Rio-Chuí - 1º dia
(Postado em 22/02/08, às 16:22.)Rio — Muriqui (107,71 Km)
Sábado, 05 de janeiro de 2008
Então ficou acertado assim: partiríamos do cartão postal mais famoso. A estátua do Cristo, lá em cima, representaria ao mesmo tempo a primeira cidade da viagem e a bênção de Deus para os viajantes.
Fininho veio de ônibus de sua Macaé, que fica a 180 Km do Rio, e encontrou-se com o Fabricio, que mora perto de uma das subidas que levam ao Corcovado. Inicialmente, o pai deste último (do Fabricio, não do Corcovado) os levaria até a linha de largada. Um problema em seu carro, no entanto, o impediu, fazendo com que as duas criaturas, ávidas por ação, decidissem alcançar pedalando o topo da famosa pedra em que pisa o Redentor. Foram 13 quilômetros de subida, para eles. E a viagem, oficialmente, nem tinha começado!
Mui confortavelmente instalado no interior refrigerado de um veículo dotado de motor, e assessorado por duas outras criaturas muito mais secas, cheirosas, descansadas e sobretudo incomparavelmente mais belas que aqueles dois que se matavam morro acima, ia eu, pela última vez em semanas, deslocando-me às custas da potência alheia. Bianca, minha namorada, e Igor, seu filhinho, compunham meu comitê de despedida. O carro subia fácil, nem era com ele. A bicicleta, muito bem presa ao transbike — ou como se chame o invento –, ia dormindo aquele sono inocente de quem não faz idéia do que está por vir.
Ia o automóvel transportando-nos alegremente quando avistamos, no meio da subida, as fétidas criaturas, açoitadas pelo morro e pelo sol. Fabricio trazia no rosto a expressão naturalmente dura de quem está vencendo uma baita subida. Mas, ainda que sua figura estivesse apenas ligeiramente menos feia que a do Capeta, não haveria motivo para pânico: somos amigos há tempos. Já o Fininho, que trazia no rosto não apenas uma expressão dez porcento mais feia que a do Capeta com dor nos rins, mas também uma cabeleira vermelha de dar inveja ao Pica-Pau, esse deixou a pobre Bianca assustada: “vem cá, é com essa figura que você vai viajar?”
Era com aquela figura. Com aquelas figuras. Três figuraças, é verdade, porque tenho que admitir: não pode ser muito certo quem decide fazer um negócio desses. Nem tanto pelos motivos bichos-papões que as pessoas aventam: os “perigos da estrada”, a distância meio longa, a chuva e o sol no lombo, o risco de assalto, os lugares desertos; o estranho é você passar três semanas quase sem fazer outra coisa a não ser pedalar. Pedalar e olhar pra cara de dois cabras peludos metidos em bermudinhas justas, longe de casa e mulher. E de roupa cheirosa e seca, vá lá, e de uma superfície macia para apoiar o traseiro.
Éramos, pois, três doidos caricatos prestes a trocar o descanso das férias de um ano inteiro por uma aventura medieval com jacarés, capivaras, argentinos, toda uma fauna.
O último trecho da subida para o Cristo não pôde ser cumprido pelo carro. Há uma guarita, a partir da qual são permitidos apenas táxis, vans, e — porque tem maluco pra tudo — bicicletas. Minha comitiva, portanto, aguardou comigo a chegada dos outros dois, tomou uma van e foi ao encontro de Jesus (no bom sentido). Finalmente embicicletado, agreguei-me ao grupo, que pedalou ladeira acima.
Foto: Bianca

Eu e Igor diante da proibição aos carros
Um sujeito de mountain-bike passou por mim. Estávamos no quilômetro “-2″ da viagem (nem tínhamos chegado ao zero ainda) e já fiz minha primeira gracinha. O sujeito subia muito bem e emparelhou comigo quando dei uma apertada no ritmo. Sua atitude agressivo-emparelhativa desacompanhada de qualquer cumprimento foi o suficiente para que se transformasse em vento nas costas a vontade de deixá-lo para trás que segundos antes soprara-me apenas como brisa na orelha. Dei tudo de mim.
Cheguei lá em cima antes do malandrão, mas minha atitude tudo-doadora-de-mim desacompanhada de qualquer juízo foi o suficiente para me dar plena consciência de não estar em meu melhor preparo físico: aquela subida já fôra bem mais amistosa.
Quando todos já estavam reunidos, mordemos um lanchezinho qualquer e subimos as escadarias até a estátua grandona. Levamos as bicicletas nos braços, gentileza última com quem nos carregaria por léguas sem fim.
Fotos: Bianca


O trio no Corcovado
Uma das vistas mais bonitas do mundo. Muitas fotos, muitos olhares curiosos dos passantes, todo aquele bafafá de turistas, aquela agitação. Abaixo, os cotovelos de uma bela estrada. Acima, os suvacos de um belo Cristo. Um momento mágico, uma curtição. Mas logo chamou-nos a responsabilidade e precisamos botar o pé na estrada. Era quase meio-dia.
De volta ao estacionamento onde estava meu carro, que seria dali em diante dirigido pela Bianca, amarramos as mochilas, que tinham ficado no carro, aos bagageiros das bicicletas. Foi o primeiro de muitos desses momentos de amarração de mochila. Nós três ainda muito atrapalhados com a tarefa, pedindo ajuda uns aos outros. Mas lembro-me de ter dito ou pensado: “daqui a pouco vamos estar tão acostumados com isso que vai ser questão de segundos, e cada um por si”. Não sei se foi assim tão dali-a-pouco quanto profetizei, mas nos últimos dias as mochilas já eram amarradas e desamarradas num piscar de olhos, que nem box de Fórmula 1. E sem ajuda.
Foi nesse momento que percebi que tinha esquecido em casa minha câmera fotográfica. Maldição! Mas a Bianca, que ficaria com o carro, resolveu o problema, oferecendo-se para buscar a câmera e nos encontrar no meio do caminho. Assim ficou combinado.
Devidamente abençoados e fotografados (não pela minha câmera esquecida!), juntamos as mãos num gesto meio ridículo, meio mosqueteiro, e partimos. Minha bicicleta, porém, recém-serviçada para troca de cassete e corrente, não estava muito católica e apresentava um rangido nos pinhões maiores. A roda traseira do Fabricio também estava arisca e apresentava um raio quebrado do lado do cassete. Descemos, então, os morros todos para o lado da Barra da Tijuca e fomos até a loja onde trabalha o Cláudio, que divide com o Raymundão (de quem já falei no relato do Granfondo 2007) a fama de melhor mecânico de bicicletas do Rio.
Deixamos nossas potrancas em boas mãos e fomos almoçar, o primeiro almoço da viagem. Estávamos, vejam só, muito perto de casa, ainda. Passo por ali quase todo dia, no caminho para o trabalho…
Depois de tudo resolvido com as bicicletas e as barrigas, seguimos viagem. Seriam menos de 100 Km até Muriqui nessa moleza de primeiro dia, mas já passavam das duas da tarde e estávamos ainda na praia da Barra!
Em frente ao Bosque da Barra, eu e Fininho protagonizamos uma suposta tentativa de suicídio conjunto. Pelo menos segundo o Fabricio, que se assustou com o motorista idiota que acelerou enquanto eu e Fininho cruzávamos a pista. E tínhamos apenas alguns minutos de viagem! Mas não houve nada demais, e nada demais haveria, nesse sentido mórbido, durante toda a viagem. Ou quase nada.
Pedalamos, então, pelo retão da Avenida das Américas até o fim do Recreio dos Bandeirantes e subimos a serrinha da Grota Funda, oficialmente a primeira de nossa jornada. Já próximos de Santa Cruz, fomos interceptados pela Bianca com a câmera. Aproveitamos para tirar mais algumas fotos e renovar as despedidas. Dali pra frente, nada de carro de apoio.

Última despedida, na entrega da câmera
Numa parada rápida, pouco adiante, o sujeito que nos vendeu dez cocos não entendeu de onde vinha tanta sede. E não levou a sério, certamente, quando o Fininho disse que estávamos indo para o Uruguai, cena essa que se repetiria por vezes sem conta. A diferença é que, a partir de um momento, as pessoas começariam a acreditar no destino e a duvidar da origem.
Depois de percorrermos uns quilômetros inúteis na Av. Brasil para pegarmos o retorno politicamente correto que ficava muito mais longe do que devia, concordamos todos que uma bandalhinha de cinqüenta metros teria sido muito melhor. Mas importa que entramos, finalmente, na famosa Rio-Santos, cantada em verso e prosa por não sei quantos poetas, viajantes e viajantes-poetas, e que é considerada uma das mais belas estradas do mundo. Estávamos para conhecer cada um de seus centímetros.
Tudo muito bem apesar do vento contra, íamos com algum revezamento tentando entrosar, adquirir um certo senso de grupo. Com estilos radicalmente diferentes, continuamos tentando até o fim da viagem. Mas tivemos, sim, nossos momentos de pelotão profissional. Na hora da dificuldade, meu amigo, o único estilo é fazer o grupo andar o mais rápido possível, é sobreviver.
Nas imediações de Itacuruçá, fizemos uma parada para lanche e amizade com cachorro. Foi o primeiro de muitos vira-latas que se identificaram com o Fininho e quiseram acompanhá-lo até o Chuí. Tamanha era a empatia mútua que cheguei a temer que acabasse amarrado ao bagageiro do nosso amigo.
No estirão final, depois do lanche e das lágrimas caninas, São Pedro se irritou. Muita água. Muita. Tanta, que foi preciso ligar o pisca-pisca traseiro, ainda à luz do dia.
Chegamos a nosso destino ensopados, mas meu ensopamento não me impediu de comer, ainda debaixo de chuva, duas das famosas “Cocadas de Muriqui”. É um tipo meio diferente de cocada, espécie de papa de côco queimado com leite condensado. Ou talvez a papa fosse obra da chuva, vai saber.

Fininho, seu cão e a barraca de cocadas
O pernoite gratuito foi conseguido pelo Fabricio, no apartamento de seus hospitaleiros tios. Antes de subirmos com as coisas, demos uma ducha nas bicicletas, na garagem do prédio. Lá em cima foi banho, janta e cama, sem mais delongas. Bom demais para um primeiro dia.
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February 22nd, 2008 at 5:19 pm
Sem comentários…
Parabéns guerreiro! Parabéns pelo belo texto, pela raça de querer viver a vida intensamente, pela perseverança que existe dentro de você.
Estarei ao seu lado em qualquer ocasião!
Bianca
February 22nd, 2008 at 6:20 pm
OBAAA!!Começou a Novela…Estamos aqui de olhos atentos!!!ParabenS Mais de mil vezes….E aguardo o próximo capítulo…
February 23rd, 2008 at 9:57 pm
Bom! Que venha logo o restante.
February 24th, 2008 at 11:38 am
“Felomenal” ! maravilhosa viagem a de vocês, excelente texto (Daria um livro facilmente).
P A R A B E N S !
February 25th, 2008 at 9:33 am
Sem dúvida vc consegue traduzir as emoções sentidas no site.
February 25th, 2008 at 10:19 am
Hehehehe!
Tamanha empatia com “los perros” que chegou a temer que o Fininho amarrasse um no bagageiro. Faltou muito pouco.
Boa Vinícius!
February 26th, 2008 at 12:34 am
Valeu, filho….esse texto estava há muito aguardado por mim…sempre viajo com você, na carona do seu maravilhoso texto. Lendo sobre as duas cocadas devoradas, lembrei quando eu lecionava ainda no Colégio Naval e você, criança, perguntava na minha volta se eu tinha trazido as cocadas de Muriqui.
Não sabia que tinha esquecido a máquina, seu cabeção….só a Bianca mesmo para salvar…
Que venham os próximos capítulos!
February 26th, 2008 at 8:05 am
Que vacilo hein Vinicius… você fazer uma viagem dessas sem câmera… e nos deixar sem fotos? Ainda bem que lembraram a tempo. Um abraço.
February 29th, 2008 at 11:34 am
Opa,
tinha esquecido o nome do site.
Legal que chegaram bem. Aquela noite na igreja ja tava pronto pra resgatar vocês.
Quando resolverem continuar a viagem me avisem.
abraços
Rodrigo / Pelotas
February 29th, 2008 at 1:38 pm
Grande Rodrigo, aquela noite foi a mais punk, mesmo! Espero que voc~e também tenha chegado bem. (Aquela ponte, hein!…) Se quiser, vai acompanhando os episódios. Você vai aparecer, com certeza, lá pelo 15º dia.
Obrigado a todos pelos comentários! É bom vê-los por aqui!
Abraços,
Vinícius.
February 29th, 2008 at 10:00 pm
O esquecimento da câmera: última tentativa do inconsciente em dissuadir o insano indivíduo de tamanha insensatez. Felizmente o “carro de apoio” estava presente para o empurrãozinho necessário. Hehehehe. O final já sabemos, mas esperamos ávidos pelo desenrolar desta novela. Um grande abraço.
Márcio - Gravataí/RS
March 3rd, 2008 at 3:59 pm
Em primeiro lugar antes de mais nada gostaria de dar os meus parabéns para estes três bravos heróis Fabrício, Fininho e Vinícius!
O feito de vocês são dignos do mais alto reconhecimento! Encarar estas estradas perigosas em busca do prazer de pedalar ao lado dos amigos, por tantos quilômetros e ainda relatar de forma tão maravilhosa para pessoas como eu, que passam a maior parte do tempo trabalhando com pouquíssimo tempo para pedalar e sonhando com o dia (e este dia irá chegar) de ter o preparo e o tempo necessário para pedalar ao lado dos amigos por tantos e tantos quilolitros!!!
Em segundo lugar parabéns novamente ao Vinícius pelo excelente blog e por todas estas “indiadas” que acompanho a um bom tempo.
E em terceiro lugar me apresento a todos!! hehehe
Meu nome é Micael, tenho 24 anos, moro em Caxias do Sul - RS, tenho uma Specialized StumpJumper e ate o final do ano estarei adquirindo um speed para que possa curtir tanto uma boa estrada de chão embarrada e tanto um asfalto fervendo!!! rsrsrs
Boa sorte nas próximas indiadas e continue relatando estas novelas para os felizes leitores!!!!
Abraços!!!
Mika
March 3rd, 2008 at 5:06 pm
Opa, perdão no post anterior!!!
Quilolitros????? Acho que não estou bem em plena segunda-feira!!! rsrsrs
Quilômetros seria a palavra certa!!! hehehehe
Abraços!
Mika
March 4th, 2008 at 5:31 pm
Salve, Vini!
Aqui é o Morcego!
Que bela aventura, cara!
Já te disse que vou emagrecer para ser o Vinícius do surf. hahahaha
Cara, gostaria de te convidar para o aniversário de 3 anos da minha filha, que será comemorado aqui no play do meu prédio, dia 15 de Março, a partir das 18:00. Para qual e-mail eu poderia lhe enviar o convite?
Pode me responder no fabiano@fabianoizabel.com.br, se assim preferir!
Grande abraço!
Morcegão!
March 13th, 2008 at 9:14 pm
E aí Vinicios, amarradão ve se conta logo o resto. Cada vez que leio essas aventuras fico
com mais vontade de adquirir uma bike. Valeu campeão.
April 24th, 2008 at 1:04 pm
Puta mer**! Para quem tb já foi personagem dos relatos do Vinícius ler este baita relato é uma dose de ânimo! É esquecer que se para alguns é loucura para outros é apenas o prazer de fazer aquilo que gosta, e claro, com um pouco de loucura! hehehe Parabéns!