free hit counter cronicasdebicicleta.com » Blog Archive » Rio-Chuí - 7° dia

▲ Principal

Rio-Chuí - 7° dia

(Postado em 06/08/08, às 20:06.)

Morretes — Joinville (170,75 Km)
Sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Engraçado escrever o relato mais de meio ano depois do fato. Não que haja regra, contrato, prazo, pai na forca ou qualquer pressão por parte de meus leitores (os três são muito compreensivos); temos todo o tempo do mundo, e nada há que venha imiscuir-se no livre fluxo das reminiscências deste projeto de ciclista-escritor. Engraçada — de peculiar, não de haha — é a percepção de não terem os meses passados alterado a nitidez ou apagado os detalhes das tantas lembranças, que, ainda absolutamente cristalinas, fazem a manhã daquele 11 de janeiro parecer tão recente quanto a manhã mesma de hoje.

Pois lá estávamos nós, depois de seis dias de muito pedal e muita estrada, respirando o primeiro ar de uma manhã paranaense, literalmente de papo pro ar. Sim, senhores, nós podíamos ser vistos tomando um sensacional banho de rio.

O rio em questão era daqueles de águas cristalinas que deslizam por entre pedras de todos os tamanhos e formas, entre as quais constituem-se aquários e piscinas naturais para todo gosto. Seu leito passava pelos fundos da boa pousada, e aquilo que seria apenas uma rápida caminhada de reconhecimento — mais para satisfazer a insistência da dona do lugar que pela esperança de que valesse a pena o atraso — por pouco não mudou nossos planos: valeu a pena até demais. Confesso que minhas prioridades ficaram seriamente abaladas, mas foi Fabricio o primeiro a dizer que dali não saía, dali ninguém o tirava. Os outros concordavam que não seria má idéia.

DSCF2912 DSCF2913 DSCF2918 DSCF2926

DSCF2910
Pintos (patos?) no lixo

A pousada, de que já tínhamos gostado na véspera, adquiria, agora, status de paraíso. Isso sem falar no café-da-manhã todo bonitinho e farto que nos fôra servido dentro do próprio apartamento-chalé. Mas não podemos — e não podíamos — esquecer de que a bicicleta do Fininho estava sem câmbio traseiro e com a corrente remendada, e de que a bicicletaria mais próxima ficava 10 Km adiante. Despedimo-nos, assim, da satisfeita guardiã do Éden, e partimos rumo ao centro de Morretes.

Se o esquema da corrente cortada e travada num pinhão fixo tinha sido inútil para vencer a subidinha em que nos encontrávamos no sufoco da véspera, agora, no plano, parecia funcionar. Parecia. Logo nos primeiros giros, a corrente arrebentou de vez. Aí não havia santo que desse jeito. Bem, até havia, mas o precioso tempo que perderíamos até que São Fabricio fizesse nova gambiarra — o que, em outra situação, seria talvez o único recurso — poderia ser economizado se simplesmente rebocássemos o Fininho e sua finada bicicleta até a cidade. E foi o que fizemos. Fininho ia no meio, montando seu animal inválido; Fabricio e eu, nas pontas, um de cada lado da bicicleta inútil. Com um braço, cada um de nós segurava seu próprio guidom; com o outro, empurrávamos as costas do marajá.

Avançávamos, assim, de forma lenta, improvisada e esdrúxula, mas não ridícula — embora quase tenhamos ido ao chão algumas vezes, o que teria sido certamente ridículo. Não ajudava muito a presença de quebra-molas. Mas chegamos à cidade e à salvadora loja de bicicletas do Japonês, onde um câmbio Yamada de mountain bike foi o melhor que conseguimos para substituir o falecido 105 (Shimano 105, um bom câmbio para bicicletas de estrada — que, no entanto, às vezes quebra, principalmente na mão de caras meio ogros).

DSCF2941 DSCF2947
O Japonês em ação e a foto para os livros de História

Estava um sol de rachar quando deixamos Morretes. Apenas uma hora depois, talvez menos, algumas nuvens inesperadas taparam completamente o sol, o que encararíamos como uma benvinda gentileza se as mesmas nuvens, apenas um minuto depois, talvez menos, não se houvessem convertido em furiosa saraivada de gotas sobre nossas ocas cabeças. A chuvarada, dessa vez, foi tão forte que tivemos que parar. E o fizemos debaixo do primeiro abrigo que encontramos, um ponto de ônibus com aquela casinha de cimento. No mesmo abrigo, já se acomodara outro refugiado da tempestade súbita: Mário, sujeito gente-fina que ganhava a vida como cover do Elvis Presley. Estava na mesma situação que a gente, já que a chuva o impedira de seguir adiante em seu veículo de duas rodas. Irmanados por nossa condição de reféns da natureza, jogamos conversa fora até a chuva amainar. Quando a cortina d’água já nos permitia enxergar mais que um palmo à frente, seguimos nossas vidas, Elvis em sua moto, nós nas bicicletas.

Depois do almoço em Matinhos, onde o jovem garçom se tornou uma espécie de fã nosso, a terceira e última balsa da viagem atravessou-nos de Caiobá a Guaratuba, duas das mais famosas praias paranaenses. Na primeira delas, tivemos a desonra de assistir ao (tosquíssimo) desfile de carros alegóricos que faziam propaganda do parque Beto Carrero World. Imagine uma carreata supostamente carnavalesca, à beira da praia, onde remexem-se marylin monroes, palhaços, super-heróis, chaplins, tarzans e king kongs, todos indistintamente blasés. Pois é, vamos mudar de assunto. Na segunda praia, já depois da balsa, tivemos a companhia de um guri em uma bicicleta. Era minhoca-da-terra, fazia supletivo e dizia que seu sonho era cursar Ciências Contábeis. Ciências Contábeis, tudo bem, mas… sonhar com?! Depois nós é que éramos os doidos…

DSCF2964 DSCF2967
Beto Carrero Uôu!

DSCF2970
A terceira e última balsa

O Estado do Paraná deu lugar ao de Santa Catarina no meio de uma estrada verdejante, a poucos quilômetros de Garuva (não confundir com Guaratuba, a praia do futuro contador feliz). Já em solo catarinense, paramos para lanche numa birosca de nome europeizado, o que trouxe a ligeira impressão de que estávamos mesmo nos aproximando do Sul.

DSCF2991
A terceira e antepenúltima divisa

DSCF2997 DSCF2996 DSCF2998
Lanchinho em Garuva/SC, the calm before the storm

Como não podia deixar de ser, calculamos o tempo necessário para vencermos os quilômetros finais até Joinville sem incluir o pneu furado do Fininho, que aconteceu logo depois que saímos da birosca. Por sorte era o pneu da frente, do contrário poderíamos ver um replay da cena da praia de Mongaguá. Fizemos a troca, e logo estávamos, novamente, na BR-101.

Fato é que a noite acabou mesmo caindo antes do que gostaríamos, e novo aguaceiro também acabou caindo — certamente antes do que gostaríamos — e deixando tensa a última hora de pedal daquele dia. Sobre viadutos encharcados e cheios de detritos, passávamos a toda velocidade, com medo de não sermos vistos pelos caminhões no meio daquele dilúvio, e martelávamos os pedais sem trégua enquanto fazíamos a contagem regressiva dos últimos dez quilômetros, com o sofrimento de quem conta as passadas finais de uma maratona.

Quando chegamos a Joinville, já era noite de verdade, e estávamos molhados de verdade, e com fome, então tudo o que pudemos fazer foi seguir direto até o hotel suburbano cujo nome foi o primeiro que lemos, no anúncio de um outdoor qualquer.

DSCF3002
Fim de mais um pequeno drama

A janta, no quarto do hotel, foi pizza, que eu engoli sem sentir o gosto. Tudo que eu queria era dormir depressa, porque no dia seguinte partiria de madrugada, antes de meus amigos.

Veja também:
– o mapa e os números do dia;
– o álbum de fotos completo.


▲ Principal       Imprimir Imprimir

15 comentários em “Rio-Chuí - 7° dia”

  1. Bianca diz:

    MA-RA-VI-LHO-SO!!! TUDO!!!
    O desafio de vencer o sonho, o suor a cada pedalada, a cada novo desafio, o orgulho de ter completado mais um dia, o texto, VOCÊ!
    Fiz alguns comentários nas fotos…
    Parabéns mais uma vez!

  2. fininho diz:

    Realmente mais um capítulo da obra prima ficou show parabéns Vinícius

  3. caio diz:

    Poxa, 3 leitores
    ;P
    qq eh isso
    todo dia entro aqui soh pra ver se tem um novo capitulo

  4. Cepa diz:

    O câmbio Yamada funfou direitinho, Fininho?

  5. vigusmao diz:

    Bi, o oitavo dia você conhece muito bem. Daqui a pouco sai… ;-)

    Fino, valeu pela paciência! Mais fácil subir a Serra do Rio do Rastro com uma perna só que ver esse relato pronto, eu sei!…

    Caio, obrigado pelo comentário. Bom saber que você curte os textos!

    Alê (respondendo por ele), o câmbio deu pro gasto, sim. Mas em Floripa nós conseguimos um 105 zerado. Abraço, véio.

  6. Renato diz:

    Vigusmão, diz a lenda que Joinville é a primeira chuva à esquerda, de quem desce para o sul!

  7. Hermes A. Borges diz:

    Pois é… também me senti excluído do grupo de leitores… e olha que eu venho aqui com uma certa freqüência hein. =P

  8. vigusmao diz:

    Grandes Hermes e Renato, :-)))))

    Valeu pelos comentários. Vocês são dois que estão sempre por aqui dando uma força. Aliás, o “os três são muito compreensivos” foi só uma piada, é claro que tem mais gente! (Nem que fossem só o pai, a mãe, as irmãs e a namorada, já seriam mais que três…)

    Abraços,
    Vinícius.

  9. Carlos Eduardo Patussi diz:

    Eu também leio sempre!
    Está cada vez melhor
    Assinado:
    Derrubador de caramanhola II.

  10. Hermes A. Borges diz:

    =D
    Cara… fui a Brasília nessas férias e topei com o povo do fórum (Baleia, Gibran, Landim, Xmotta). Como comentei com o Fabrício, voltei empolgadaço de lá - principalmente por ter superado a barreira psicológica dos 100 km em uma bicicleta! Heheh.. parece besta mas eu fiquei super feliz com isso!

    Queria que pedir que vocês me chamassem para acompanhá-los nesses eventuais longões de fim de semana. Depois de encarar uns tobogãs na BR-251, o medo de subir se foi - já não era sem tempo, aliás. =)

    []s!
    hdab.

  11. edinho diz:

    Rapaz, comecei a ler mas… caiu a caramanhola!!!!!!

    Já respondi seu e-mail, veja lá.

    Ops, caiu a caramanhola de novo! :)

  12. Carlos Eduardo Patussi diz:

    Tá tripudiando né Edinho! Rsrsrsrs!
    Se andares na minha frente muito forte, mando logo uma caramanholada nas costas prá acalmar o ímpeto! Hehehe!

  13. Bianca diz:

    Vontade de rebubinar o tempo e me transformar em “coelhinho preto saltitante” novamente …
    Saudade!!!

  14. Cepa diz:

    Semana retrasada presenciei o Fabricio (daqui de Itu), após abrir quase 500m de mim no seu pedal de estréia com a speed, derrubar literalmente a MINHA caramanhola na estrada… Aproveitei e botei 200m em cima, mas… Ele me alcançou, hahahahaha…

    Não adianta, aquelas rodas parecem sembei* e as minhas parecem trakinas…

    *Aquele biscoito japonês redondo, finiiiinho e beeem largo.

  15. claudio ribeiro diz:

    A vida e loka neste mundo virtual,estou no google garimpando uma imagem do bmx na olimpiada ou seja o que existe de top em termos de tecnologia e encontro um escritor/ciclista,e voce e os teus,estao de parabens pelo seu trabalho e a humildade demonstrada em suas postagens.desejo a todos que mantenham esta plenitude de viver e esta serenidade na alma,imprescindivel para possuir a coragem para superar o medo e extrair o maximo do potecial de uma estradeira.agradeço pela atençao,contudo devo permanecer em minha busca para que um dia eu atinja o potecial para vencer o desafio de saltar uma rampa gigante.

Deixe seu comentário (qualquer coisa, pô!)