Rio-Chuí - 4º dia
(Postado em 14/04/08, às 21:35.)Maresias — Itanhaém (170,41 Km)
Terça-feira, 08 de janeiro de 2008
Fininho é o pior apelido que já puseram em alguém. O homem é forte como um urso, e come e dorme como um. Explique-se: sua voz é que era fina, em moleque, daí o apelido. Eis o Sr. Carlos Fininho César, o sujeito que comeu sozinho um pote de sorvete, daqueles de 2 litros, no café-da-manhã! Detalhe: como não tínhamos colher, o indivíduo — fino como um lorde inglês das cavernas — usou a própria tampa do pote de sorvete!
Depois do breakfast improvisado com alguns gêneros comprados de véspera no supermercado local, deixamos a pousada da Dona Lola e preparamo-nos para a parte mais difícil, física e tecnicamente, de toda a viagem. Para você ter uma idéia, é proibido o tráfego de caminhões, ali. Motivo provável: eles capotariam para trás, tão íngreme a maldita subida.
Situe-se, meu confortavelmente instalado leitor, sobre uma bicicleta que aponta para o topo de um morro com 15, 20, 22% (!) de inclinação em alguns trechos. Imagine mochilas com 10 Kg de lastro chumbadas a sua maltratada carcaça. (Se tiver predisposições sarcásticas, pense também na quantidade de sorvete recém-ingerida por nosso amigo Grosseirão César.) Imaginou? Éramos nós, começando a subir aquela maravilha. Visualize, agora, a expressão sorridente que trazíamos no rosto. Visualizou?
Visualizou errado, leitor, pisou na bola comigo. A expressão era de dor, fadiga, desespero, nada de sorrisos. Havia um néon piscando “eu quero minha mãe” em cada testa, e minha sorte foi não ter mirado a cara de meus co-viajantes (e ninguém ter filmado a minha própria). A cena era dantesca, eu poderia não dormir à noite.
Só sei que levei uns quarenta minutos para escalar aquela parede de asfalto. Mesmo usando a marcha mais leve de minha bicicleta (nota técnica: 34/26), ziguezagueei como a agulha de um costureiro bêbado. E pedalei em pé, os braços tremendo, toda a musculatura dos membros inferiores a ponto de travarem completamente. Mas, por um milagre, cheguei ao topo. Foi quando pude, finalmente, olhar pra trás. Nem sinal dos outros dois.
Mas a estrada era tão pouco amistosa que decidi não ficar ali, dando bobeira. Então desci, de uma vez, até a base da abominável serra e aguardei meus amigos. Com relações de marcha menos leves que as minhas (Fininho: 39/28; Fabricio: 39/23!), não tiveram opção: empurraram.
É evidente que eu não perderia a oportunidade de caçoar deles — e até hoje insisto, de brincadeira, que fui o único a ter realmente pedalado do Rio até o Chuí —, mas a verdade é que eu estava muito feliz e orgulhoso por termos os três simplesmente sobrevivido àquela serra inteiros, digo, física e mentalmente sãos, digo, mentalmente igual a antes… você entendeu!

Praia de Boiçucanga, depois da subida infernal
Depois de alguns outros morros menos difíceis, pegamos um retão enorme e plano até Bertioga. Se não me engano, foi nessa reta que nego decidiu cantar — leia-se berrar — o Hino à Bandeira e outras canções. Talvez tenha sido ali, também, naquela moleza de reta depois da serra impossível, que, pela primeira vez, percebi uma pequena chance real de irmos os três pedalando até o Chuí, sem amarelamentos ou óbitos. Uma pequena chance.

Rampinhas como essas foram freqüentes nesse começo de dia
Salve, lindo pendão da esperança. Vamos que vamos. Em Bertioga, entramos com as bicicletas na balsa que fazia a travessia até o Guarujá. Coisa de cinco minutos, não mais, entre automóveis e pedestres, enquanto íamos todos de um lado até o outro da água. Divertido.
Já do lado de lá, almoçamos num pé-sujo que tinha uma ducha gelada na calçada como principal atrativo. Fininho ainda tentou tirar um cochilo no chão, mas meu mantra o impediu. (Sim, mais uma vez chegaríamos ao destino do dia nos últimos minutos de claridade.)
Pedalamos rapidamente através do Guarujá e pegamos a segunda balsa, dessa vez para Santos. Novamente, apenas uma carona de cinco minutos sobre um terreno molhado e meio difícil de ser vencido a pedal: o mar.

Multidão na balsa para Santos: é de graça
Enquanto aguardávamos a partida da balsa, ainda no Guarujá, repensávamos os planos. A saída de Maresias nos roubara muito tempo. O inevitável almoço, idem. Havia um certo cansaço no ar. Quem sabe não poderíamos ficar em Santos mesmo, ou ir adiante apenas um pouco mais e tirar a diferença no dia seguinte? Dadas as circunstâncias, Itanhaém parecia longe demais, inviável, até. Só que, talvez ainda mais inviável, para quem quer chegar ao Chuí e tem prazo para isso, fosse já no quarto dia de viagem ter que alterar planos e adiar distâncias. Depois de alguma discussão, decidimos não mudar os planos.
Pegamos bastante trânsito em Santos, e isso foi ótimo para variar um pouco aquela rotina de estradões vazios, o que acabou nos animando. Protagonizamos, então, o capítulo meninos-fazendo-bagunça da viagem. Sem dó nem pena, fomos costurando tudo como loucos: carros, ônibus, pedestres, polícia, ambulância, sinais, todos comeram poeira. A palhaçada só acabou quando chegamos na famosa ponte pênsil de Santos, que atravessamos de forma mais pacífica.
Dali em diante foi festa, e logo começamos a achar que chegaríamos a Itanhaém até com sobra. Um vento a favor nos empurrava com tanto entusiasmo que nem mesmo meu pneu furado, no alto de um viaduto, nos desanimou. Foi só girar com tranqüilidade e ver o velocímetro marcar 40, 41, 42 Km/h, quase de graça.
Na altura de Mongaguá, percebemos que tínhamos avançado tanto que poderíamos sair da desinteressante Rodovia Padre Manoel da Nóbrega e ir pelo litoral. Entramos, então, em Mongaguá, e paramos em frente à praia para umas águas-de-coco e umas fotos do mar.

Fabricio, Fininho e eu em Mongaguá
Quando íamos retomar o pedal, dois imprevistos bobos quase comprometeram a tranqüilidade daquele fim de dia. Primeiro foi o pneu furado do Fininho, que, por alguma razão que não pude ver pois estava ocupado demais tirando uma soneca na calçada, levou quase uma hora para ser trocado. Depois foi a rua que seguiríamos, beirando a praia, que resolveu acabar para nós: obras na pista. Estava tudo esburacado, sem pavimento, impossível. Tivemos que voltar para a rodovia que não tinha muita graça.
Teve graça o episódio do carinha que resolveu nos perseguir em sua bicicleta modelo Sassá Mutema. Ele vinha com tudo, empolgadíssimo, e encostava na gente. Aí a gente ligava o turbo, só um pouquinho, e o cara desaparecia. Distraíamo-nos um pouco, lá vinha ele. Acabei puxando um papinho com o bom sujeito. Até que ele sumiu de vez.
Sorria, você está em Itanhaém. Praião deserto, tudo muito quieto. Foi fácil conseguirmos uma pousada. Eram uns pequenos chalés, na verdade, tudo muito a contento. Pegamos um deles, que tinha até geladeira e televisão.
Instalados, enfim, primeiro saímos eu e Fabricio para um mergulho, mas a noite e o vento muito frio logo nos expulsaram da praia. Depois fomos Fininho e eu até o centro, atrás de um lugar de onde pudéssemos descarregar fotos e escrever algumas linhas para nossos parentes e amigos. Andamos vários quarteirões e nada. Faltando meio metro para a LAN house local, meu amigo desistiu e voltou. Eu insisti, e acabei descobrindo o lugar e conseguindo colocar no ar algumas fotos. Na volta, percebendo o quão longe da pousada eu estava, acabei pagando R$7,00 num táxi. Tinha batido o cansaço.
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April 14th, 2008 at 10:27 pm
Muito bom!
Ai para de falar comigo no texto, parece a Lispector.
haahha
abraço
April 15th, 2008 at 10:58 am
agora que vc falou me lembrei daquel pote de sorvete heheh deu saudades acho que vou na padoca comprar um pote abraços
April 15th, 2008 at 1:05 pm
Vigusmão, eu vou acertar os seis numeros da sena,
ai pago pra vc terminar esse relato hahahaha
e não esqueça o de Campos heim!
“Queremos fotos e relato a la Vigusmão !!”( entoado pelo povo do pedal.com.br)
April 15th, 2008 at 1:38 pm
Fininho seu animal! Aproveita quando for na padoca e compra uma conhecida ferramenta de nutrição, chamada COLHER!!! Aehuaehuaeheuahe… Pode ser daquelas de servir arroz que são um pouco maiores, ou vai logo de escumadeira de ovo frito, rs…
April 15th, 2008 at 2:03 pm
Fiquei na dúvida agora, na foto: “Fabrício na praia de Itanhaém” ele estava de pernito? [:P] rs…
Brincadeiras a parte viu Senhor Eu Prefiro as Italianas !!! [:(]
Belo relato Vinícius…
April 15th, 2008 at 9:38 pm
Hoje 15/04 é aniversário do Fininho.
Parabéns prá você…
ele merece.
April 16th, 2008 at 10:41 am
Alessandro nós pensávamos que tinha colher na pousada mas como não tinha vai de tampa mesmo hehehhe
April 16th, 2008 at 9:54 pm
Bom, melhor que lamber da caixa ou comer com a mão, aheuehuaehaeuh
April 17th, 2008 at 7:53 pm
Muito bom Vinicius.
Há algumas semanas eu passei por essa estrada (de carro) e posso confirmar que tudo que você falou para descrevê-la não é exagero.
Um abraço.
April 21st, 2008 at 3:55 pm
Putz! E ele não teve dor de barriga???
Esse cara é punk mesmo!!!
April 21st, 2008 at 6:17 pm
heheheh mané dor de barriga se tivesse outro pote eu mandava tb
April 24th, 2008 at 1:50 pm
Aow! Como assim????? E o restante do relato???? Agora a novela está sendo transmite pela “Plin Plin Internacional” tem que manter um certa frequência de novos capitulos… hora bolas! hahaha
April 24th, 2008 at 7:22 pm
BAIANOWWWWWWWWW! Ressurgido das trevas para a luz! Cadê vossa pessoa, meu querido? Onde as aventuras com a única Bianchello do planeta?
Muito bom te ver por aqui.
Abração!
April 25th, 2008 at 6:18 pm
Fala Vinicius!
Acabou no 4o dia? Vo o mapa e parece que o seu Chuí fice (ainda) dentro do estado de SP.
E’ pra vc ficar sabendo que não são só os ciclistas que lêem seu blog.
[ ]s Dario
April 26th, 2008 at 9:40 pm
Onde está os demais cápitulos, depois de ler a reportagem na VO2 estou muito curioso com o relato nos pampas gauchos, um forte abraço tche!!!!
April 29th, 2008 at 5:47 pm
Meu filho querido,
Aguardo também, como seus amigos, os relatos todos dessa maravilhosa viagem. Novamente congratulo a todos do grupo. Lembrem-se de carregar uma colher na próxima “pedalada”.
Seu pai.
April 30th, 2008 at 4:20 pm
Parabéns pelo texto da Revista VO2!!!
Ficou simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO!
Te tenho orgulho!!!
Bianca
May 1st, 2008 at 8:07 pm
Meu, conheci a história do ceis através da vo2, achei muito louca , agora manda logo os outros capítulos ai, um abraço.
May 7th, 2008 at 1:14 pm
e ai valeu pelo role até chui, pena só pelo comentario sobre o pastor por que Deus os levou tão longe para falar uma palavra que ele existe, e se não fosse por ele Deus eles nunca chegaria até o lugar de um sonho que é chui, tem muitos que queriam estar no lugar deles, repense sobre o pastor(Deus) valeu quinho um grande abraços aos guerreiros….
May 9th, 2008 at 2:12 pm
Amigos de longa data, valeu pelo carinho.
Novos amigos JMDias, Almir e Quinho, obrigado pela visita e pelos comentários.
O episódio do pastor ainda aparecerá por aqui, lá pelo 15º dia… a “conversa fiada” que com ele tivemos, Quinho, à qual me referi no texto da revista VO2, foi fiada não pelas coisas que ele nos tenha dito, mas pelas que dissemos nós, na ânsia de convencê-lo a nos dar abrigo por uma noite.
Um grande abraço em cada um de vocês,
Vinícius.
PS.: Já está saindo o quinto dia. Desculpem-me pela demora. Estou às voltas com a procura de um novo lar.