicleta pelas ruas da Cidade Luz. Não faria sentido apenas passarmos por Paris, não existe algo como passar a noite em Paris num albergue suburbano e partir no dia seguinte com a pressa de quem fosse tirar o Luís XVI da guilhotina.

Um baiano e um carioca à beira do Sena
Então, depois do bom café e das primeiras fotos da recém-formada e imbatível dupla, fomos até o centro de Paris. Primeiro passamos por dentro do pátio interno do Louvre e fotografamos às margens do Sena. Depois passamos pelo Jardim das Trulerias e subimos a Champs-Élysées, onde, ao invés de milhares de fãs acenando para seus heróis a 60 Km/h na reta final de seu maior evento esportivo, o que havia eram milhares de carros e ônibus desviando dos dois heróis de mentira que atrapalhavam o trânsito.
Depois que passamos por debaixo do Arco do Triunfo (peço desculpas ao leitor, por qualquer coisa…), seguimos para a Torre Eiffel. E essa foi a foto que salvou minha reputação.
Com a alma lavada, voltamos para o albergue. Queriam mais?
Mas a coisa não tinha nem começado e vagabundo já estava aloprando. Íamos os dois margeando comportadamente o Sena, quando o que estava na frente resolveu sair costurando os carros todos, pedalando em pé como um possuído. E o pior e mais inusitado é que o que vinha atrás não se fez de rogado e veio com tudo, costurando igual, rindo e gritando para o outro “huahuahua, neguinho já está esculhambando”. Só faltou a helmet-cam (camerazinha de vídeo presa ao capacete). Mas é claro que nenhum de nós pretendia conhecer os hospitais parisienses, então voltamos a nos comportar e a seguir tranqüilamente a direção apontada pelo GPS. Nem percebemos e estávamos de volta ao albergue da Rua Vitruve, a poucas horas do começo da verdadeira missão. Sim, prometia.
Este primeiro dia pedalando em dupla foi incrível. Incrivelmente azarado. A seguir, a seqüência de eventos bizarros. Cuidado para não perder a conta.
Depois que voltamos da expedição ciclofotográfica matinal, deixamos nossos meios de transporte no albergue, almoçamos por lá mesmo e fomos ao cyber para explicar ao GPS como fazer para nos tirar dali rumo ao norte. Não seria a coisa mais simples do mundo, pois estávamos no meio da teia da aranha; e assim perdemos bom e precioso tempo às voltas com nossa cartografia internética. A lição é que, de uma próxima vez, entradas e saídas de metrópoles devem ser preparadas em casa. Mas o importante é que conseguimos a rota e, com ela, chegaríamos seguros e sem sobressaltos à estrada e ao destino do dia. Será?
Pra começar, o Baiano deu pela falta de sua mochila — com todos os documentos, passaporte e tudo — quando já estávamos praticamente de saída. Pensando bem, já fazia algum tempo desde a última vez em que a mochila se tinha feito notar. Portanto, ela poderia ter sido esquecida horas atrás, sem que seu desaparecimento tivesse afetado nossas vidas. De repente, cadê a mochila? Sai baiano em disparada rumo ao cyber, fica carioca estático imaginando uma mochila pousada alegremente numa mureta às margens do Sena.
A má notícia trazida pelo baiano que retornou do cyber-café foi a de que a mochila continuava sumida. A boa foi sua certeza de que a mochila tinha voltado da expedição ao centro de Paris. O carioca, animado com os alegados 100% de probabilidade de que a mochila estivesse naquele exato prédio, começou a procurá-la e — sorte dos diabos! — encontrou-a no primeiro lugar onde resolveu conferir: perto da máquina-trocadora-de-dinheiro, que tinha, pouco antes, recebido uma única nota de 20 euros e, em resposta, jorrado dezenas — se não centenas — de moedas, permitido ao Baiano comprar seu ticket de almoço na máquina-vendedora-de-tickets-de-almoço movida somente a moedas. Confuso, como tudo no albergue Le D’Artagnan. Mas a mochila estava achada.
Fim de papo no albergue francês. A viagem ia começar. Depois do alongamento levado a sério pelo Baiano mas meio apressado de minha parte, partimos. Partimos e demos de cara com a primeira subida (até o famoso “Le Lilás”). Deu para esquentar, estava tudo bem.
Estava tudo bem demais. A estrada seria curta, eu não tinha a menor preocupação com coisa alguma. Estava um pouco tarde, é verdade, já eram quase 16h. Mas só começaria a escurecer lá pras 20h, tínhamos tempo de sobra. Só mesmo uma seqüência extremamente improvável de contratempos poderia atrapalhar nosso plano de dormir em Compiègne para começar o dia seguinte na linha de largada da Paris-Roubaix. Ou, é claro, algo como um acidente. Mas, com as estradas perfeitas que tínhamos pela frente, isso era definitivamente algo com que não precisávamos nos preocupar. GPS funcionando, tempo bom, nada a temer. Adeus, Paris! Quando será que nos veremos de novo?
“Aaaiiiiii”… POOOOOOU!!!! Vamos de novo. O leitor precisa ler o “ai” do jeito certo. É aquela típica antecipação do desastre, proferida na fração de segundo anterior ao inevitável e doloroso desfecho. “Vai bater, aaaiiiii!”… já bateu. No caso, o grito foi do Baiano, que vinha atrás de mim e não percebeu quando eu parei no sinal vermelho. Não exatamente porque estivesse vermelho, já que só mais à frente seria eu contagiado pelo jeito caxias que tem o europeu de cumprir as regras à risca; mas pelo fato de que vinha um carro na transversal e eu não pretendia virar patê. O fato é que o time não estava entrosado e conseguimos a proeza — que tentaríamos repetir mais algumas vezes ao longo da viagem — de nos acidentar um no outro. Com o joelho todo ralado e sangrando, além a dor da pancada, o Baiano teve que ser macho para seguir. E seguiu, depois de lavar a ferida com água da caramanhola. Começamos bem…
…então não seria o pneu furado que tivemos logo em seguida que nos desanimaria! Pneu traseiro do Baiano, mal acabáramos de pegar o estradão que sai de Paris. Era um dos trechos menos amigáveis para ciclistas, com pista dupla nos dois sentidos e muitos carros e caminhões passando. Mas tinha um mini-acostamento, e a troca foi feita sem problemas. Digo, sem grandes problemas. Primeiro, o pneu não queria voltar para dentro do aro de jeito nenhum. Depois, na hora de encher a câmara, cadê o bico? Tinha entrado para dentro do aro!… Tira tudo de novo, luta contra o pneu outra vez… e eu segurando a bicicleta sem roda para não bater com o câmbio traseiro no chão e não ter que virá-la de cabeça para baixo com bagagem e tudo. Mas depois até que foi engraçado ver o Baiano limpando as mãos no saco de lixo, do outro lado da rua!

O local do primeiro furo e o asseio exemplar do Baiano
Tudo em ordem pra seguirmos viagem. Começamos a pedalar melhor um pouco, tentando dar algum ritmo e compensar o tempo perdido. Pouco depois, numa agulha da estrada, eu acabei indo pela pista externa (com a intenção de voltar para a pista central mais à frente), apenas porque não quisera parar para esperar os carros todos pararem de passar antes que pudesse retomar a pista central. O Baiano, que tinha previsto a agulha com mais antecedência, já tinha escapulido para a pista “certa”. Então fomos, lado a lado, por meio minuto. Ele na pista do meio, eu na de fora, com uma mureta daquelas entre a gente. Mas o que será que o GPS está dizendo aqui?… ah, sim, nós quase passamos direto. Tínhamos que entrar numa daquelas asas-de-xícara da estrada, que são os acessos aos viadutos (você entra à direita, a asa te joga num viaduto por cima da estrada caindo à esquerda de onde você estava, imaginou?). Eu, por sorte, estava na pista certa; só que o Baiano estava na pista central… fazer o quê? Pular a mureta com a bicicleta, que jeito. Se apenas ela não estivesse com uma mochila de uma tonelada atrás, teria sido mais fácil. E menos engraçado!
Resolvido o problema da mureta, seguimos nosso caminho. Não demorou muito e começamos a ser buzinados. Não que estivéssemos atrapalhando o trânsito, nem nada. Era uma estradona de pista dupla nos dois sentidos, com acostamento largo. Aí raciocinamos que os motoristas deviam estar pensando que ainda estavam na autoroute (o equivalente francês da motorway inglesa: pistona de alta velocidade proibida para não-motorizados como nós). Mas, naquele ponto, a estrada não era mais a autoroute que tinha sido lá para trás. Sua classificação muda, a partir de um ponto, e ali onde estávamos ela era uma mera “N”. (Cabe aqui mais uma explicação: as estradas européias podem ser “E”, “A”, “N” ou “D”, em ordem decrescente de fluxo e importância — e crescente de agradabilidade e adequação a nossos veículos alternativos. As “E” e “A” sabíamos proibidas para nós. Pensávamos que as “N” e “D” eram todas liberadas. Na verdade, como estávamos prestes a descobrir, nem todas as “N” o são.) Continuamos a pedalar na certeza de estarmos dentro da lei e de serem os motoristas franceses uma cambada de ignorantes, cegos ou no mínimo uns desatentos! Havia imensas placas mostrando um “N” enorme quase que a cada quilômetro.
As buzinas estavam começando a ficar realmente irritantes quando fomos parados pela polícia. Os caras foram logo esbravejando para mim qualquer coisa que não entendi. Enchi lingüiça enquanto o Baiano se aproximava com seu francês nativo, agora era com ele. O policial então esbravejou pra cima do Baiano e, no fim, acabamos aceitando a proposta irrecusável do irritadiço gendarme: nós sairíamos da estrada e ele, em agradecimento, não nos prenderia ou mataria. Detalhe: não poderíamos voltar coisa de uns cem metros pelo acostamento para sair decentemente da estrada por uma estradinha vicinal, não… tínhamos que sair imediatamente, pulando mais uma mureta — e descendo pelo barranco, mato abaixo!
Que jeito!… barranco abaixo fomos nós. O pior era a situação sem-pai-nem-mãe em que estávamos. O GPS nos mandava ir para o norte; a única estrada que podíamos seguir nos levaria ou para leste ou para oeste. Unidunitê e fomos para oeste, na esperança de conseguirmos algum lugar para comprar o mapa que já deveríamos ter trazido; ou um cyber-café, para reprogramarmos o GPS passando apenas pelas garantidas e onipresentes estradas “D”. Nem uma coisa nem outra encontraríamos ali no meio do nada, àquela hora e num domingo. Então fomos adiante. Só queríamos chegar em lugar habitado, àquela altura. O dia seguinte nos traria mais sorte e corrigiríamos tudo. Pensávamos nós.
Avistamos, enfim, uma cidadezinha perdida, espetada no alto de uns montes. Decidimos tentar a sorte, e subimos algumas ruas bem íngremes até aquilo que podíamos chamar de centro do local: uma ruela em que havia uma venda, cujo dono nos fez saber da existência de um hotel nos arredores. Seguiríamos ou ficaríamos por ali mesmo? Formou-se uma espécie de comitê para nos ajudar a sair daquele impasse: o dono da venda, muito falador; um freguês, calado, com um menino; e um louco, esse era mudo de verdade. O louco parecia ter entendido que estávamos perdidos e não parava de murmurar e gesticular. O menino ria dele o tempo todo. O dono da venda, na maior parte do tempo, o ignorava, mas às vezes mandava que ficasse quieto. Ele não obedecia. Depois o dono da venda chamou um outro (vendeiro, não louco) que falava espanhol. Depois de acompanharmos uma exibição meio exagerada de seus conhecimentos de geografia francesa, decidimos seguir viagem para uma tal Senlis que nos foi indicada. Haveria caminho de lá para Compiègne e o dia ainda estava claro o suficiente, apesar da hora, para arriscarmos avançar um pouco mais. Despedimo-nos de todos, até do mudo lelé, e partimos. Quer dizer, eu parti. O Baiano ficou. Voltei. O que houve? Pneu furado… e não, isso não era uma pegadinha de primeiro de abril!
É claro que desistimos de qualquer outra coisa naquele dia. Chutamos o balde, voltamos à venda, entramos na venda e compramos na venda. Precisávamos de algo para comer à guisa de janta. Depois o Baiano colocou um pouco de ar no pneu furado, apenas o suficiente para chegarmos ao tal hotel. Seguimos, então, por uma descida longuíssima, que provou o quanto tínhamos, de fato, subido para chegarmos à Rua da Venda, digo, ao centro de Dammartin-en-Goële (nome que só fui descobrir já de volta ao Brasil). O hotel, que era mais próximo de uma outra cidadezinha — chamada Longperrier — do que da própria cidadezinha da venda, fazia parte daquela rede “Formule 1″, uma espécie de hotéis self-service onde tudo é (mal) automatizado e você não encontra vivalma durante quase todo o tempo. Por sorte, ou talvez sem fazer a menor diferença, tinha um sujeito na recepção. Bom, pelo menos evitou que tivéssemos que usar as maquininhas de check-in. Conseguimos um quarto, cuja porta se abria pela digitação de um código, e ali ficamos.
O quarto até que não era horrível. Havia, sim, um cheiro de urina felina no ar (mijo de gato, vá lá), mas tenho que admitir que, dada a condição quatro-dias-sem-sabão de minha indumentária de ciclo-astronauta, a culpa não era do hotel. Comemos as porcarias que compramos — e que incluiam um queijo Camembert molengo, talvez gosmento — e dormimos, que não podíamos dar mais nenhuma chance ao azar. Se fosse todo dia assim, a gente em um mês inteiro não sairia nem da França.
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May 2nd, 2007 at 6:53 pm
Filho…
Lindo e hilariante relato. Sabe que sempre “viajo” junto com as suas “loucuras” de bicicleta. Se não virar um livro, mato você.
Parabéns !
June 27th, 2007 at 4:46 pm
Aqui estamos ligados na estória e viajando contigo….Valeu!!!
August 1st, 2007 at 10:59 pm
Vi tantas cabeças guilhotinadas por lá…
August 1st, 2007 at 11:04 pm
Hahaha, é mesmo. No Louvre tem uma penca de escultura sem cabeça!