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Europa 2007 - 5º dia

(Postado em 04/05/07, às 19:15.)

Dammartin-en-Goële — St. Quentin (129,10 Km)
Segunda-feira, 02 de abril de 2007

O café não foi muito mais do que as sobras de pão e Camembert da véspera, mas as primeiras horas de pedal sem dúvida o compensaram. Chegamos a Compiègne — que afinal não tínhamos desistido de ver o ponto de partida da Paris-Roubaix — sem sobressaltos e passando por lugares bem tranqüilos…

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A caminho de Compiègne

…como este em que tiramos a ridícula foto abaixo.

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Travessia de animais

Em Compiègne, conseguimos alimentar o GPS com a rota até Bruxelas num cyber onde pudemos entrar com bicicleta e tudo. Pretendíamos dormir na quase fronteiriça Le Cateau-Cambrésis e seguir até a capital belga no dia seguinte. Fazia um belo dia de sol e a maré de azar parecia ter abrandado: estávamos otimistas.

Depois de um almoço atipicamente decente num restaurante tipicamente chinês — e de termos comprado um mapa, just in case –, dirigimo-nos ao ponto zero da infernal Paris-Roubaix. Passamos, então, a seguir, por algumas horas, as pegadas dos grandes nomes que por ali passaram e passam, todos os anos.

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Bom menu, melhor mapa

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Compiègne e a largada da Paris-Roubaix (disfarçada de rua normal)

No meio de uma subidinha interessante — de um ponto de vista masoquista –, resolvi parar para uma foto. Era o prédio da Gendarmerie Nationale, a casa dos hômi. Se o francês comum já tende a ser rude por natureza, o francês incomum que guarda a entrada de uma Gendarmerie Nationale é muito mais. “Não pode tirar foto”, gritou lá de dentro. “D’accord, d’accord“, desculpei-me, guardando imediatamente a câmera e gesticulando uma concordância pacata. “Não pode tirar foto ou vou confiscar a câmera!!!”, bradou com redobrado impulso agressivo, a câmera já até dentro da bolsa, no guidom! Era burro o sujeito? Juro que fiquei com medo de ser atacado e me mandei o mais rápido possível, antes que ouvisse algo como um “não pode tirar foto ou vou confiscar a câmera, matá-lo e atirar seus trapos aos cães, imbecil”. Vazei. E o Baiano achando graça da sutileza do cidadão…

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Pelos caminhos da Paris-Roubaix

Continuamos, então, a trilhar os quilômetros iniciais e ainda tranqüilos daquela que é chamada de Inferno na Terra. Como Eddy Merckx não era professor carioca, muito menos engenheiro baiano, lembretes dolorosos de nossa infinita inferioridade ciclística não demoraram a aparecer. O primeiro, evidente, era o próprio ritmo, muito longe de ser uma maravilha. Depois foram as costas do Baiano, que resolveram doer. E doeram tanto que tivemos que parar e parados ficamos por quase uma hora. Quando meu companheiro de viagem já estava se sentindo melhor, e depois de termos diminuído um pouco a altura de seu selim, seguimos, na esperança de vencermos os quilômetros que nos separavam da tal Le Cateau. Na verdade, àquele momento, já pensávamos em jogar a toalha um pouco antes, talvez em St. Quentin. O problema, no entanto, era óbvio: quanto menos pedalássemos hoje, mais teríamos que pedalar amanhã. E amanhã precisaríamos chegar — de qualquer maneira! — a Bruxelas. Do contrário, corríamos o sério risco de comprometer o restante da viagem com aquele acúmulo de distâncias não-cumpridas. Não… mesmo que as costas baianas voltassem a doer e parássemos de pedalar imediatamente, o fato é que tínhamos de verdade que corrigir tudo e estar em Bruxelas na noite do dia seguinte. Mas ainda dava para avançar bastante! Vambora!

Um minuto se passou. Um único minuto, após aquela hora inteira parados. Mal tínhamos retomado a rota e… pfffffffffiiiu! Minha vez. Furo no pneu traseiro. E pensam que foi só isso, um mero furo? Não. Depois de trocada a câmara, percebi que o próprio pneu estava rasgado na lateral, e de um jeito que tornava muito arriscado continuar, pois a câmara já ficava escapulindo por ali um pouco. Não tinha jeito, aquele já era. E Le Cateau também.

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Parada para conserto: câmara, pneu e costas

Talvez tenha sido nesse momento que um de nós cunhou a expressão que se tornaria célebre ao longo da viagem. Não passava de um resmungo reticente, algo como um lamento conformado de quem ao mesmo tempo se exime de qualquer culpa e tenta achar graça na desgraça: “muitas variáveis, muitas variáveis”…

Pense bem: é coisa demais pra dar errado! Se Murphy se contenta com uma pequena chance de que algo dê errado para que sua lei infalível estrague tudo de vez, quem dirá com aquela quantidade fantástica de problemas possíveis. Muitas variáveis, ninguém consegue ter o controle de tudo! Costas, furos, rasgos, acidentes, hotéis, muretas, mudos, vendeiros, gendarmes, mapas, GPS com pouca bateria, cyber-cafés fechados ou inexistentes, taquinhos quebrados!… Pois é, tinha esquecido de dizer: a pontinha do taco esquerdo do Baiano tinha quebrado e a sapatilha ficava soltando do pedal a todo instante. Desde Compiègne que procurávamos em vão uma loja de bicicletas (eu e minha ensaiadíssima “savez vous où est-ce qu’il y a un magazin de vélo, s’il vous plaît?“) e nada…

Mas troquei o pneu, pus a câmara-de-ar novamente no lugar e lá fomos nós com a cara no vento. Até que chegamos, finalmente, a St. Quentin. Já estava escurecendo e era lá mesmo que íamos ficar. Bom, teríamos 180 Km para cumprir no dia seguinte. Se ao menos não tivéssemos tanto azar, não seria de todo impossível. Mas havia uma certa tensão no ar, vamos admitir.

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Visões marginais de um entardecer eterno

Se este relato fizesse o estilo “Director’s Cut“, em que se incluem todas aquelas cenas deletadas por censura, bom gosto ou discrição, conteria a descrição dos trajes e da condição (anti-)higiênica em que me atirei aos brancos lençóis daquele tépido beliche, no albergue são-quentiniano. Mas como se trata da versão oficial, dará apenas a entender que os pernitos de ciclismo fizeram-me as vezes de pijama por uma noite. E deixará também apenas subentendido, sem detalhes sórdidos quanto a eventuais malodores fisiológicos, que passei longe da água e do sabonete naquela noite. Portanto, e ainda que en passant, confesso aqui a sujismundice — e o faço espertamente antes que o Baiano me dedure em seu relato!

Mas há atenuantes, há atenuantes. O cansaço, por si só, não justificaria a porca ousadia. É verdade que havia a responsabilidade de aproveitar todos os minutos de descanso possíveis para encarar o dia seguinte pedalando por dois, se fosse preciso. Mas o motivo real, saiba-o o sempre asseado leitor, foi bem mais prosaico: minha mochila com as coisas de banho tinha sido distraidamente trancada na garagem do lugar, junto com as bicicletas, e eu não tinha o menor senso de humor, àquela hora, para pedir ao francesíssimo e grosseirão — com o perdão do pleonasmo — casal de velhotes donos do lugar o favor de abri-la. Junte-se a isto o cansaço e a perspectiva de um dia seguinte tenebroso, o resultado é um figuraça dormindo sem banho, sem escovar os dentes e só de pernitos num beliche tosco. Mas com um puta sorriso na alma.

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Em St. Quentin

Ah, sim… sabem como o dia terminou para o meu amigo? Trocando pneu. Mais um, bem no fim do dia. Mas agora vem o mais pitoresco da coisa toda: este veio a ser o último furo de toda a viagem. E olhem que, somando as rodagens das duas bikes, ainda tínhamos pela frente quase 1500 Km!

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O último furo

Veja também:
– o álbum de fotos completo do dia.


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Um comentário em “Europa 2007 - 5º dia”

  1. Leda diz:

    Me emocionei qdo mencionou a “sujismundice”. Tão somente por ter me lembrado do cunhado mais querido, falecido há quase 2 anos, criador do personagem Sujismundo (Ruy Peroti). Adorando seu relato…

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