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Rio-Chuí – 12º dia

(Postado em 22/01/09, às 20:20.)

Bom Retiro — Lauro Müller (141,50 Km)
Quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

As bicicletas passaram a noite na loja onde compráramos meu novo celular. Era uma espécie de Ponto Frio, se não era um Ponto Frio de fato, e ficava embaixo do nosso hotel. Parecia haver uma espécie de conluio entre os donos da loja e do hotel, vai ver eram compadres, ou irmãos, ou a mesma pessoa. O fato é que, todos em muito bom acordo, o interior da loja se fez em estacionamento de bicicletas, e foi entre sofás e geladeiras que elas gozaram seu merecido repouso.

Às 8h30, a mocinha que me atendera na véspera já estava na loja. Devolveu-nos as bikes refeitas e nos desejou boa viagem com um bom número de sorrisos e outro tanto de espinhas, que contudo não a enfeiavam. Paramos em qualquer lugar para comprar água, ainda em Bom Retiro, e logo estávamos de volta ao estradão.

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Nós três, muito antes de percebermos a dureza em que nos tínhamos metido

Logo no começo, a bicicleta do Fino solicitou pela enésima vez a atenção de nosso mecânico de bordo: a roda traseira estava mal centrada, fazendo a lateral do pneu roçar o quadro. Fabricio fez lá sua magia, e a coisa ficou daquele jeito pra-quem-é-tá-bom. Perfeito não ia ficar, e não ficou, até o fim da viagem.

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Saindo da rotina, definitivamente

Sabíamos que hoje seria o grande dia. Conheceríamos, enfim, a famosa — e monstruosa, e sinistra, e linda — Serra do Rio do Rastro, uma minhoca incrível que acumula 1000 metros de desnível em 11 quilômetros de extensão, e que compreende 12 cotovelos malignos, que são aquelas curvas de quase 180 graus, após as quais o abismo muda de lado (da direita para a esquerda, ou vice-versa). Esta última característica, que lhe rendeu o criativo apelido de “Serra do 12″, é também o que a torna bastante perigosa. Consta que em certa época havia lá uma placa — no estilo daquelas que se vêem nas fábricas, para registro dos acidentes de trabalho — em que se lia: “Estamos há 25 dias sem mortes na estrada. Nosso recorde é 25 dias.”

Nosso caso com a Serra do 12 foi o seguinte. O caminho original era basicamente litorâneo, não havia nada dessa incursão apocalíptica pelas montanhas catarinenses. Mesmo assim, as criaturas absolutamente normais Fininho e Fabricio já queriam-porque-queriam abandonar, num determinado ponto, a costa e o caminho para o Sul, guinar abruptamente para o interior do país e seguir até a tal serra de mil e uma lendas. Depois, o caso seria o de pedalarmos até o topo daquela enormidade, descermos de volta e só então refazermos todo o caminho até o mar, seguindo viagem. Claro, nós nem estávamos metidos em nada cansativo, só íamos até o Chuí, por que não aproveitarmos a proximidade do Alpe d’Huez brasileiro para conquistá-lo de uma vez? Loucos de pedra, os caras.

Voto vencido, eu já tinha concordado com a façanha extra, embora orgulhosamente convicto de que meus amigos cairiam como moscas depois de tal aventura e de que eu seguiria sozinho até o Uruguai. Isso antes mesmo de Florianópolis. Mas, como o leitor persistente há de recordar, nossos planos foram radicalmente modificados na capital de Santa Catarina, com a substituição da plana, litorânea e em obras BR-101 pela montanhosa, interiorana e segura BR-282. A conseqüência é que, para voltarmos para o litoral — porque teríamos que fazê-lo em algum momento — a melhor opção era pegarmos, quem diria, a própria Serra do Rio do Rastro!… só que para baixo, descendo o monstro. Em outras palavras, entraríamos pela porta dos fundos.

Ridículo! Ninguém — e eu já tinha, àquela altura, entrado no clima — ficou satisfeito com a abordagem top-down. Queríamos subir a coisa, não brincar de escorregar no parque. O jeito é descer-subir-descer? Pois então que seja assim.

Eis o plano: (1) descer a Serra do Rio do Rastro no final daquele mesmo dia e dormir em Lauro Müller, à base da montanha; (2) no dia seguinte, deixar as bagagens no hotel e subir a Serra; (3) em caso de sobrevivência, tornar a descê-la, buscar as coisas no hotel e seguir viagem.

A primeira parte do plano compreendia, como se vê, chegarmos à cabeça da serra, tarefa que teria sido suave, não fossem aqueles 150 Km de uma estrada tão absolutamente avessa ao gradiente nulo. Subir, descer; subir muito, descer muito, subir mais; subir mais ainda, descer, subir muito mais, subir dolorosa e inacreditavelmente mais; desceeeeeer. Repete o ciclo, ad eternum.

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No topo da cidade de Urubici

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Fabricio na pedreira abandonada

Houve fome, pela primeira vez. Não uma fome terrível, a desnutrição total. Mas quase. E um quase princípio de pânico. Também quis faltar água. Pedíamos água e comida uns para os outros. Olhávamos em volta, em toda a parte. Procurávamos uma casa, uma cabana, um estábulo, um córrego, um coelho, qualquer coisa, mas não encontrávamos nada que não fosse capim. Ou formigas.

Erráramos as contas. Não havíamos previsto uma quilometragem tão alta sem qualquer posto de reabastecimento. Com as exigências da estrada, nossos víveres acabaram a meio-caminho, e não sabíamos exatamente onde poderíamos comer e beber. Estávamos ficando realmente preocupados, sugados em nossas últimas reservas, quase zerados, quase a ponto de conhecermos o limbo negro e terrível… quando chegamos à salvadora vila de Pericó, com sua única vendinha, a vendinha do Sr. Tadeu de Pericó.

Sim, estávamos salvos, mas foi apertado. Se até ali mantivera-se inalterado meu peso corporal, pelo menos uns trinta e cinco quilos devem ter ido embora somente neste dia. O Sr. Tadeu de Pericó não tinha propriamente comida, mas era comerciante havia quarenta anos, e de seu estabelecimento “ninguém saía com fome”. Água também não faltava, ninguém saía com sede. Que fez o Sr. Tadeu de Pericó? Disse que esperássemos. Foi ao interior da loja humilde e voltou com uma jarra d’água, uma faca, um prato com pão, uma saca de ameixas e uma enorme peça de queijo curado. Foi a festa. Salve, Sr. Tadeu de Pericó!

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Em Pericó

Se da fome e da sede estávamos livres, não o estávamos ainda da estrada, e faltava bastante chão.

Quando restavam míseros 20 Km — de sobe-e-desce, claro — para a Serra, encontramos a barraquinha onde fizemos nova parada para reabastecimento à base de rapadura. Foi ali que comprei o lindo cartão-postal da Serra do Rio do Rastro que enviei, no dia seguinte, para o Igor, meu filhinho emprestado.

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Eu e Dona Leonina em sua vendinha

Depois de muita batalha, e já quase no final da coisa toda, obtivemos de um desinfeliz a informação de que estávamos a um único quilômetro do fim, que aquela seria finalmente a última subida antes do Rio do Rastro. Qual o quê! Faltavam ainda pelo menos umas cinco rampas tenebrosas e assustadoras (para a ocasião). A informação errada foi motivo de muita frustração, teve gente quase chorando.

Mas, para variar, tudo valeu demais quando chegamos. A impressão causada pela primeira visão da Serra do 12, lá do alto, vai direto para a parte menos volátil da memória da pessoa. Não creio que eu vá algum dia me esquecer daquela cena.

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A placa quebrada e minha primeira foto da Serra

Lá estava ela, a imensa serpente cor-de-asfalto no meio da colossal garganta verde. A estrada se espalha pela fenda, atravessando o abismo do cânion por entre pedras, árvores e cachoeiras. Descer aquilo de bicicleta seria a primeira vez na montanha-russa; nós, as crianças no parque.

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Todos abobalhados com a Serra do Rio do Rastro

Acho que é Caetano Veloso que não gosta de tirar fotos de viagens. “Ou você fotografa o momento, ou você o vive”, teria dito. Não sou tão radical, mas, ali, tive que concordar. Meus tão citados futuros netos talvez se frustrem um pouco, mas nada me faria parar e tirar fotos no meio daquela descida. E nem queira o leitor saber como foi, exatamente, porque eu não saberia descrever aquele coquetel de adrenalina, vento, gravidade, curvas, medo, verde, sonho, tensão, contentamento, ar puro, lenda, caminhões lentos, bicicletas rápidas, natureza, coisa enorme, Deus. Fiquemos assim, então.

Aquele que passasse pela rua principal da pequena cidade de Lauro Müller no dia 16 de janeiro de 2008, por volta das 8 horas da noite, veria a chegada triunfal de três seres muito felizes, e adivinharia, certamente, que aqueles seres teriam acabado de descer os Doze Cotovelos do Abismo em cima daquelas bicicletas estranhas. Pouco certo é que aquele mesmo passante acreditasse com facilidade que os tais recém-chegados tinham partido dos pés do Cristo, na Cidade Maravilhosa, naquelas mesmas bicicletas, onze dias antes. Nem nós estávamos acreditando muito. De qualquer forma, seria oportuno que sobrevivêssemos à subida do Rio do Rastro, na manhã seguinte.

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Hoje valeu!


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18 comentários em “Rio-Chuí – 12º dia”

  1. Fabio diz:

    Texto riquissimo… Tu é bom de lápis amigo, muito bom… Diante do meu fascinio por ciclismo e de boas leituras, parabenizo verdadeiramente seu blog e seus textos… Há 1 ano comprei uma speed usada e desde então mudei todo me estilo de vida, de alimentação à meio de transporte… Parabéns

  2. claudio & tania diz:

    Vinicius mais uma vez, demais!. po essa serra só em olhar a foto da medo, cheguei a fazer uma comparação tipo dropar pipeline hawaii ou teahupo thaiti
    super lindo e radical, melhor surreal.Valeu abraço.

  3. caio diz:

    Obaa!Até que enfim tá ai a continuação, Muito bonito essa serra.

  4. Carlos Eduardo Patussi diz:

    He Claudio!
    Bacana Vinícius, no comecinho cheguei achar que tinhas cansado de contar essa história, mas foi melhorando logo a frente e como sempre ficou muito bom. Parabéns!

  5. fininho diz:

    cara esse foi o DIa depois desse dia o resto foi mole ou quase heheh lembro até agora a gente xingando até a terceira geração daquele cara que disse só mais 1 ou 2 km vcs chegam lá abraços amigo

  6. Cepa diz:

    Fala Vinicius!

    Pensei que você tinha largado de escrever a epopéia… Ainda bem que eu estava errado!

    Diz uma coisa… Nesta foto: http://www.flickr.com/photos/cronicasdebicicleta/2385800936/ quem está descendo a serra no cotovelo mais ao alto? Só um ilustre desconhecido ou era um dos 3?

  7. vigusmao diz:

    Obrigado, pessoal, pelos comentários. É sempre muito bom saber que alguém vai ler. Talvez saia um livro, em algum momento.

    @Cepa: aquele é um dos 3, sim: Fininho, em seu casaco azul. (Desceu na frente, como um doido — pra variar…) :-)

    Abraços,
    Vinícius.

  8. Cepa diz:

    É, aqui em Itu deu pra ver que ele é desajustado da cachola mesmo :d

  9. fininho diz:

    eu desajustado da cachola????só pq cheguei a 91 km/h nesse dia vcs estão doidos hehehehhe cara preciso tirar o cateye da minha bikje aquela joça vicia quanto mais velo dá mais vc quer a culpa é toda dele heheheh

  10. Cepa diz:

    Não sabia dos 91km/h… Onde vc chegou a esse tanto aqui em Itu? Eu falava mesmo é daquela pirambeira insana que você desceu antes da cachoeira das aranhas… hahaha… Aquilo sim foi insanidade!

  11. Zaka diz:

    Muito legal!
    Já desci e subi várias vezes essa serra. Infelizmente ainda não tive a felicidade de fazer isso em bicicleta (coisa que meu irmão conseguiu), mas ainda está nos planos.
    Continue com os relatos.
    Abraço

  12. fininho diz:

    CEPA meu amigo o que quis dizer foi nesse dia na viagem ao Chuí que cheguei a 91 km/h disputando com o Fabrício quem era o mais retardado(nesse quesito o vinícius comeu poeira hehehehehhe)

  13. vigusmao diz:

    @fininho: Pô, minha relação mais pesada era uma 50/13 !!!!! Não tinha como não comer poeira nos descidões! Agora fala das subidas… :-) ))

  14. fininho diz:

    a subida ..vc pula heheh pastei muito mas o legal vai ser o próximo dia a temida serra subindo a 5 km/h e 32 rpm que dureza mas valeu cada milímetro

  15. Otavio diz:

    Cara… “bom de Lápis” é sinistro…. respeita a tecnologia rapá!!! hahahaha
    eu já tava ficando desesperado com essa história sem final!

    falta pouco! cara… sabe qual é o melhor disso tudo?

    é que quando tu acabar de contar, eu vou me sentir literalmente como um visitante do Chuí!

    E sobre o caetano, lembre-se… “COMPARTILHAR” é uma palavra que tem um significado que transcende! O que seria do mundo se ninguém compartilhasse nada??? “Viver o momento” é legal mas é egoísta d+!

    É como na velha piada que o cara faz amor com Angelina Jolie (muito gostosa!) na ilha deserta e pede pra ela atravessar a ilha vestida de homem. Ao reencontrá-la, ele desabafa confessando que fizera amor com aquela Deusa.

    “O que seria de um grande feito se não pudessemos compartilhar com os outros????”

    VALEU!!!!!!!!!

  16. Léo diz:

    hooooooooooooooooooooooooooo, caramba li ontem toda a odisséia, e? parou aqui no 12º dia? assim não vale! o vinícius providencia logo o grane finale!!!!!!!!

  17. Rafael Procopio diz:

    Uau! Fantástica a maneira como vc relata as suas aventuras, Vinicius. Uma pena que tenha parado de narrar esta epopéia… Que os relatos continuem!!!

  18. Fe diz:

    INCRÍVEL!!!! A primeira visão da Serra do Rio do Rastro deve ter sido mesmo de tirar o fôlego.
    A história do lanche do sr. Tadeu de Pericó eu já conhecia!!

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