free hit counter cronicasdebicicleta.com » Blog Archive » Europa 2007 - Prólogo

▲ Principal

Europa 2007 - Prólogo

(Postado em 17/04/07, às 20:00.)

Esta não é uma daquelas histórias em que um ou dois sujeitos malucos montam pangarés desengonçados, saem pela mundo ao sabor do vento e da sorte, alimentam-se do que colhem ou caçam, matam um gárgula, salvam uma princesa e ainda dão risada de tudo no final. É a história de dois sujeitos normais, até onde se saiba, que caem na estrada em veículos de última geração e munidos de aparelhos de localização por satélite. E que dormem em hotéis (baratos!) e se comunicam por telefones celulares e pela Internet. Se é, portanto, menos romântico o rascunho do roteiro, é também mais próximo da realidade de quem tem um certo amor à vida e o compromisso de voltar são, salvo e dentro de curto prazo. E, honestamente, não foi menos repleta de imprevistos e improvisos a aventura aqui narrada; tampouco de florestas, porquinhos, lobos e princesas. Dez dias, apenas. Para aqueles dois, alguns dos melhores de suas vidas.

Segunda semana de 2007. Verão na América do Sul, inverno na Europa. Praia versus neve; camiseta contra sobretudo, gorro e cachecol. Fui mandado para Londres, por três meses. Tudo muito de uma hora pra outra, era pegar ou largar. Pegando, teria que abrir mão não apenas do verão brasileiro mas também da viagem de bicicleta do Rio de Janeiro, onde moro, até Chuí, no extremo sul do país, que estava programada para o começo de fevereiro. Mas peguei. Afinal, era Londres, eu conheceria finalmente a Europa, e de graça. Nada mal.

Acostumado a fazer da bicicleta meu principal meio de transporte e de diversão, foi de forma puramente emocional, quase intuitiva, que decidi não levar minha bicicleta comigo. Mas não se iludam. Nem por um minuto passou pela minha cabeça ficar todo aquele tempo sem pedalar. Estamos falando da Europa, o berço do ciclismo mundial. Eu queria estar, digamos, aberto a novas possibilidades. Algumas apenas muito vagamente presumidas, outras sequer imaginadas (ou imagináveis). Mas algum jeito teria.

Na verdade, todas as opções que chegaram de fato a passar por minha cabeça eram bem obscuras, sonhadas na alucinação de pinto solto pela primeira vez no meio do lixo: quem sabe conseguiria uma pechincha por lá e traria pra casa uma belezinha bretã de segunda mão, adestrada talvez por descendentes diretos do próprio Tom Simpson?, quem sabe iria até a Itália num fim-de-semana qualquer e compraria uma puro-sangue zerada a preço de pizza?, e por aí vai. Já no reino do quase inverossímil, talvez não fosse de todo inviável alugar durante aqueles três meses uma Trek top-de-linha, lindíssima, toda em carbono, com grupo Dura Ace completo e rodas Sestrière mais leves que a pastilha de freio da minha humilde Angliru. O que quer que o futuro me reservasse, eu tinha certeza: jeito haveria de ter.

Por mais inacreditável que pareça, foi isso mesmo o que aconteceu: a Trek top, a Trek maravilhosa. E não foi alugada, mas emprestada! Explique-se que o cara era um ex-ciclista e a bicicleta estava inerte e deprimida no fundo empoeirado de uma daquelas garagens usadas exclusivamente como depósito de tranqueiras. E que talvez eu tenha jogado o verde certo na hora certa. O que importa é que, como num passe de mágica, eu era o orgulhoso piloto de uma criança dessas.

373202759_8733177391_o
Coisa linda

Para que o excesso de perfeição não me levasse a achar que estava apenas sonhando, os santos protetores dos ciclistas-wannabes houveram por bem acrescentar um detalhe tosco: a belezura era tamanho 54, enquanto o tamanho de quadro ideal para mim é algo entre 56 e 57. E foi aí que aconteceu o verdadeiro milagre. Palavra de honra: em uma semana, parecia que meu tamanho de quadro era 54 desde criancinha, nem um milímetro a mais ou a menos. Adaptação perfeita. A estratégia dos bem-intencionados santos é que não funcionou, porque eu carreguei — e ainda retenho — uma incômoda sensação de que tudo não passou de um sonho.

DSCF7081
Bike de luxo: banho de banheira

Para não adiar demais o início da aventura que tanto quer o leitor ler quanto eu, contar, daqueles três meses digo apenas que foram um pouco cansativos — rapadura é doce mas não é mole — mas sensacionais, turística e culturalmente falando. Houve sempre em mim um certo senso de urgência, de ampulheta virada, que me fez preencher todo o tempo vago com visitas a museus, parques, lugares históricos e cenários incríveis daquela cidade que sabe-se lá quando teria eu novamente a oportunidade de explorar. Ciclisticamente, fiz o suficiente para não perder totalmente a forma. Unindo o útil ao agradável, aproveitei os fins-de-semana para conhecer de bicicleta as cidades vizinhas, principalmente ao sul de Londres. Às vezes, ia pedalando todo o tempo, como nas visitas a Staines, Windsor e outros arredores do Surrey. Noutras vezes, botava a bicicleta num trem e ia pedalar em lugares mais distantes, quase sempre escolhidos de forma completamente aleatória, como no dia em que telefonei para o Brasil às 9h da manhã (horário de Londres!) pedindo à minha mãe um número de 1 a 16, cada um dos quais previamente associado a um possível destino. Foi assim que vi cavalos de roupa em Balcombe, fotografei ruinas romanas em Sutton e Bury, quis nadar no reservatório de Ardingly, passei por lugares de nome insólito como Leatherhead e visitei tantas outras pacatas paragens do Sussex e West Sussex.

DSCF7106 DSCF7126
Pelas bucólicas estradas inglesas

Houve ainda as pedaladas matinais nos dias-de-semana, quando acordava às 5h e ia conhecer recantos fora dos eixos turísticos tradicionais; e também as de algumas manhãs de sábado, quando me juntava ao forte pelotão que sai do Richmond Park.

395181420_f3f5345a80_o
Richmond Park

Finalmente, é claro que também usei bastante a bicicleta como simples meio de transporte, e mereceria isso um capítulo à parte. É outro mundo aquilo lá. Entendam: na Inglaterra, o veículo motorizado teme ultrapassar o ciclista se não houver muito espaço sobrando a seu lado. Sabem que se qualquer coisa acontecer, eles são os imperdoáveis culpados e vão sofrer as conseqüências brutais da lei de sua pusilânime e inclemente rainha. Exageros à parte, é mesmo outra mentalidade, outra história. Lá você anda sem se defender de ladrão, bala perdida ou motorista de van; você não tem medo de se arrebentar em alguma cratera lunar aberta no meio do asfalto. Igual ao Rio, em suma.

DSCF7140

DSCF7094 380463451_f7a65a7488_o 380463145_4a7f95c9d2_o
Passeios solitários nos fins-de-semana…

Duas coisas que não cheguei a fazer foram pedalar de Londres a Brighton — para matar a saudade do mar — e pedalar no sábado até o anoitecer numa cidade distante, dormindo num bed & breakfast e voltando apenas no domingo (esta cheguei a fazer parcialmente, mas uma dor-de-barriga terrível e inoportuna me impediu de continuar a busca por hospedagem e acabei correndo mesmo para a estação de trem).

DSCF7175 DSCF6997
…até o cair da noite (e da chuva, às vezes!)

Mas vamos ao que interessa. Dez dias de férias, no final de tudo. Roteiros possíveis: todos. Subir o Alpe d’Huez, ir pro sul da Itália, fazer a rota dos castelos franceses de Toulouse a Avignon, muita coisa no menu. E tudo prometia ser melhor ainda do que a encomenda porque o Baiano, hoje amigo de carne-e-osso (mais osso do que carne) mas até então apenas virtual, teria férias na mesma época e iria junto.

Se pedalar sozinho pelo Velho Mundo já é bom, pedalar com alguém para decidir junto o que fazer quando os policiais franceses o expulsarem da estrada pelo mato abaixo é ainda melhor. Ele, morando em Lyon havia quase um ano, já era um total expert na malha rodo-ferroviária francesa. Começamos, então, a trocar planilhas de Excel com todo um alfabeto de trajetos possíveis. Acabamos optando pela opção “B” (ou seria “C”?): eu, que poderia começar um pouco antes do que ele, sairia de Londres e pedalaria sozinho até Paris. Ele pegaria um trem de Lyon a Paris e lá nos encontraríamos. Depois pedalaríamos pro norte com destino a Bruxelas, passando pelos trechos mais tranqüilos da Paris-Roubaix (corrida clássica que acontece anualmente desde fins do século XIX). De Bruxelas seguiríamos até Amsterdã, fechando para mim quatro capitais européias e para ele, três. De lá pegaríamos um trem de volta a Bruxelas, bem a tempo de fazermos a rota da Volta de Flandres (outra clássica) com os amadores, na véspera da corrida real dos profissionais. Chegar ao final seria uma questão de honra e de sobrevivência.

A Síndrome da Véspera Desesperada veio com tudo dessa vez. Quarta-feira, dia 28 de março. Era tanta adrenalina que eu estava mais estabanado que elefante de circo dentro de joalheria. Não fiz nada direito o dia inteiro. Em casa, quebrei louça, derramei leite, tropecei em tudo, andei de um lado pro outro falando sozinho e, quando finalmente fui pra cama, naturalmente não tinha sono algum. Mas precisava dormir, fazia parte do planejamento. Eu já estava durante.

Veja também:
– o álbum de fotos completo.


▲ Principal       Imprimir Imprimir

2 comentários em “Europa 2007 - Prólogo”

  1. Iara diz:

    Hoje,burlei as atividades pra ler um pouquinho a sua viagem,adorei…Estou louca pra curtir os próximos capitulos,mas tenho que trabalhar!!!Enviei para amigos ciclistas a pagina…Abraço…

  2. Cida diz:

    Deu um friozinho na barriga. Que emoção! Lembrei que tudo já é acontecido, que até já li algo mais adiante, mas o friozinho insiste. Vamos lá.

Deixe seu comentário (qualquer coisa, pô!)