Rio-Chuí - 3º dia
(Postado em 20/03/08, às 20:18.)Paraty — Maresias (177,25 Km)
Segunda-feira, 07 de janeiro de 2008
Pior do que a gente, só quem dormiu foram as bicicletas. A garagem, como de costume, era um depósito de quinquilharias. Fora do costume é haver, entre as quinquilharias, tantas lonas empoeiradas, restos de tijolos, sacos de batata, relógios quebrados, carrinhos-de-mão sem roda e cadáveres de ventilador. Espeluncão.
Apesar do encharcamento da véspera, o interior de minhas sapatilhas amanheceu completamente seco, graças ao finíssimo macete que aprendi com meu amigo do cabelo vermelho: colocar folhas de jornal emboladas dentro da sapatilha, antes de ir dormir. Absorve mesmo! Se você pudesse espremer o jornal, pela manhã, como uma esponja, encheria facilmente uma piscina Tone, das pequenas.
Despedimo-nos da cordial Dona Cida, proprietária do estabelecimento, e voltamos à nossa Rio-Santos. Graças à chegada a Maresias, no final dos quase duzentos quilômetros que tínhamos ainda pela frente, este seria um dos melhores dias da viagem — igualado apenas pela experiência para-o-resto-da-vida na Serra do Rio do Rastro e pela própria chegada ao Chuí.
De Paraty a Ubatuba, o caminho era velho conhecido. Fabricio já pedalara por ali; e também eu, recentemente, por ocasião do Granfondo do Brasil de Ciclismo. Foi nesse trecho que cruzamos a primeira divisa interestadual de nossa viagem.
Não é sempre que se pode pedalar olhando o mar num ângulo diferente a cada curva. De um spot privilegiado, pouco adiante da divisa, fizemos algumas das melhores fotos da viagem, no que fomos ajudados por duas simpáticas moças que haviam descido do carro para olhar as praias lá embaixo. Elaine, a de cujo nome me recordo, era triatleta e ficou bastante animada com nossa aventura. Mas não a ponto de largar o carro — e a amiga sem nome, e a vida — para nos seguir.

Às margens da Rio-Santos, uma das estradas mais bonitas do mundo

Sem-nome, Fabricio, Elaine e eu
A chuva começou logo depois. Terceiro dia seguido de aguaceira. E São Pedro, dessa vez, pegou tão pesado que, na chegada a Ubatuba, vimos ruas totalmente alagadas, daquele jeito que os motoristas mais cautos não ousam atravessar.
Almoçamos num comida-a-quilo, onde aproveitamos para descalçar as sapatilhas e tentar desencharcar um pouco as meias. O Fininho, malandrão, conseguiu que lhe descolassem pedaços de galeto assado em lugar do ensopado de frango que ofereciam no buffet normal, e sem pagar mais caro por isso. Eu e Fabricio acabamos comendo do ensopado, mesmo. Que inclusive combinava muito mais com nosso estado.
Na saída de Ubatuba, pasmem, o sol voltava a brilhar. Não brilhava tanto assim, era mais um lusco-fusco mormacento, mas mesmo assim vimos bastante gente nas praias por que passamos — em plena segunda-feira. Empolgados, esses caiçaras!
Faltando meros 20 Km para o destino do dia, paramos numa barraquinha cheia de surfistas-mirins para os tradicionais caldos-de-cana, pastéis, águas-de-coco e capítulos de novela. Fosse razoavelmente plano aquele trecho final, não estaríamos mal; mas, como ignorávamos solenemente a altimetria daquele pedaço, não fazíamos idéia do que estava por vir.
É claro que, considerando o jogo ganho, meus amigos aproveitaram para trocar uma prosa com os surfistas-mirins, cortar a unha, espremer cravo, fazer lista de casamento, tudo com uma tranqüilidade quase baiana. O velho mantra — “partiu, cambada, vai escurecer!” — já podia ser ouvido. Mas, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Relaxei. Apenas 20 Km… está tranqüilo, mesmo… e despedimo-nos dos surfistas-mirins e do vendedor de cocos com a ingenuidade da criança que enfia a língua na tomada.
Mais um pouco e começava o festival de curvas angulosas, subidas íngremes e descidas vertiginosas de tirar o fôlego (as subidas, mais que as descidas!), sempre margeando aquele marzão azul. (Porque sim, os quilômetros finais deste dia estão entre os mais bonitos da viagem; talvez do mundo, como dizem.)
Ao som do mantra, demos nosso melhor e, depois de praticamente rastejarmos ladeira acima em alguns trechos, o milagre: chegamos. Nos últimos minutos de luz!

Nossa recepção, em Maresias/SP
Ufa! Teria bastado um furinho de pneu para ficarmos perdidos no escuro daquela estradinha estreita e tridimensionalmente sinuosa. Mas ainda não seria dessa vez que aprenderíamos a lição…
Em Maresias, descolamos uma pousada e saímos correndo, eu e Fabricio, para a praia. Fininho, declaradamente avesso a diversões inúteis, não foi.

Pai e filho brincando, enquanto Fab volta de seu mergulho
Depois do primeiro mergulho da viagem, tomamos banho e tentamos em vão descolar uma Internet pública: estavam todas lotadas. Fininho, firme em sua misantropia, voltou para a pousada e não nos acompanhou à pizzaria onde comemos uma perfeita pizza no forno a lenha, de frente para a escuridão do mar.
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March 20th, 2008 at 9:44 pm
esses últimos km foram o castigo pela moleza do dia todo hehhe mas valeu cada centímetro pedalado que venga os outros dias abraços meu amigo
March 21st, 2008 at 1:14 pm
Ô, Gustavo, neste ritmo o ano acaba e ainda sobra história! Ainda bem que você não escreve novelas…
Abraço,
Renato
March 21st, 2008 at 1:16 pm
Gustavo, não sei de onde tirei! Vinícius é este o nome
March 22nd, 2008 at 11:27 pm
A subida da chegada de Maresias é difícil estando de carro, de bicicleta é intransponível.
As panelas do Fininho funcionam, tem um restaurante aqui que usa e o dono só tem elogios.
March 23rd, 2008 at 1:06 pm
que bom que tem pessoas por aí usando pra vcs verem que eu não estava mentindo heheh quero ver quando vcs vão comprar as suas abraços
March 25th, 2008 at 12:20 am
É impressão minha ou na sua viagem p/ o Chuí vc usava uma bolsa de guidão na bike?
Aonde vc a encontrou aqui no Rio?
Qual era a marca?
Abraços
March 25th, 2008 at 12:29 am
Oi, Gledson. Não é bolsa de guidão, não, embora pareça; aquilo é apenas o case da câmera fotográfica!
Abraço!
March 28th, 2008 at 11:04 pm
Aí galera pra quem não sabe a viagem foi resumida pelo Vinícius e vai sair com altas fotos na revista VO2 de abril quem quiser ver uma das mais belas fotos da serra do rio do rastro não deixe de comprar abraços
March 29th, 2008 at 1:43 pm
Eu definitivamente quero uma bicicleta!! sua prima ñ está gostando da idéia.Demais as fotos,
abraço.
March 30th, 2008 at 12:13 am
O que estou esperando para voltar a pedalar mais forte? Excelente blog!
April 24th, 2008 at 1:41 pm
Pô!!! Tranquilidade quase baiana??? Olha o preconceito! hehehe Brincadeiras a parte, espetáculo de fotos ao Pôr do Sol.