Rio-Chuí - 5º dia
(Postado em 14/05/08, às 20:23.)Itanhaém — Cajati (168,72 Km)
Quarta-feira, 09 de janeiro de 2008
E no quinto dia o mar se foi. Adeus, litoral. Adeus brisa fresca, horizonte azul, ilhas, gaivotas. A cobra agora vai fumar.
Começo fácil. Saímos de Itanhaém e, de volta à rodovia não muito interessante, recebemos o telefonema de minha irmã médica. Ela nos falou do surto de febre amarela que estava particularmente preocupante em algumas regiões de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Precisávamos de vacinas. Como a imunização levaria alguns dias para fazer efeito, não tínhamos tempo a perder. A pergunta era: qual seria a cidade mais próxima com um Posto de Saúde? Na dúvida, fomos em frente. Haveria alguma, no caminho.
Logo a seguir, uma placa nos avisou que haveria ciclistas nas redondezas. Depois de algumas horas, acabaríamos nos convencendo de que os tais ciclistas eram os três bozos saídos do Rio de Janeiro cinco dias atrás. Não havia mais ninguém, com a exceção de um guri de dez ou doze anos numa bicicletinha.
E por falar em Rio, não demorou e encontramos um Cristo Redentor. Era pequeno e ficava do lado de um posto de gasolina meia-boca e era tosco e havia uma placa apontando a direção de Guanhanhem, mas trazia bem abertos os bentos braços, isso o que conta. (Parece que há uma certa moda de cristos redentores, hoje em dia; nos lugares mais improváveis você encontra um. Em reação, pois toda tendência desperta sentimentos contrários quase sempre radicais, já há quem defenda a idéia de se demolir o Cristo do alto do Corcovado, alegando que estraga a paisagem carioca. Puro esnobismo, claro.)
Mas havia cinco dias, cinco imensos dias, que não sabíamos o que era trabalho, filas, engarrafamentos, rotinas, prazos, motoristas de van, toalhas molhadas e dormidas ou convites para colação de grau. Tudo, então, era motivo de descontração e… vamos deixar pra lá… eu estava aqui tentando justificar a vândala cena que protagonizamos a seguir, mas sinto-me meio ridículo. Ademais, o perdão já o obtivemos, na hora, do hômi em pessoa. Aos fatos.
Primeiro foi o Fabrício quem subiu no monumento como um macaco. Com direito a sapatilhada na base branquinha de cal e tudo. Depois foi a minha vez, com outra fortuita porém inevitável sapatada. Mas fique sossegado, beatíssimo leitor, que limpamos no final toda a sujidade, ou será que eu sonhei com isso e as pegadas pretas continuam lá? Bem, o único que não quis dar uma de Didi nos braços do Cristo foi o Fininho, que não sabia se ria ou se resmungava. E nós, na estátua, fazendo molecagem. E abraçamos, e fotografamos, e rimos tanto. Por alguma razão, saímos de lá mais leves, e até o Senhor botou um sorrisinho maroto no canto da boca; aposto que nunca tinha se divertido assim.

Segundo Cristo Redentor em cinco dias
De tão tranqüila a princípio, a estrada se transformou num problema e tanto: nada de acostamento durante quase todos os 30 quilômetros do acesso — o único possível, num raio de algumas léguas — até a rodovia Régis Bittencourt. Foi tenso, houve até quem desse a idéia meio jerica de irmos o tempo todo pela terra e pelo mato, à beira da estrada. Acabamos indo pelo asfalto mesmo, mas com incursões pela terra a cada vez que um potencial assassino sobre rodas despontava no horizonte, atrás de nós.
No meio desse caminho inóspito, encontramos finalmente o gurizinho em sua bicicleta. Andava para cá e para lá, as perninhas girando que nem ventilador. Certamente, nós lhe causamos o efeito de uma aparição. O guri ficou louco. Pedalava para frente, pedalava para trás, atravessava a estrada, fazia de tudo. E tinha talento, o moleque, andava mais rápido que o Fabrício. Brincadeira à parte, andava, sim, tão rápido quanto suas rodinhas aro 20 permitiriam a qualquer mortal. Claro que paramos e o chamamos para um papinho. Seu nome? Vinícius!

Dois Vinícius e um Fabrício, num raro trecho com acostamento
Meu xarazinho ainda nos acompanhou um tempo, depois sumiu na poeira da vida.
O próximo personagem foi o vendedor sinistro da venda, no alto da serra. Depois de consumirmos uma penca de bananas-ouro, trinta côcos e uns cinqüenta sacolés, e de respondermos evasivamente sobre o preço de bicicletas como as nossas, o sujeito resolve nos perguntar:
– E o que vocês fariam se aparecesse alguém na estrada, apontasse uma arma pra vocês e falasse: sai andando, sai andando! Hein? Sai andando! SAI ANDANDO, PO**A!
E esta última frase foi dita num tom tão ameaçador (olhos fixos e injetados, braços esticados segurando um revólver inexistente, maxilar travado) que, por um momento, achei que ele estivesse falando sério. Cheguei a suar frio. Mas não foi nada. E ele tinha uma esposa e uma filhinha, que felizmente estavam ali para dissipar qualquer interpretação apocalíptica.

Belo trecho da estrada que leva è Régis e a venda do vendedor sinistro
Chegamos à Régis Bittencourt, a famosa Rodovia da Morte. Dizem que ex-Rodovia da Morte, pois agora ela estaria supostamente com menos buracos e duplicada em quase toda a sua extensão (de São Paulo a Curitiba). A princípio, concordamos com essa coisa de ex, pois nos pareceu tranqüila, apesar de 80% de seu tráfego ser composto por caminhões. Pelo que pudemos observar — e sentir na pele — no dia seguinte, melhor manter o velho apelido.
A cidade com o Posto de Saúde aconteceu já na parte da tarde. Foi lá, em Registro/SP, que conhecemos a simpaticíssima auxiliar de enfermagem Dalva Rosa dos Santos. Pois foi ela, entusiasmada pela nossa história, que nos aplicou as vacinas e os sorrisos. (Obrigado, Dalva!)

Imunes à febre amarela e ao mau humor
O destino do dia foi a cidade de Cajati, no meio da Régis, onde instalamo-nos no hotel do Sr. Renato, que tinha baratas.
…
|
…
Imprimir




May 14th, 2008 at 9:44 pm
Qualquer coisa, pô! Pô, como demorô o sinhô pra pô o negócio aqui, sô!
Como sempre, vale a espera. E as pirraças no cristo, bem a cara de vocês. E o Fininho, todo respeitoso, mas bem que comeu sorvete com a tampa da caixa, né? Hahahaaaa…
May 15th, 2008 at 10:11 am
Que delícia compartilhar os detalhes de mais um dia desta viagem maneiríssima!!!
É tão real a forma como você escreve, que eu, que nem estava lá, sinto saudade…
Sinto um orgulho enorme e uma admiração indescritível.
Aguardo agora, ansiosa, os próximos dias e o Desafio da Serra de Campos/Abril 2008.
May 15th, 2008 at 10:21 am
Achei seu blog ao acaso.. Estou me deliciando com a história.. Melhor que qualquer novela das 8… Aguardo ansiosa o desenrolar da aventura.. Já foi para “meus favoritos”.. Abçs Denise
May 15th, 2008 at 1:46 pm
Ei Xarope!!!! rs…
O que são sacolés?
Da para dar risada só de imaginar a cena no Cristo.
Mas o que podemos esperar do cidadão que despeja uma jarra de suco de laranja dentro de seu Camelback, na maior cara-de-pau?
Brincadeira… Continue escrevendo, os textos faz os nossos (pelo menos o eu) dias de trabalho, mais bem humorado.
May 15th, 2008 at 2:36 pm
N.R. sacolés são sorvetes dentro de saquinhos, que você supostamente chupa por um buraco feito com os dentes.
May 15th, 2008 at 5:52 pm
Hummm em São Paulo eles são conhecidos como: Gelinhos, ou Geladinhos.
Obrigado!!
May 16th, 2008 at 12:26 pm
Seguimos acompanhando.
Sem comentários só elogios.
May 23rd, 2008 at 4:57 pm
Eu li sua matéria na Revista VO2 e fiquei muito impressionada!!!
Parabenizo-os pela viagem.
Beijos,
Dany
May 26th, 2008 at 8:33 pm
gostei muito do site, tudo me deixou muito entusiasmado a fazer oque vc faz mais vezes.
eu sou o Max eu me encontrei com vc na Bike Box do barra shopping, eu estou voltando para Itamonte-MG e se um dia for para aquelas banda, mande me um e-mail, e vou mostralhe coisas novas e deslumbrantes. um grande abraço pra você
May 30th, 2008 at 12:31 am
rs
May 30th, 2008 at 2:26 pm
rs
May 31st, 2008 at 10:45 pm
De novo.