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Europa 2007 - 9º dia

(Postado em 29/06/07, às 21:15.)

Gouda — Amsterdã (74,30 Km)
Sexta-feira, 06 de abril de 2007

Eis que chega o último dia, pelo menos da parte “normal” da viagem. O dia seguinte seria apenas uma insanidade, um extra, um coup de grace, um ou-vai-ou-racha só para ver no que é que ia dar. Viria a ser também, indiscutivelmente, o ponto alto da coisa toda, mas disso não fazíamos idéia enquanto tomávamos calmamente nosso café no hotel de Gouda. Estávamos indo para Amsterdã e por algumas horas pensaríamos somente nisso. (E “pensar somente em algo” nunca exprimiu tão precisamente um estado mental. Nossas cabeças, àquela altura, estavam absolutamente vazias de qualquer outro pensamento: desde preocupações corriqueiras e de somenos importância como a fatura do cartão de crédito, o aquecimento global ou o paradeiro do Bin Laden até questões existenciais mais terríveis e profundas como “o Ullrich vai mesmo aposentar?!?”, nada restava. Nada!)

Na saleta do café, puxaram assunto dois coroas que estavam também de bicicleta numa viagem pela Holanda. Faziam 40 Km por dia e iam conhecendo as cidades com calma. Pareciam muito felizes com sua opção de férias. Despedimo-nos deles e do farsoleta da recepção e partimos.

Na saída de Gouda, perguntamos qualquer coisa sobre Amsterdã a um sujeito com uma cara boa. Ele sanou, atencioso, nossa dúvida, mas concluiu: “Amsterdã não é a Holanda!” Bem, parece que rolou uma certa rixa contra a metrópole (o velho tema!)… Mas achamos graça no orgulho rústico do cidadão.


Saindo de Gouda…


…com dinheiro no bolso (do Baiano!)

A sucessão de cidades perfeitas com casinhas cinematográficas e ruelas ladeadas por canais convenientemente inodoros foi tão grande que perco a conta se tento me lembrar de quais ou quantas teriam sido. Havia muita água, isso ficou marcado. E ainda as milhares de plaquinhas com indicações para bicicletas, e em toda parte uma tranqüilidade quase pastoril que só acabaria mesmo em Amsterdã, que, segundo informações colhidas, não é a Holanda! Era tudo tão calmo como se as pessoas ali não precisassem trabalhar, mas apenas pescassem, cuidassem de seus filhos e hortas e, no máximo, colecionassem selos.

foto: Baiano

Hora do rush na Holanda

É claro que teríamos contribuído um pouco para quebrar a monotonia de uma cidade especialmente linda, à beira de um lago, se tivéssemos tomado uns tiros de sal nos fundilhos após invadirmos, com bicicleta e tudo, o quintal de uma casa. Queríamos olhar o tal lago, que ficava do outro lado da linha contínua de casas que o margeava. Como o portão de uma delas estava aberto… Evidentemente, nossos xeretismo e cara-de-pau não duraram mais do que alguns segundos, portanto não chegou a haver qualquer tipo de alarde ou manifestação hostil por parte dos proprietários ou da polícia (até porque todos eles — proprietários e polícia — estavam com certeza pescando ou cuidando da horta e não nos teriam notado).

Seguimos. No meio da estrada, encontramos uma loja de bicicletas enorme. (Olha, sei que parece estranho imaginar uma loja de bicicletas enorme no meio de uma estrada, ou até mesmo imaginar uma estrada tradicional num lugar desses onde tudo são cidadelas emendadas umas nas outras com pontezinhas de madeira e flores nas praças. De fato. Pense, então, em corredores de árvores sombreando ciclovias eternas. Pense em algo como uma estrada residencial. Era isso: uma estrada arbóreo-residencial. E tinha uma baita loja de bicicletas no meio!) Pois então paramos na bendita loja e eu consegui, finalmente, comprar os óculos de ciclismo. Belos óculos, por sinal. Que uso até hoje, diariamente, lembrando-me sempre da loja, da estrada e da deusa, digo, daquele corredor de árvores. Ah, se não ia lembrar!


Um meio-fio diferente e as onipresentes plaquinhas

Quase chegando a nosso destino, paramos para o último lanche da estrada. Depois, sempre seguindo nossa já querida ciclovia, entramos e saímos de um parque com gigantescos troncos de árvore servindo de meio-fio, demos umas estilingadas finais pra acompanhar uns ciclistas respeitadores de sinais de trânsito — apesar da total inexistência de qualquer carro ou pedestre nas imediações — e para perseguir umas motocas com holandesinhas de início risonhas mas logo em seguida assustadiças (com direito a gritinhos) por serem caçadas por bárbaros sobre rodas, pedimos informações aqui e ali e… that’s it. Lá estávamos! Amsterdã, a capital da Holanda, legalize-já.

Atravessando um parque desses de cidade grande, vimos uma galera estiradona na grama fazendo a fotossíntese do dia, outros tocando seu violão, dando uns beijos e muito provavelmente fumando qualquer coisa que passarinho não fuma.


Ô vidinha mais-ou-menos…

Depois foi um rolê pela cidade. Tínhamos poucas horas para absorver a maior quantidade possível de coisas daquele lugar fantástico, comprar uma bike bag (o famoso “mala bike”, que eu iria precisar, no domingo de manhã, para poder enfiar a bicicleta no Eurostar de Bruxelas para Londres), conseguir as passagens de trem para voltarmos ainda hoje para a Bélgica e ainda encontrar um Camelbak que o Baiano tinha decidido querer para ir mamando durante a maratona do dia seguinte. Então tínhamos pressa e fizemos cada segundo valer. No fim das contas, é claro que, turisticamente, deixamos de ver muita coisa que tinha para ser vista naquela imensidão. Mas tudo o que vimos era, de qualquer maneira, imperdível.


Amsterdã

Agora, vou lhe confessar uma coisa: jamais havíamos imaginado ser possível um número tão grande de bicicletas pelas ruas. É um pandemônio, pelo menos aos nossos não acostumados olhos. Vem bicicleta de tudo que é lugar e de todas as direções. Não sei como todas se entendem (ainda mais naquele idioma). As ruas parecem aqueles brinquedos bate-bate de parque de diversões: você fica achando que a qualquer momento vai dar de cara numa bicicleta, tantas são as velocidades e trajetórias distintas naquela (aparente) embolação. Sem falar das bicicletas estacionadas. Se o indivíduo esquecer a posição exata onde parou a sua, meu amigo, é melhor ir para casa a pé. Agulha-no-palheiro total.


Tinha uma meia dúzia de bicicletas… por metro quadrado!

Depois de resolvido o problema da minha mala-para-bicicletas — que encontramos numa excelente loja indicada por um passante aleatório — e de não-resolvido o problema da mochila de hidratação do Baiano — que não encontramos, depois de muito corre-corre –, pegamos o trem para Bruxelas. Entramos com as bicicletas no vagão próprio para elas e por lá ficamos, cada um deitado numa cama feita de quatro assentos consecutivos (com três espaços inconvenientes no meio). No inícío, só tinha a gente no vagão; depois, o troço encheu à beça e tivemos que nos contentar cada qual com um assento e uma quina de parede.


Trem para a Bélgica

Três horas depois, em Bruxelas, o trem pararia em três estações distintas. Chutamos uma e descemos. Por sorte, era a que ficava mais próxima do albergue, que localizamos sem dificuldade após perguntarmos a um taxista onde ficava a tal Rua do Elefante.

O albergue era bom. Sem o charme daquele da Antuérpia, é verdade, mas perfeito em funcionalidade e em café-da-manhã. Entramos com as bicicletas no quarto, que tinha um japonês que falava aquele inglês-de-japonês e um canadense gorducho e barbudo que ficava o tempo todo deitado na cama, lendo.

Saímos para uma pizza. As lembranças dos últimos mil quilômetros eram o que menos ocupava nossas cabeças. Só conseguíamos pensar em uma coisa: Flandres.

— Ferrou, o que será de nós amanhã?
— Cara, morrer nós não vamos. Então só sei que amanhã, nesse mesmo horário, a gente vai estar aqui comendo essa mesma pizza e rindo muito de tudo.
— E contando tudo um pro outro, que a gente não vai pedalar junto.
— Pois é.
— Vai ser épico.
— Vai, o que quer que aconteça…
— Só não quero ser levado pelo caminhão-vassoura!

Doce ansiedade. Eu teria 260 Km pela frente, o percurso completo da monstruosa Volta de Flandres com suas lendárias subidas de paralelepípedos. O Baiano, mais responsável, optara por fazer o percurso reduzido de 140 Km, mas isso não queria dizer que a vida dele seria muito mais fácil que a minha: os quilômetros do trajeto menor eram exatamente os mais brabos, com 16 das 18 subidas numeradas.

Como tínhamos dito no albergue que sairíamos de manhã muito cedo, eles nos embrulharam amostras-grátis do que seria o café-da-manhã dos alberguistas normais: Toddynho, ovo cozido, queijo, pão, Nutella, tudo. Apesar de tentadores, já que a pizza tinha sido pouco mais que uma tapeação, os embrulhos foram guardados para o dia seguinte. Nós íamos precisar.


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3 comentários em “Europa 2007 - 9º dia”

  1. Baiano diz:

    Vou começar a boicotar esse site :p Estão atropelando a sequência!!! rs Quero ver o relato dos 260km!! Não precisa nem falar da viagem Amsterdã-Bruxelas hehehe abração

  2. Edu diz:

    Fala Vinícius!!!
    Que beleza!!!
    Grande viagem e grande relato, Paris/Robaix a clássica das clássicas, muito bom, muito bom.
    Depois conversamos e vc me conta outros detalhes.
    Está se preparando para a corrida? 21Km não são meleza, bora treinar!

  3. herval diz:

    as bicicletas iguais que voce viu em amsterdam sao publicas: voce pode pegar qualquer uma em um dos estacionamentos, usar e deixar em outro estacionamento.
    Outra coisa engracada é que no centro, grande parte das ruas nao passam carro, so bicicleta e bonde. E o bonde, alias, passa na pista dos carros tb - entao sai da frente, que ele nao para!!

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