Rio-Chuí - 6º dia
(Postado em 08/07/08, às 22:00.)Cajati — Morretes (155,25 Km)
Quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Diazinho que já começou errado. E ia continuar assim.
Não apenas teríamos pela frente todos os caminhões da Terra e buracos da Lua, como também viveríamos um sumiço impensável, uma serra insana, uma briga-com-namorada, um câmbio quebrado, uma chave de corrente emperrada, 20 Km de descida em paralelepípedos, um GPS fujão e — finalmente! — os negros braços da noite engolindo-nos na estrada.
Na saída de Cajati, depois de um café-da-manhã desleixado, mal servido e pior tomado, conseguimos a proeza de nos perdermos uns dos outros. Verdade seja dita, perdemo-nos do Fabricio, que, súbita e inesperadamente, resolveu sumir. Com um maldito pneu furado, o rapaz desapareceu numa nuvem de enxofre. Por alguma razão, estava à cata de um posto de gasolina, e, na certa, achou que te-lo-íamos visto saindo do caminho. Não tínhamos. Notando-lhe o desaparecimento — o que só aconteceu quando já estávamos fora do trecho urbano, de volta à Regis –, tentamos seu celular, que não respondia. Demos meia volta, procuramos aqui, ali, e nada. A certo momento, e não sem que estivéssemos ligeiramente emputalhados, um de nossos celulares acusou uma tardia mensagem de texto, onde se esclareciam o furo e o posto. Que posto? Havia dois, não muito próximos, mas igualmente possíveis. Fomos a um deles. Nada. Seria no outro? Também não. O maior problema é que, por termos andado em círculo, ele poderia estar à nossa frente, na estrada — quiçá pedalando forte, achando que estaríamos nós à sua frente. Que fazer? A mim não ocorria nada melhor que resmungar. Fininho parecia ser da mesma opinião. Por sorte, em meio a bufadas e à desconsolada perspectiva de um dia ainda mais desgastante do que havíamos previsto, avistamos ao longe nosso desaparecildo amigo. Tinha estado no primeiro posto, e apenas não o víramos porque “não tínhamos olhado direito”. Prometia.
A vida não seguiu muito melhor a partir dali, e o mau humor do texto reflete o mau humor do dia. O que dava nos nervos era aquela rodovia chata, perigosa, esburacada, sem atrativos naturais ou humanos, interminável e cheia de caminhões. Lugar perfeito para não se pedalar.
(Lembrete ao leitor não-iniciado: sempre que por aqui se reclama de algum lugar ou situação vividos em cima de uma bicicleta, veja bem, sempre, por mais exageradamente aborrecida, ranzinza ou entediante a retrospectiva, muito maior que tudo é o simples prazer de lá estar. Zunindo pelos caminhos, sentindo na pele o ar — e a água, e a terra –, inalando liberdade a plenos pulmões e exalando as toxinas de uma rotina um tanto quanto engaiolada, por vezes modorrenta, ninguém, em sã consciência, reclamaria de verdade de um dia como este. Combinado?)
Mas por falar em perigo, encaramos, logo nas primeiras horas de pedal, o trecho mais complicado da viagem. Uma subidinha de 15 km que atende pelo nome de Serra do Azeite. O sol no lombo e a inclinação contínua eram refresco; ao acostamento inexistente e ao mato alto na beira da estrada sobreviveríamos numa boa; desnecessárias eram as crateras no meio da pista, verdadeiras piscinas que obrigavam toda uma frenética manada de caminhões a ziguezaguear loucamente. É claro que, dependendo do zigue, vinham para cima de nós.
Foto: revista O Carreteiro

Serra do Azeite
Não havia muito o que fazer para ajudarmos uns aos outros. O negócio era sair dali o mais rápido possível. Então, em respeito à vida e em temor à morte, subi com gás total. Quando respirei aliviado, no fim da subida, parei para esperá-los — e esperei. E esperei. E esperei.
(Peço licença para mais um parêntese chato-explicativo. Quando chegamos ao Chuí, no final da coisa toda — sim, porque o leitor persistente ainda nos verá chegando lá, inclusive vivos e sãos, e perdoe-me se acabo de estragar o fim da história –, estavam bastante nivelados nossos desempenhos nos pedais. Ao começo da jornada, no entanto, encontrávamo-nos em diferentes formas e formatos. O quesito peso, por exemplo. Até o fim da viagem, Fininho perderia 9 Kg; Fabricio, 4; eu, apenas 2. Era comum, então, nas subidas, principalmente nas mais longas, que eu abrisse um pouco e os aguardasse no final. Outra diferença eram as relações de marcha que trazíamos. A mais leve, na bicicleta do Fabricio, era uma 39/23, absolutamente cruel. A minha (34/26) e a do Fininho (39/28) eram bem mais amigáveis nas subidas. O pagador de promessas Fabricio, então, penando mais do que nós, acabava se fazendo esperar. Como não devemos levar tudo tão a sério, acabamos apelidando-o de Pontinho. “Vem cá… o que é aquele pontinho vermelho no horizonte?” “Ah, é o Fabricio, que vem chegando.” Às vezes, era um pontinho preto no horizonte, mal distingüiam-se as cores, à distância. E o mais divertido eram as desculpas esfarrapadas. “Foi minha caramanhola (a garrafinha d\’água) que caiu no chão…” Em tempo, repito: no final, estávamos os três igualmente secos e fortes, uns burros chucros. Que o diga meu primo Eduardo, que nos acompanhou nos últimos dias — sua caramanhola teve que cair no chão algumas vezes! Mas a forma foi chegando durante a viagem. Àquele momento, e estávamos ainda no sexto dia, era normal que eu esperasse um pouco ao final de grandes subidas. Por isso, não me passou pela cabeça, a princípio, que algo de realmente errado pudesse ter acontecido. Fim da digressão.)
Esperei por uma hora. Já começava a temer o pior, algo assim como um princípio de pânico, uma desistência ou um óbito. Com os celulares imprestáveis, já estava a ponto de voltar serra abaixo. Surge, então, um catatônico Fininho dizendo que o Fabricio tinha sido derrubado por um caminhão! Por um segundo, um eterno segundo, gelei. Mas ele aparentemente conseguira não morrer, na verdade não tinha sido nem um pouco grave, na verdade mesmo não tinha sofrido sequer um arranhão!… e o motivo daquela espera toda, na certa, era uma mera garrafinha caída. O que importa é que ele estava bem, e a caminho. De fato, lá vinha ele, vivinho da silva, e pedalando pela honra de seus descendentes! Nunca foi tão bom ver aquele pontinho no horizonte.
O almoço foi num restaurante ruinzinho, que já não ajudava muito; a briga pelo telefone, por um motivo bobo, foi entre a Bianca e eu (o que não faz a saudade…); o apetite perdido foi o meu. Conclusão: quem se ferrou fui eu.
À tarde, some-se aos problemas da manhã o desgaste de horas, uma cabeça cheia e uma barriga vazia. Mãe, me tira daqui. Era quase isso. Mas o Bem vence o Mal, espanta o temporal, como diria o Gorpo. Acabou. Saímos vivos da Rodovia da Morte! A próxima estrada era simplesmente encantadora. Que oásis! Que lugar!

Gorpo, o otimista
Já estávamos no estado do Paraná havia algumas horas. É que a terceira fronteira da viagem fôra tão simples quanto cruzar uma placa insossa, e não servira para muito mais que umas burocráticas fotos, por isso nem mencionei. Mas agora, sim… sorria, você está no Paraná!
O local era tranqüilíssimo, praticamente não passavam carros. Caminhão, nenhum. A inclinação seria quase toda a favor: vinte quilômetros serra abaixo. Um pórtico de entrada, abrem-se os portões do Paraíso. Uma casinhola de lanche, uma senhora com ares europeus. Caldo-de-cana com limão, chips de aipim. Um sujeito com uma motoca. Um pneu da frente que havia sido montado ao contrário, como foi prontamente diagnosticado pelo Fabricio. Conversa amiga. No stress at all. Muitas árvores. O cricrilar do grilo. O pio da coruja. A paz merecida, enfim.

Entrada da Estrada da Graciosa
Bang! Quebrou-se o câmbio traseiro do Fininho. A bicicleta não anda mais. Não tem como.
Fora de brincadeira, Murphy não dorme no ponto. A bicicleta estava completamente impedalável, e nós, no meio do nada. Estávamos, na verdade, quase na descida dos tais vinte quilômetros. Dela, separava-nos uma pequena subida. A noite vinha chegando. A solução, mais tosca impossível, foi tentarmos uma gambiarra na bicicleta do Fininho: amputaríamos totalmente o câmbio quebrado e arrancaríamos um pedaço da corrente para que esta ficasse esticada e encaixada em um pinhão fixo. Deveria ser suficiente para chegar até o começo da descida e despencar ladeira abaixo. Na manhã seguinte, procuraríamos uma bicicletaria em Morretes.
Arrancar o câmbio foi fácil para o Fabricio. Arrancar um pedaço da corrente é que foi um parto. A chave de corrente estava completamente emperrada e não havia como fazermos uma alavanca decente que a desemperrasse. Apelamos para minha ligeira ogritude, mas a força bruta não deu jeito. Apenas quando tive a idéia de encaixar a chave de corrente no pedal Look, para travá-la enquanto aplicava a força ogra, é que conseguimos fazê-la trabalhar. Serviço feito, tentamos pedalar, mas não deu muito certo. A corrente ficava escapulindo do pinhão, até que saía totalmente. Depois de muito penar, decidimos empurrar ladeira acima, até que a descida resolvesse acontecer e acabar com todo o sufoco. Praticamente não tínhamos mais luz. Um tanto quanto desesperado, fui, então, de sandálias havaianas, empurrando a bicicleta do Fininho tão rápido quanto pude ladeira acima, enquanto ele pedalava a minha bicicleta, calçando as minhas sapatilhas. Deu certo, a descida chegou. Estávamos salvos.
Agora, se você não sabe, nem queira saber o que são vinte quilômetros de paralelepípedos morro abaixo. E eu pisando de havaianas um pedalzinho de encaixe…
“Páááára!”, gritou o Fabricio. O que houve, meu Deus? Em dois minutos, será o breu total, escapulimos da Régis Bittencourt para sermos atropelados na Serra da Graciosa, não faz sentido. “Que foi, Fabricio?”, respondi, sem muita paciência. “Que-foi-Fabricio, que-foi-Fabricio?”, brincou ele, “dá uma olhada no seu guidom, não está faltando nada?” Putz! Estava! Com a trepidação, meu GPS resolvera cair, e eu não tinha nem visto. O atento Fabricio já estava com ele nas mãos. Sorri amarelo. Fazer o quê, né?…

Nossas únicas fotos na descida da Graciosa
Quando a escuridão já tomava conta da Terra, a sorte finalmente resolveu nos sorrir, ou foram os deuses das estradas que resolveram parar com as gracinhas. Só sei que nos vimos em um povoado absolutamente encantador, à base da serra, e encontramos, sem qualquer esforço, o lugar que nos ofereceu o melhor pernoite de toda a viagem. Pousada Caliente era o (apropriado) nome da hospedagem, com sua simpática dona. Tudo em seu perfeito lugar: tochas, árvores, caminhos com pedrinhas, chalés, sapos copulando, tudo isso. Até arrisquei um mergulho na piscina, às dez da noite.
Momento-reflexão: as dificuldades nos uniram. E muito. Agora, de repente, éramos um grupo de verdade, e iríamos juntos até o Uruguai.
Por fim, como diriam os Beatles, a noite de um dia duro. O sono perfeito, a bonança depois da tempestade. Era a viagem que começava a ficar boa demais.
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July 8th, 2008 at 11:40 pm
Walla!
Até o final do ano o resto da saga sai!
heheh… Ah, estou a fim de ir até minha terra (Brasília). A dúvida está no trajeto. Fui de carro uma vez e o trecho entre BHZ e BSB não é nada animador. Tráfego pesado e rodovias que mais parecem um queijo suíço.
Tõ achando que vale a pena aumentar uns 300 km no percurso e copiar o que você fez a caminho de Uberlândia (Uberaba é o meio da viagem entre BSB e Gotham City [aka São Paulo] - 500 km).
Num se anima não?
[]s!
hdab.
July 9th, 2008 at 12:11 am
“Tempo deu…” rsrs
Não resisti!
Te amo muitoooooooooo
Sua Bi
July 9th, 2008 at 5:46 pm
já tinha até esquecido que vc está escrevendo nosssa saga heheh mas não te culpo antes demorar todo esse tempo e sair esse excelente texto do que fazer rápido e ficar como outro texto qualquer abraços amigo amanhã to te mandando suas fitas ou melhor seus dvds
July 9th, 2008 at 6:18 pm
…o azul, o amarelo, tudo é muito belo!!!!
July 9th, 2008 at 6:22 pm
“Um tanto quanto desesperado, fui, então, de sandálias havaianas, empurrando a bicicleta do Fininho tão rápido quanto pude ladeira acima, enquanto ele pedalava a minha bicicleta, calçando as minhas sapatilhas.”
Isso deve ter sido uma das cenas mais engraçadas do mundo ciclístico! hahahaha
July 9th, 2008 at 10:14 pm
A descida da Graciosa de bike é uma m… Apesar da dificuldade (mountain bike) prefiro, mil vezes, subir do que descer. Mas que o passeio é belo não há como negar.
E esta história acaba ou não?
July 9th, 2008 at 11:55 pm
Eu ja estava quaaaase promovendo um movimento contra você Vinícius!
O Crônicas não pode parar! Por favor, nos faça esse favor, atualize sempre esse blog!
Abração…
July 11th, 2008 at 4:52 pm
Muito bom o blog !!
Estou me preparando p uma viagem de Santos a Buenos Aires.
Abraços
July 13th, 2008 at 8:21 pm
“…agora, de repente, éramos um grupo de verdade, e iríamos juntos até o Uruguai…”
Como diria Gorpo, o otimista:
“Harmonia é o segredo q traz alegria
Só se vence quando há harmonia
Harmonia e amor”
=o)
P.s.: Caraca! Q achado, citar o Gorpo! Magavilha… agora a surpresa: além de cantor, o Gorpo era pegador tb!
http://www.youtube.com/watch?v=M1w2FfzrB0c
July 14th, 2008 at 11:01 pm
Bacana Vinícius, a história está melhorando a cada capítulo.
Achei que ia guardar a história da minha caramanhola para o último dia rsrsrsrs.
Sábado fiz o caminho inverso de Porto Alegre ao Litoral, só que fiz um trajeto menor, mas deu para relembrar…
July 15th, 2008 at 4:29 pm
Hahahaa!!! Então esse é o famoso derrubador de caramanholas? É, amigo, você ganhou status de celebridade nacional!!!
July 22nd, 2008 at 7:19 pm
Calma Cepa, não tire conclusões precipitadas, aguarde (com bastante paciência-Rsrsrsrs) os próximos capítulos da novela ou melhor para o último capítulo da novela.
July 23rd, 2008 at 3:25 pm
Ah, é verdade, agora me recordo… O FAMOSO derrubador é o Fabrício
O que deixa você recoberto por uma aura de mistério… Que terá ocorrido com a sua caramanhola?
July 23rd, 2008 at 4:18 pm
Hahahaha! Vocês são mesmo umas figuras…
A verdade é que todo mundo tem seu dia de derrubador de caramanholas… principalmente o Fabricio e o Edu!… rsrsrsrsssr (só brincadeira)
Pessoal, obrigado por continuarem lendo. Não consigo escrever com a freqüência que gostaria. O que posso prometer é que, sempre que o fizer, será com 100% de doação, para que o resultado final fique tão bom quanto merecem meus leitores (todos os cinco!) e os protagonistas dos eventos narrados. Um dia sai!
Forte abraço em cada um,
Vinícius.
July 23rd, 2008 at 11:17 pm
Aguarde Cepa, o “misterioso causo da queda da caramanhola” será devidamente relatado, posso garantir que foi muito engraçado e acredito que com a redação do Vinícius certamente será ainda melhor e mais engraçado.
Abração.
PS: Se eu estivesse no grupo desde o princípio, certamente minha caramanhola cairia com uma frequência muito maior do que a de qualquer outro.
July 24th, 2008 at 2:26 pm
“Se eu estivesse no grupo desde o princípio…” - Na hora me lembrei de outro clássico, mais até que o Gorpo.
“Se o Pica-Pau tivesse procurado a polícia…”
Ah, Carlos, o que eu já derrubei de caramanhola dava pra poluir o Tietê umas 2 vezes ou mais
July 25th, 2008 at 4:53 pm
Parafraseando o Vinícius: “A verdade é que todo mundo tem seu dia de derrubador de caramanhola, principalmente o Fabrício e o Edú e agora por auto-confissão o Cepa-Rsrsrsrsrs!
August 3rd, 2008 at 10:11 pm
Fala Edu…
Estou aqui também na espera da “CARAMANHOLADA”….Rsss
Vamos lá, Vi….tem um monte de gente na espera dos outros dias!!!!
August 10th, 2008 at 11:27 pm
Oi Ilídio!
Também aguardo ansioso, mas logo quando somos premiados com um novo texto, parece também ter valido cada minuto da espera.
Abração!