Rio-Chuí – 11º dia
(Postado em 12/12/08, às 11:43.)Florianópolis — Bom Retiro (120,76 Km)
Terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Décimo-primeiro dia de viagem, o nono de pedal. Dessa vez, pelo menos, o tempo não foi traiçoeiro: já amanheceu chovendo. Não havia muito o que fazer a não ser vestir o casaco. Foi, então, de forma encasacada que nos despedimos de Catatau & Cia. para irmos ao encontro de nosso destino.
Mas foi o Destino quem veio de encontro a nossos planos, três ou quatro quarteirões adiante, na forma de um pneu furado. Paramos, debaixo d’água, em frente a uma casa onde latia frenético um rottweiler, e efetuamos a troca da câmara. Nem tinha começado e eu já estava cansado. Não ia ser fácil, não.
O caminho escolhido, evitando o suicídio na BR-101 em obras, incluía a pequena e pacata cidade de Santo Amaro da Imperatriz, onde eu planejava comprar um novo celular. Se não o comprasse ali, passaria o dia inteiro sem um, já que as cidades seguintes seriam pequenas e pacatas demais para possuirem lojas da Tim. Ficar sem celular não seria nenhum grande drama, se apenas eu e Bianca, naqueles tempos, não enviássemos mensagens de texto a cada quinze minutos, no auge de algo que se nos afigurava o amor eterno.
Agora veja você, Santo Amaro da Imperatriz tem apenas dois feriados municipais: um é no meio de julho, o Dia do Município; o outro, Dia do Padroeiro do Município, caía, murphyanamente, naquele exato dia 15 de janeiro! Ô padroeiro pra escolher o dia errado de bater as botas!
Tudo fechado na cidade fantasma. Nada de celular, portanto. Perdido no mundo, incomunicável, sem mulher. As meias tão molhadas quanto o chão em toda a parte. Quer saber de uma coisa? Que vá tudo pro inferno, vamos pedalar. É pra chegar no Chuí? Então vamos chegar nesse Chuí. Ah, os outros dois querem subir a Serra do Rio do Rastro (o Alpe d’Huez brasileiro, a subida em asfalto mais bela e temida do país), só de brincadeira? Então — azar! — vamos nessa. E basta desse respeito todo. Vamos deixar no tal rio nosso rastro de destruição, rasgar a estrada ao meio! Partiu!

Santo Amaro de portas fechadas
E fomos, debaixo de chuva, cortando a BR-282, uma das rodovias federais mais tranqüilas de que se tem notícia. O Rio do Rastro seria apenas no dia seguinte, se tudo desse certo. No momento, tudo ia bem. Bem molhado, bem íngreme, mas bem sossegado, também, e eu já me sentia quase tão feliz quanto no terceiro dia de viagem. Raramente passava algum carro. Muito verde dos dois lados, com a presença das primeiras araucárias, subidas e descidas enormes com vistas amplas, um sol preguiçoso que vem e que vai, uma chuva teimosa que vai e que vem, cidades com nomes curiosos, monotonia zero.

Incursão pela serra catarinense
Fizemos algumas paradas para comer e beber. Na verdade, acho que paramos em todos os lugares disponíveis, que eram pouquíssimos. Um posto de gasolina aqui, uma casa com uma placa ali, uma birosca acolá. Onde almoçamos, inclusive, fomos tão observados pela menina do balcão, que acabamos puxando assunto e engatando uma conversa mole que resultou em fotos e troca de e-mails. Só de farra, evidentemente.

Hora do rango em Rancho Queimado
Houve contratempos, também, e não foram poucos. Num deles, Fabricio ia, excepcionalmente, à frente do grupo, quando o Fino parou com problemas. Parei junto, e vimos o raio quebrado em sua roda traseira. “Ô Pontiiiiiiiinho”, gritamos, “chega aquiiiii”. O mecânico do grupo, adivinhando o sucedido, já chegou com as mangas arregaçadas para mais uma cirurgia imunda.
Ainda no tema monotonia zero, passamos por neblina densa a mais de 1000 metros de altitude (lembre-se de que partíramos, pela manhã, do nível do mar), um trecho em obras, que nos obrigou a um certo ciclocross, e um cânion.
A gracinha do dia ficou por conta da verdadeira corrida que travamos nos quilômetros finais até a cidade em que decidíramos pernoitar. Algum demente começou a puxar o ritmo (acho que foi o Pontinho, vingativo), os outros foram atrás, e dali a pouco estava uma insanidade, os corações querendo pular pela boca. E foi assim, como loucos sob o pôr do sol, que chegamos a Bom Retiro, a paz em forma de cidade, onde consegui inclusive comprar o celular que me acompanha até hoje.
…
|
…





December 12th, 2008 at 1:19 pm
“Pega” de final de rolê sempre é bom… Ruim é quando rola no começo, e quebra todo mundo pelo resto da pedalada
December 14th, 2008 at 9:25 pm
E ai Vinicius tudo bem? aqui tudo bem e I got a Bike!! a culpa é toda
sua, esses textos são tão maneiros que não consegui ficar mas sentado aqui só lendo extasiado, sem dar uma pedaladinha sequer.
Mas depois que andei 6k apenas da loja até em casa cheguei a conclusão que vocês são completamente doidos, tem que tirar o chapeú prá vocês, parabéns e obrigado se não fossem vcs talvez não
tivesse começado a pedalar nunca, ou pelo menos tentar. Um abração.
Claudio.
December 19th, 2008 at 12:58 am
Será que existe???
Parabéns pelo texto e principalmente pela memória!!! Nossa, quase 1 ano depois e essa novela não termina… rs
Quero mais! SEMPRE!
December 19th, 2008 at 9:38 am
Ainda acho que sim.
January 3rd, 2009 at 9:41 pm
Pessoal;
Estou recomendando o site http://www.weg-it.net.
trata-se de um local nos mesmos moldes do Orkut somente para ciclistas. foi idealizado por um Portugues Tiago Marques e já tem um número consideravel de participantes aqui do Brasil.
Favor divulgar abraços
January 5th, 2009 at 9:06 pm
Tudo Bem pessoal, estou curioso para ver novos relatos, Especialmente a parte gaucha.
Pela qualidade do seu texto e das fotos poderia acho que vocês deveriam editar um livro contando a epopéia. Caso venha a pensar na possibilidade reserva um exemplar para mim.
Abraço
January 6th, 2009 at 11:32 am
@JMDias: deve rolar…