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Europa 2007 - 7º dia

(Postado em 29/05/07, às 20:41.)

Bruxelas — Antuérpia (62,26 Km)
Quarta-feira, 04 de abril de 2007

Se a viagem tivesse terminado ontem, já teria valido muito a pena e diríamos tê-la fechado com chave de ouro. A sensação de realização e vitória tinha nos invadido de um jeito absurdo. Quando saímos a pé para comer pizza no único lugar aberto àquela hora (tarde da noite, para os padrões europeus) e naquele lugar (subúrbio brabo), estávamos satisfeitos de verdade. Pensando bem, tínhamos passado longe de qualquer tipo de problema físico, mecânico ou pneu-furátil durante todo aquele grandioso dia. Todas as batalhas foram exclusivamente entre nós e os elementos naturais contra os quais estávamos pelo menos psicologicamente preparados para lutar.

Só tem que, no fim do dia, rolava um cansaço tipo anotaram-a-placa-do-elefante, sabe como é? Principalmente depois da pizza, que desceu redonda apesar do lugar estranho, cuja atendente, diga-se de passagem, era uma morena lendária que perguntou em francês se a pizza estava boa e ouviu uma resposta engraçadinha em português.) Então, por prêmio e necessidade, decidimos dormir uma vez na vida sem hora para acordar. Sábia decisão: chapei como um menir gaulês. E acho que o Baiano também compartilhou dessa experiência mineral, porque tiramos o pé do lodo completamente, acordando refeitos.

Mas não apenas levantamos bastante tarde como ainda custamos um bocado a sair do quarto da espelunca, conversando e nos vangloriando mais um pouco pelos acontecimentos da véspera. Aproveitei para trocar os tacos das minhas sapatilhas, que também estavam mal. (Nota técnica: os pedais do Baiano eram Look; os meus, Keo Sprint, do modelo que não é compatível com os Look — por isso não fôra possível emprestar os meus reservas para ele.)

O dia seria mole: um pedal turístico pela cidade, um cyber para dar uma passada na rota e uma estradinha despretensiosa só mesmo para sairmos da confusão da capital. Contratempos bizarros, num dia desses?! Conseguiríamos a proeza?

Certo, vocês querem ver o circo pegar fogo. Então muito que bem. O primeiro aconteceu ainda dentro da Espelunca Cabeluda, quando fui clipar a sapatilha usando o taco recém-substituído. Não encaixava. Obviamente, os vendedores da loja de Londres me venderam o modelo errado da Keo — embora eu tivesse levado a caixa dos pedais para que eles não confundissem os modelos –, o que me fez resmungar muito. A solução seria encontrar uma loja de bicicletas decente e comprar tacos novos para todo mundo. Para não ter, porém, que tirar os tacos incompatíveis, colocar de volta os velhos, e mais tarde tirá-los novamente para colocar os novos que eu comprasse, decidi pedalar por Bruxelas de havaianas mesmo. O que pode ser um pouco ridículo, principalmente se o resto da sua vestimenta for parecida com a de um guerrilheiro cabeçudo.


Substituição problemática

(Ah, sim: o único ponto positivo da história dos tacos errados é que, sendo incompatíveis com os meus pedais, talvez encaixassem numa boa nos pedais do Baiano — assim raciocinamos. E não deu outra: encaixavam! Mas só descobrimos isso depois de ele ter pedalado 300 Km com o taco quebrado!…)


Manhã de sol em Bruxelas

Se foi fácil tomarmos café na primeira brasserie ou coisa que o valha que encontramos, localizar uma loja de bicicletas — qualquer uma, nem precisava ser boa! — foi tarefa das mais complexas. Ninguém sabia dizer onde encontraríamos uma; rodamos muito por lugares com cara de ter lojas de bicicletas; até a pé nos enfiamos numas ruas movimentadíssimas onde não era permitido ou possível pedalar; e nada. A única loja que encontramos estava fechada, em plena quarta-feira, no meio do dia. Detalhe que tinha um cara lá dentro que eu vi! E o farsolão, fingindo que não era com ele, não se dignou sequer a se aproximar da vitrine em resposta a tantos acenos súplices. Belgas.

foto: Baiano

Ninguém me veria de novo mesmo…

Depois foi o episódio do cyber-gueto-black. Coisa de filme. Entramos no lugar, que ficava nos fundos de um mercado (!), com as bicicletas e tudo. Não havia absolutamente ninguém além do atendente, que era uma espécie de rapper. Em meia hora, o lugar estava tomado. Mais de uma dúzia de funkeiros locais lotou o ambiente. E ouviam música alta, e confraternizavam, e se entrezoavam, o atendente incluído. Falavam com aquela gíria e sonoridade típicas, estávamos num verdadeiro Harlem francófono. Pra piorar, ainda molhei o chão todo dos brothers depois que enchi — e esqueci meio aberto — o Camelbak, com água comprada no próprio cyber-mercado.

Naquela de ziguezaguear por ruas movimentadíssimas à cata de uma inexistente loja e de usar o computador do QG da seita dos outros, entardeceu assustadoramente rápido. Já estávamos os dois nervosos de não ter pedalado nada, não ter conhecido nada da cidade e não ter encontrado a loja de bicicletas, ainda que tenhamos colhido do Google o endereço de várias. Principalmente, estávamos com fome. Pensamos em comer e dar o fora. Afinal, ainda tinha dia; queríamos avançar, e não ficar zanzando por ali o tempo inteiro.

Acabou que achamos tanto uma boa lanchonete quanto uma péssima loja de bicicletas, lado a lado. A primeira resolveu o problema que mais afetava nosso humor naquele momento; já a segunda nos apresentou novos problemas, muitas outras variáveis.

Os tacos Keo que não me serviam iriam para as sapatilhas do Baiano. Quem precisava de novos, portanto, era eu, justamente aquele de nós que tinha levado sobressalentes. Mas o cara da loja, que demorou um século para nos atender por conta de um casal de clientes muito malas que perguntavam muito e compravam pouco, não tinha tacos para meus pedais. O que tinha era pedal mais taco de um terceiro tipo, o da Shimano. Comprei. Na hora de tirar os pedais da minha bicicleta, penamos. O farsola, a princípio, se recusava a ajudar; apenas me emprestou umas ferramentas ruins e disse para usá-las na calçada, do lado de fora. Foi o que comecei a fazer, mas diante da friaca e da quase total imprestabilidade das ferramentas, voltei pra dentro da loja, na pirraça. O muquirana acabou ajudando, mas mesmo assim levou uns vinte minutos para conseguir soltar os pedais, o que só foi possível depois que improvisamos uma alavanca desengonçada.

Enquanto isso, o Baiano também passava maus momentos tentando desapertar os parafusos que prendiam seu taquinho quebrado. Estavam todos espanados, com as fendas gastas, e a chave deslizava sem incomodá-los. A solução foi serrar o taco velho e os parafusos, grossura essa que acabou resolvendo. Só que os parafusos das minhas sapatilhas também apresentaram o mesmo problema na hora de tirar os tacos “errados”, que iriam para o Baiano. E não podíamos serrá-los! Por sorte, no meio da fenda normal, traziam um encaixe, espanado ma non troppo, para chave Allen, e acabei conseguindo tirá-los. Resumo dos últimos parágrafos: se foi um saco ler, imagine protagonizar.

Despedimo-nos da capital belga pouco depois, mas não sem antes termos encontrado uma loja para comprarmos um mapa “Benelux” (Bélgica, Holanda e Luxemburgo), já que aquele comprado em Compiègne só ia ao norte até Bruxelas.


Tarde de sol em Bruxelas

Estávamos, enfim, de volta à estrada. Pedalamos forte na primeira hora, andando em torno dos 30 Km/h. Teve até vácuo atrás de motoca. Logo, aquela típica monotonia de saída de metrópole se transformou numa enorme e agradável ciclovia, atravessando uma região animada e praticamente sem espaços vazios. Era uma área com ares ricos, movimentada de gente embora pacata de confusões ou barulhos, e bastante animada até. Dos lados, calçadas, com casas ou pequenas lojas. Belas ruas residenciais começaram a afluir; trechos verdejantes, pessoas de bicicleta voltando do trabalho, crianças brincando. Era a bonança após a tormenta, nova era para a Humanidade. O negócio estava começando a ficar bom mesmo.


Cenas belgas

Foi divertido esse pedal vespertino. Pegamos a roda de dois sujeitos em bicicletas caras. O primeiro era gente fina, perguntou para onde íamos, quando paramos num cruzamento, e disse “mas não hoje, certo?” quando contamos que íamos até Amsterdã. Daquele cruzamento em diante, não desgrudamos do cara… por uns três minutos, até ele entrar numa transversal. O segundo era um tiozinho que pedalava muito forte. Conseguimos segui-lo um tempo, voando baixo, mas numa subida infinita acabamos sobrando, um após o outro.

Depois foram os quinze minutos de fama do Sr. Hugo, sujeito educado e bem-falante, que puxou assunto com o Baiano quando paramos em mais um cruzamento. Ele também pedalava e conhecia tudo por ali. Olhou nosso mapa, sugeriu rotas e — bem a calhar — nos indicou o lugar em que viríamos a dormir naquela noite, algumas poucas dezenas de quilômetros à frente.

O caminho até a Antuérpia seguiu sem eventos. Na verdade, para nós que lá estávamos, seguiu com muitos eventos. Sua graça, no entanto, é pouco transponível para o papel ou a tela: só vivendo. Cada curva, cada placa, cada nova rua era um evento em si, com charme e interesse próprios.


Ponte suspensa e monsieur Hugo

Estávamos felizes e relaxados. O fato é que nos sentíamos de certa forma a salvo, depois das dificuldades da véspera, pedalando agora por lugares muito populados, limpos e organizados. E, como por duas noites não teríamos destino certo, a sensação de poder escolher onde parar, de poder ir adiante simplesmente até cansar — sem o problema de estar no meio do nada quando a noite cai — era muito boa.


Toda a calma do mundo para tirar fotos ridículas

A Antuérpia, conhecida como o Centro Mundial do Diamante pelo fato de 80% dos diamantes do mundo serem ali negociados, é a segunda maior cidade da Bélgica. Acabamos escolhendo nosso destino baseados na recomendação do amistoso sujeito. A dica huga, na verdade, foi fantástica, porque o lugar — um Albergue da Juventude — era muito bom, muito bonito e… bem, não era caro. Fomos atendidos por um senhor cubano, de nome José, extremamente atencioso. Depois comemos lasanha e ficamos num quarto muito limpo e cheiroso (até então). O albergue todo era tão limpo, agradável e aconchegante que eu me senti como na casa da minha própria avó. E tinha umas crianças rosadas circulando e umas famílias felizes, também.


Bicicletário e o Sr. “Rosé” em ação


Meta-foto aérea do albergue antuérpio

Verdade seja dita, só a hora do banho é que foi meio braba porque entrava um ar gelado não se sabia de onde. Mas, na felicidade em que estávamos, até naquele lago gelado com as pontezinhas e os patos a gente mergulhava. Sem careta.


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3 comentários em “Europa 2007 - 7º dia”

  1. Baiano diz:

    “Em busca do taquinho perdido” hehehehe

    Eu “menino novo” acostumado com taquinhos de mtb, lembro que ao comentar que tinha um par de taquinhos na mochila pensei “O cara veio realmente preparado!” Crente que estava abafando com meu taquinho “impecável” rsrs

    abração!

  2. Barata diz:

    “Ninguém ia me ver de novo mesmo…”

    Esse é um dos melhores pensamentos do mundo!
    asuhhaushasaso

  3. Baiano diz:

    Pô!! Eu jurava que ia ter “to passando”! hehehe Foi um fato raro! rs

    Mas realmente parabéns pelo relato mais uma vez! Sempre da uma baita ânimo ler e relembrar os acontecimentos!

    * Na foto do muro, eu to olhando para trás ao te despachar ou prestes a ser engolido? hahahaha

    abração!

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