Rio-Chuí – 13º dia
(Postado em 19/06/09, às 17:18.)Lauro Müller — Araranguá (130,55 Km)
Quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Tinha um argentino no hotel. O argentino era ciclista, e estava ali a passeio, com sua mountain-bike. Disse-nos que já tinha subido a serra muitas vezes, e seu amor por ela era o motivo de estar hospedado ali, naquele que era provavelmente o único hotel da cidade.
Argentinos são fanfarrões. Esse era gente boa, mas não deixava de ser um argentino fanfarrão. O cara era o maior fã vivo da Serra do Rio do Rastro. Posou para fotos, contou mentiras, não parou de falar. E teceu conjecturas, e narrou bravatas, e quis nos acompanhar nos 15 Km morro acima. Seria um prazer tê-lo conosco, o fanfarrão gente boa. “Contanto que não chegue na minha frente”, pensei.

Argentino figura (e eu com protetor solar mal espalhado no nariz)
Então era chegado o grande dia! A inocência perdida! Conforme planejado, deixamos nossas bagagens no hotel e partimos para o desafio, as bicicletas leves como plumas, a viagem dentro da viagem. Infelizmente, não levamos câmeras fotográficas. Caetano Veloso.
A sensação de leveza de pluma durou, talvez, até o terceiro ou quarto quilômetro, quando começou a ser substituída por uma sensação mais próxima à da leveza de pedra. Mas foi a leveza de chumbo que se instalou definitivamente lá pelo quilômetro dez, chumbo grosso. Nos cinco quilômetros finais, não há qualquer trecho confortável. É quando começam os tais cotovelos, é onde o chão foi dotado de frisas para aumentar o poder de frenagem dos caminhões, é onde os motoristas passam por você sorrindo como quem viu um louco, é onde você começa a rezar.
Não sei quanto aos outros, mas eu dei uma rezada mesmo, coisa rápida. Em agradecimento. O lugar é lindo, exuberante, mágico, e fazer aquela subida de bicicleta, um privilégio.
A partir de certo ponto, a neblina tomou conta. E era tanta que, além da concentração para não desequilibrarmos, nos momentos em que a cadência das pedaladas ficava reduzida a um mínimo, precisávamos nos concentrar também para enxergar as curvas e eventuais veículos. Com tudo isso, não dava para manter coeso o grupo. Quando vi, estava sozinho no que parecia ser o interior de uma nuvem. Só podia ir em frente. E fui, e a concentração era tão grande que, sem perceber, estava fazendo a última curva, a que se segue um retão quase plano, e ponto final! Pouco depois, veio vindo alguém. No meio da neblina, achei que era o argentino miserável, e pensei “que diabos! Mas pelo menos um de nós defendeu a honra pátria”. Qual não foi minha surpresa quando reconheci o digníssimo Sr. Carlos César, vulgo Fininho. Muito bom, não podia ser melhor! Passaram-se uns dez minutos. Então, novamente para meu espanto e prazer supremo, e provando que tudo pode ser melhor, veio vindo Fabricio, nosso herói, com sua relação de marchas perversa (39/23), totalmente inapropriada para a situação. Maradona chegou uma meia hora depois. Talvez tenha sido um pouco menos, mas ficará sendo meia hora na minha versão.
Brincadeiras à parte, o hermano se tornou nosso bom amigo, e descemos de volta por onde viemos, todos juntos, compartilhando a mesma sensação boa. E eu ainda tive um pneu furado, no meio da descida, que só serviu para tornar tudo ainda mais memorável.

Serra do Rio do Rastro — o pontinho vermelho, claro, é o Fabricio (foto da véspera)
Tarefa cumprida, monstro domado, buscamos nossas coisas no hotel, pagamos o que devíamos, abraçamos Juan Manuel Fangio e partimos, com as bicicletas novamente carregadas mas, agora sim, leves como o vento, como permaneceriam até o fim da viagem. Nossa alma é que estava mais leve, agora que fazíamos parte do seletíssimo — e fictício — clube “SSRR” (Subidores da Serra do Rio do Rastro).
Depois do feito histórico, o resto foi fácil, e até meio anticlímax. Parecia que o dia já tinha dado tudo o que tinha que dar. Sem grandes emoções, despedimo-nos de Lauro Müller, passamos por Orleans, almoçamos em Urussanga, atravessamos Cocal do Sul e paramos em Criciúma. Enquanto Fininho e Fabricio se detinham em uma bicicletaria — onde o último, com sua lábia infernal, praticamente fechou a venda de uma bicicleta para um casal de coroas –, aproveitei para raspar a cabeça num péla-porco local.

Fabricio quis morar na loja de Criciúma
Depois de mais um lanchinho num posto de gasolina, deixamos Criciúma com destino a Araranguá, onde planejávamos passar a noite. Para isso, tomaríamos, novamente, a onipresente BR-101, que deixáramos para trás em Florianópolis. Tínhamos apenas que cuidar para não errarmos a saída de Criciúma. Como há mais de uma opção de acesso à rodovia, tencionávamos, evidentemente, pegar aquela que nos deixasse o mais ao sul possível, ou seja, o mais próximo de nosso destino. Outros acessos representariam retrocessos, com desnecessária perda de tempo. Ocorre que, no ponto em que chegamos à BR, nossos cálculos nos diziam que estaríamos a 16 Km de Araranguá. E não a 36, como anunciava uma maldita placa! Inacreditável! Havíamos tomado o caminho errado!
Seis quilômetros eram uma coisa; trinta e seis, outra bem diferente. Que fazer? Encarar a distância inesperada, cansados, numa rodovia cheia de trechos em obra, e já ameaçando escurecer? Voltar os 20 Km até Criciúma, aqueles mesmos quilômetros que tínhamos acabado de percorrer? Felizmente éramos em número ímpar, e a grande maioria decidiu ir em frente.
A partir daí protagonizamos o primeiro momento, com 11 dias de pedal, em que funcionamos como grupo mais ou menos organizado. Revezamos a ponta, o da frente sinalizando obstáculos, o de trás atento à retaguarda, motivamos uns aos outros e socamos a bota com tudo que tínhamos. Estávamos num trecho sem acostamento e aquilo ali, no escuro, não seria nem um pouco legal.
Para nossa surpresa e alívio, em alguns minutos uma cidade despontou no horizonte. É lá mesmo que a gente ia ficar, não havia dúvidas. Mas que cidade seria aquela? Apertamos mais ainda o passo. Não devia haver nenhuma cidade ali. Azar, sei reconhecer uma cidade quando vejo uma, e aquilo ali é uma cidade, e há de nos abrigar por uma noite! Fomos com tudo. Dali a pouco, uma placa veio tudo esclarecer: “Araranguá — 3 Km”. Conclusão: a placa anterior era um embuste, uma loucura, uma irresponsabilidade, uma pegadinha do malandro! — estava simplesmente errada e nos assustara sem razão. Malditos fazedores de placas catarinenses!
Depois que lidamos com o inevitável acesso de riso que se seguiu, em poucos minutos, ao de pânico iminente, conseguimos apear na bendita Araranguá, onde ficamos no melhor hotel da viagem: um quarto para cada um de nós, aquilo era um luxo total, Internet liberada (para quem é de Internet, numa hora dessas), e preço tranqüilo.
Eu e Fabricio jantamos um “alaminuta”, que é moda em todos os lugares com latitude maior ou igual àquela em que estávamos. É o velho arroz-feijão-bife-batata-frita, que tem esse nome, no Sul. Fininho desapareceu, só foi visto na manhã seguinte.

Último foto do trio, antes da subida macabra que abriu o dia
PS.: Um ano depois da viagem ao Chuí, refiz sozinho a subida da Serra do Rio do Rastro, e ela me pareceu um pouco menos sobre-humana. Mas senti saudades dos meus amigos.

Serra do Rio do Rastro, fevereiro de 2009
…
|
…



June 22nd, 2009 at 6:53 pm
Piada:
Numa maternidade, nasceram ao mesmo tempo um filho de um casal argentino, um de um casal francês e outro de um casal africano. Após uma grande confusão não se sabia qual bebê pertencia a qual casal.
Reuniran-se os pais e discutiam, até chegar em um acordo. Sortearam a ordem de escolha do bebê. O primeiro sorteado foi o casal francês, que foi logo dizendo, o nosso é esse com a pele mais escurinha, ao que o casal africano salta e diz, óbviamente esse bebê é nosso, pq vc o quer. A resposta do francês: É que não quero arriscar de pegar o bebê Argentino! hahahaaha!
Muito bom o retorno a saga!
June 23rd, 2009 at 5:40 pm
Em novembro eu e meus colegas de pedal fomos “pegos” pela mesma placa de 36km!!
June 30th, 2009 at 9:38 pm
Mais uma crônica PG (Padrão Gusmão), ou seja, nota 10. Vc podia mandá-las para V02 ou O2 em forma de artigos mensais. Seria um sucesso retumbante e aposto que os leitores correriam às bancas a cada mês.
Que venha o décimo quarto!
July 11th, 2009 at 1:45 am
Último dia de relato. Ainda têm pelo menos mais 6 por vir, e espero ansiosa para lê-los! Não fosse tão boa a leitura, eu não a teria devorado inteira até quase 2h da manhã! Nem preciso dizer que me fartei, né?
July 24th, 2009 at 5:58 pm
Cacete! Cadê o resto do texto ? Risos!