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Europa 2007 - 8º dia

(Postado em 11/06/07, às 14:58.)

Antuérpia — Gouda (137,17 Km)
Quinta-feira, 05 de abril de 2007

Dia de fronteira. Mais uma placa, quem sabe mais uma cerca. O Baiano, tanto quanto eu soubesse, completamente recuperado. Eu, da mesma forma, não sentindo absolutamente nada; e, ainda mais, com uma vontade de pedalar absurda, como se tivesse acabado de ganhar a primeira bicicleta. Tomamos um café-da-manhã honesto no próprio albergue e lá fomos nós.

Com meio minuto de pedal, paramos para tirar fotos. A localização do albergue era belíssima, como já tínhamos percebido na véspera. Na luz de crepúsculo, à hora em que chegamos, a coisa era quase mística. Agora, sob a luz da manhã, o lugar parecia um pouco menos Reino da Fantasia, porém mais vivo e de certa forma ainda mais bonito. O Sr. José nos havia dito que é comum, no verão, verem-se coelhos correndo por ali. Coelhos correndo, era isso mesmo que o cenário sugeria! Não faria espanto a presença de lontras a guinchar pelo arvoredo ou quiçá filhotes de zebras na relva a… zurbilhar (ou a conjugar o verbo certo, do qual não faço idéia, para a fala da zebra). Mas já ficamos bem felizes com os patos, que nadavam e grasnavam totalmente alheios a nosso maldisfarçado deslumbramento.

Achávamos que hoje seria um pedal de luxo e não nos enganamos: estradas tranqüilas, asfalto perfeito, casas com aquela arquitetura que só se vê em livrinhos infantis e muitas árvores emoldurando o caminho. As placas e letreiros eram agora todos, sem exceção, naquela língua desgramada do coisa-ruim.


Beleza de estradas

O primeiro acontecimento digno de nota, ainda antes da fronteira, foi aquele viaduto interditado para obras. Caminhões, tratores, morros de cimento e terra no meio da pista, tudo aquilo que tornava impossível passar, mesmo de bicicleta. O GPS mandando ir em frente e a gente tendo que virar noventa graus à direita: nada bom. O pior é que, não atravessando o tal viaduto, permaneceríamos do lado errado de uma enorme linha de trem.


O problema


A solução


A continuação

Tentei um diálogo com os sujeitos da obra. Dois deles começaram a falar no dialeto lazarento e eu boiei. O terceiro falou em inglês e aí deu para entender que os caras estavam sugerindo que subíssemos o barranco carregando as bicicletas e alcançássemos o viaduto num ponto mais à frente. É claro que já tínhamos pensado nisso de escalar o viaduto pelo mato, só não tínhamos certeza se seria muito lícito ou saudável (podia ser que os camihões parados nos buzinassem e surgisse do azul um helicópetro de polícia ordenando que déssemos o fora dali imediatamente, o que nos forçaria, dessa vez, a algo indecoroso como um rapel sobre os trilhos ou um bungee jump sem o elástico). Mas como não apenas era permitido como também nos tinha sido recomendado fazê-lo, não pensamos duas vezes e subimos o barranco com as bicicletas nos braços. Você vê que, para cima ou para baixo, estávamos nos especializando em barrancos e ribanceiras, definitivamente.

Com a interdição devida à obra, encontramos a estrada completamente deserta do lado de lá. Apenas nossa, our precious.


Donos da rua

Um pouco mais e já pisávamos solo holandês, com placa e tudo. Mas sem derramamento de líqüido, dessa vez.


Mais uma!

Dentro da Holanda começou imediatamente a festa das ciclovias. Elas estão em toda parte e são quase sempre de muito boa qualidade. Além disso, há placas indicadoras de direção — tanto para as cidades mais próximas quanto para as principais — em cada cruzamento ou bifurcação. Realmente impressionante.

Essa abundância de ciclovias explica — e, convenhamos, justifica — a impaciência do motorista holandês quando vê ciclistas pedalando pelos acostamentos das estradas. Pelo menos foi o que sentimos na pele, logo nos primeiros minutos dentro do novo país. É que não tínhamos reparado ainda a pista marginal que, naquele ponto, fazia as vezes de ciclovia. Ela ficava do outro lado de um riacho que, de tão raquítico, foi por nós pulado com as bicicletas nos braços. A partir dali, os 200 Km até Amsterdã seriam todos em pistas exclusivas, risco zero de atropelamento ou buzinaço.

Mas não pensem que as ciclovias eram qualquer coisa parecida com as que temos, por exemplo, nas praias do Rio. Por aqui, pedalar em ciclovia é chato, lento, desagradável, estressante e — ouso dizer — mais perigoso do que andar pela rua seguindo direitinho todos os mandamentos. Trava-se sempre uma irritante disputa do espaço com: pedestres que não entendem que precisam olhar antes de atravessar; pedaleiros de todas as espécies, que entendem menos ainda que precisam olhar antes de parar ou mudar de faixa; grupos de corredores fechando completamente a pista; carrinhos-de-bebê, patinadores, skatistas, vendedores, pernas-de-pau, ciganas e ladrões — fuzuê total. Nas ciclovias holandesas por que passamos, podíamos pedalar com as barbas de molho: são verdadeiras mini-estradas, com bom piso e boa sinalização. Tanto que, empolgados, fizemos rodízio de homem-de-frente para puxar velocidades acima dos 35 Km/h (não se esqueçam de que estamos falando de burros-de-carga pesados e com centros de gravidade altos).

A primeira cidade chamava-se Roosendaal, e foi lá que vimos o maior estacionamento de bicicletas de nossas vidas (apenas Amsterdã iria, depois, superá-la). “Rosendal” foi também a cidade cujo nome foi menos avacalhado por nós.


Roosendaal

Já que entramos no tema da pronúncia fajuto-avacalhativa dos nomes das cidades holandesas, deixe-me contar do estrago que fizemos com a língua dos caras, tanto pela falta de opção quanto pela farra envolvida. “Para onde estamos indo mesmo?”, perguntava um. “Para Avassaladã”, respondia o outro, assassinando Alblasserdam. “E depois de Mergidique, seguimos para Vilhenavem?”, rebatizávamos, impiedosos, as honradas Moerdijk — que nos alimentou em corpo e espírito — e Wilhelminahaven. “Sei lá. Só tem que ter cuidado pra não irmos parar em Esgravendéu!!!”, detonávamos, às gargalhadas, a tal de ’s-Gravendeel (com apóstrofo e tudo).
O país inteiro é tão plano quanto o mapa que você abre em cima da mesa. E está abaixo do nível do mar, é verdade mesmo; o altímetro do GPS ficava o tempo todo entre -20 m e -5 m. Outra coisa da Holanda é a imensa quantidade de água em toda parte; poucos foram os momentos em que não margeamos algum tipo de rio ou canal artificial.


Ô paisinho pra ter água, sô! (E nomes impossíveis!)


A maior ponte, depois da parada em Mergidique

De “Quirquendirque” (Kinderdijk) para “Crimpem Endileque” (Krinpen aan de Lek) pegamos uma balsa. Eu até resmunguei, a princípio, pois não queria “roubar” de jeito nenhum — a viagem era de bicicleta! Cadê a ponte, afinal? Mas dessa vez ponte não havia, como nos certificamos depois de pedalarmos à tôa até “Lequenquerque” (Lekkerkerk). De balsa, no entanto, foi só um trajeto de 400 metros, se tanto, e apenas de uma margem do rio até a margem oposta. Com a certeza de que não havia outro jeito, não me senti trapaceando.

Senti, sim, uma vontade sem precedentes de pedalar mais e mais. Mais ainda depois que pedimos uma dica de cidade-destino para um casal de ciclistas (na verdade, uma semideusa e um filho-da-mãe sortudo) que guardavam suas coisas no carro ao final de um treino, na altura de “Crimpem Adenge Céu” (Krimpen aan Den IJssel, dorme com esse barulho). Eles nos recomendaram ir até Gouda, a cidade do queijo (cujo nome achávamos que sabíamos falar, jamais imaginando que a pronúncia correta começa com um som meio de “r”). Na verdade, a holandeusa manifestou sua preferência por Roterdã, por causa do “agito”. Agito!? Só se ela fosse junto, mas tive que engolir o comentário. Seguimos mesmo para “Rouda”.

Mais empolgados do que nunca, demos início a uma seqüência de “estilingadas” (expressão do Baiano, que incorporei definitivamente) a 40 Km/h. E eu, ainda sem óculos, desviando das nuvens de mosquitos para não tomar uma mosquitada no olho. Mas cheguei a levar algumas, sim, na graça plena de poder dar as tais estilingadas àquela altura do campeonato.


A caminho de Gouda

Chegamos a Gouda e fomos literalmente conduzidos a um hotel por um transeunte solícitio a quem pedimos informações. Depois de estacionadas as bikes e de tomados os banhos, saímos para comer e ver um pouco da cidade — o Baiano, todo arrumadinho e perfumado; eu, com aquele kit pau-pra-toda-obra mesmo.

Primeiro fomos a um restaurante italiano e comemos qualquer coisa que não me vem à memória. Só sei que era gostoso e pouco. Tanto que saímos de lá ainda com um certo vazio interior. O frio estava absurdo e queríamos voltar para o hotel depressa, mas no caminho vimos um daqueles pés-sujos turcos que vendem sanduíches de frango ou de carneiro cortados na hora daqueles espetos enormes que ficam girando na vertical. Tanto o sanduíche quanto o local em si são chamados kebabs, como aprendi com o Baiano. Entramos e perguntamos se ainda tinha kebab. O cara, sujeito muito estranho, disse que tinha, numa boa. Aí levamos em torno de meio minuto decidindo o que comer e então pedimos um só kebab para dividirmos, era o compatível com a função de sobremesa que o sanduíche ia ter. Foi aí que o sujeito se irritou — por algum motivo que não conseguimos até hoje decifrar — e vociferou de forma estúpida e quase ameaçadora: “não tem kebab coisa nenhuma, ACABOU O KEBAB!!!” Depois ficou vidrado numa televisão velha e nem olhou mais para nós, que, olhos esbugalhados, tentávamos entender o que tinha acontecido.

Saimos de lá na mesma hora. Quando retornamos ao hotel, ficamos sabendo pelo recepcionista que o cidadão que nos guiara até lá tinha voltado ao hotel para saber de nós, se tínhamos nos acomodado bem e tudo o mais. Só faltou deixar nossa conta paga, o incrível sujeito.

Enfim, Gouda me impressionou deveras. Um encanto de lugar, que recomendo com louvor. Mas cuidado com os pés-sujos turcos.


Gouda: fim de mais um dia


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3 comentários em “Europa 2007 - 8º dia”

  1. herval diz:

    esse cara do hotel ficou muito suspeito… sera que ele nao estava interessado nos rins de voces? :-p

  2. Samuel diz:

    O mais importante: kd a foto da tal semi-deusa???? ;-)
    Show de pedal hein!!!!!
    abs!!!

  3. Cida diz:

    Uma delícia esse trecho. Difícil aqui foi tirar os olhos da primeira foto e não rir do zurbilhar e não lamentar a descompanhia da holandeusa.

    Para a irritação do sujeito estranho, tenho uma teoria. Ele viu um “arrumadinho e perfumado” ao lado de um “pau-pra-toda-obra” pedindo um só kebab para dividir. Não deu outra. Foi romantismo demais pra rudeza do pobre homem. Kkk…

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