Rio-Chuí – 8º dia
(Postado em 10/10/08, às 12:05.)Joinville — Florianópolis (179,71 Km)
Sábado, 12 de janeiro de 2008
Ah, o oitavo dia. Disparado o mais difícil, monótono, perigoso, sujo, encharcado, cansativo e cheio de incidentes de toda a viagem. Se pudesse escolher um dia para apagar da história, seria este. Foi assim.
Era sábado. Chegaríamos a Florianópolis. Do planejamento constavam dois dias de descanso, longe dos pedais: um em Floripa, outro em Porto Alegre, as duas capitais que visitaríamos. Bianca iria a meu encontro, de avião, e passaríamos juntos o fim de sábado e o domingo.
O avião — que me levaria namorada, roupas limpas, comida e outros suprimentos vitais, representando sobretudo o contato com uma civilização menos bárbara e imunda que nossa célula migratória — aterrizaria na capital catarinense ao meio-dia. É claro que eu ansiava por chegar e não queria perder nem um minuto. Meus companheiros de viagem tinham idéias diferentes; imaginando que o dia seria apenas um rolê de 180 Km no asfalto plano e macio, pensavam em dormir até tarde para se recuperar dos mil quilômetros que já carregavam nas pernas. Sem problemas, apenas pedalaríamos separados.
Saí do hotel de Joinville às 5h50. Fininho e Pontinho ainda hibernavam, e também o sol. Na escuridão absoluta, custei a achar vivalma que pudesse me apontar o caminho da BR-101. Após alguns desacertos, encontrei-os, a vivalma e a estrada. Parei para comer no primeiro lugar mais-ou-menos que encontrei, depois pus-me a pedalar o mais rápido que pude. Tudo muito bom, tudo muito bem.
Cálculos otimistas me diziam que, mantendo o ritmo das duas primeiras horas durante apenas mais quatro delas, eu chegaria ao aeroporto de Floripa a tempo de ver o avião pousar. Mas o primeiro minuto da terceira hora me trouxe de presente um pneu furado. O décimo-primeiro também e, para não ficar de fora, também o vigésimo-primeiro. O acostamento estava terrível, havia o acúmulo de todos os detritos do mundo, e eu já estava começando a ficar irritado com aqueles furos a cada dez minutos. Para me refrescar os miolos, São Pedro mandou a chuva. Mas, como a única coisa que não esfriava era a cabeça, porque a situação estava já bem desconfortável, com todo aquele detrito e os pneus meio baixos, que essas bombas portáteis nunca cumprem o que prometem, São Pedro mandou raios, trovões e muito, muito mais água. E ainda, em conluio com os demais santos controladores das desgraças estradeiras, mandou também a ventania e um pneu rasgado.
Sim, rasgado. Ia eu, no meio daquela molhadeira, subindo uma serrinha amiga, quando o pneu traseiro, sempre ele, resolveu furar pela quarta vez no dia e na viagem (eu estivera invicto até a véspera). No meio de uma curva imensa, parei, troquei a câmara-de-ar e, só após tê-la enchido quase totalmente, percebi o rasgo na banda de rodagem do pneu, por onde a câmara escapulia numa imensa verruga preta. Nosso pneu reserva estava com o Fininho, que àquela hora provavelmente ainda roncava. Celular sem sinal, tudo cinza, chuva que não acabava mais. Tirei mais uma vez a roda, improvisei um manchão com o velho e bom plástico de barrinha de cereal e tornei a enchê-la. A verruga, felizmente, sumiu.
Continuei subindo a serra e passei, uns quinhentos metros após o fim da curva do rasgo, por um cachorro morto. Eu estava tão sozinho que cumprimentei o cachorro, morto e tudo. Segui mais uns duzentos metros e dei pela falta de meus óculos. Sou especialista em perder óculos de ciclismo, mas aqueles eram óculos bem carinhos, eu não fazia a menor questão de perdê-los de bobeira. Voltei pela contramão (a pista era mão única, não tinha jeito), serra abaixo. “Fala, cachorro, sou eu de novo.” Felizmente os óculos estavam lá, no local do rasgo. Agora era subir tudo de novo. “Faaaaala, cachorro, vai ficar aí mortão?”
Depois foi a vez do cléq. Um cléq seguido de um pôu. Quebrou o bagageiro. Partiu ao meio. O bagageiro comprado em Londres, que eu tanto elogiava, que me acompanhou na viagem pela Europa, que nunca tinha me deixado na mão. Até ele, metido na conspiração universal. Que jeito? Mochilão de dez quilos nas costas. Faltavam apenas 80 km.

Pneu rasgado e bagageiro quebrado
Os oitenta quilômetros mais sofridos de minha curta e internacional carreira. Que vento, que frio, que peso nos ombros, que desolamento, que desgrama! Quem, ó Deus, quem foi o idiota que teve a idéia de ir de bicicleta, hein?
O avião já teria pousado haveria muito. Eu tentava ir rápido e não conseguia. O velocímetro era, definitivamente, meu inimigo. Mais ainda o era o odômetro, que parecia com defeito. Os quilômetros simplesmente não passavam.
Mas tudo passa. Acabei me vendo numa estrada bem movimentada e já com civilização às margens. Consegui acelerar, dei tudo o que tinha e o que não tinha. Dali a pouco, vejo um coelho preto atravessar a rua, em disparada. E acenava, todo saltitante, para mim. Conheço esse coelho! Era a Bianca, de roupa preta, que tinha ido de táxi me esperar na estrada. Estávamos a 3 Km da famosa ponte de Florianópolis. Eu estava salvo.
Meus amigos também tiveram pneus rasgados e sofreram com a ventania. Fabricio deu-se por satisfeito em Balneário Camboriú e pedalou sozinho até Floripa apenas no dia seguinte. Fininho ainda insistiu, mas foi resgatado de carro por seu primo Catatau a 40 Km da entrada da ilha. (Portanto, evite comentários maliciosos, meu caro e detalhista leitor, mas é vero que, dos 2650 quilômetros da viagem, houve quem só tenha pedalado 2610!)
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October 10th, 2008 at 2:16 pm
A longa espera valeu a pena! Mas não nos mate de curiosidade novamente! Vamos para o Dia 9!
October 10th, 2008 at 5:19 pm
“Faaaaala, cachorro, vai ficar aí mortão?” hahahahahahahahahah só você mesmo!
Xarope!
October 10th, 2008 at 8:15 pm
verdade seja dita realmente pra não piorar as coisas decidi pedir ajuda ao meu primo pois ja tinha furado 2 pneus,roda estava torta,ventava que se soltasse pipa perigava ir junto e tb estava ficando escuro no proximo pedal ando 80 a mais pra compensar esses 40 heheh
October 11th, 2008 at 12:56 pm
PQP, este trecho foi de matar. Mas garanto que a visão da ilha faz esquecer estes meros detalhes!
Esta foi ótima!
October 13th, 2008 at 1:34 pm
Nunca, mas NUNCA mais eu reclamo de pneu furado. Vejam o castigo que São Sheldon Brown impõe a quem reclama
October 13th, 2008 at 5:37 pm
Ô “Boneco Pica-Pau”, não esqueça dos outros 25Km (Gravataí-Poa), mais para frente. Brincadeira! O Fininho pedala o tempo todo com a cara no vento, mesmo quando atrás do pelotão, pode dar um desconto para o rapaz. Ainda bem que o pior já passou, agora é só festa!
Tenho informações de que o novo texto está bem avançado e logo estará aí! Hehehe!
October 16th, 2008 at 4:49 pm
“Os quilômetros simplesmente não passavam…
Mas tudo passa…”
Tudo paaaaaaaaaaaaaaassarááááá!!!
November 3rd, 2008 at 8:37 pm
Filho,
Estou aqui novamente curtindo o oitavo dia…mas não nos faça sofrer muito…acabe logo os dias que faltam ou o relato vai demorar o tempo de ir a pé do Rio ao Chuí…..rsssss..Se bem que também não estou podendo ler os relatos com a freqüência que eu gostaria.
Bjs