Rio-Chuí - 2º dia
(Postado em 06/03/08, às 11:21.)Muriqui — Paraty (162,85 Km)
Domingo, 06 de janeiro de 2008
Ninguém quer incomodar tios hospitaleiros que abrigam ciclistas em trânsito, não é verdade? O correto, portanto, seria acordarmos bem cedo e, em absoluto silêncio e sem café-da-manhã, darmos rapidamente no pé. E foi o que fizemos, exceto pelo silêncio, pelo cedo e pelo rapidamente.
O desjejum foi consumado na padaria da praça. Foi lá que (re)conhecemos o Ricardo, ciclista experiente de Niterói, com quem conversamos e tiramos fotos.

Começo de dia (Fabricio em sua melhor pose Buda)
Começou o pedal do dia, e de cara uma subida inclinadíssima para chegarmos de volta à Rio-Santos, que já nos foi recebendo, para espantar o sono, com mais um simpático aclive, um túnel escuro e uns desbarrancamentos. Não houve problemas.
A estrada ia muito sinuosa e muito bonita quando passamos por um desses caninhos, espetados no morro, que ficam jorrando água. Àquela altura, já queríamos abastecer as garrafinhas, por isso paramos e o miramos, em tentação. Após breve reflexão, porém, decidimos não arriscar nossos pâncreas. Já estávamos recomeçando a pedalar quando ouvimos um “pode beber, pode beber, é água boa”. Ah, é? Fabricio não pensou duas vezes, bebeu da água. Fininho também. Eu… bem… digamos que não estivesse com tanta sede assim. “A água é boa, eu já tomei até banho nela e não aconteceu nada“, insistia o sujeito. Agora vejam vocês o naipe do cidadão.

Sr. Valdeci (profissão: foragido)
Pois sim. O ambientalista em questão, sumidade em fontes naturais e lençóis freáticos, era nada mais nada menos que o assassino confesso de sua mulher e do amante dela, pegos os dois em plena pilhagem de sua honra viril. Confessou-nos, sorriso no rosto, que matara os dois safados na cama e então fugira. O detalhe sórdido é que o crime teria acontecido no Rio Grande do Norte, e o lunático já estava a mais de meio caminho de seu objetivo, o Rio Grande do Sul. A pé.

Fabricio feliz com seu guru e com sua certificadíssima água
Despedimo-nos do corno fujão, que pediu, de forma sempre muito confusa e barbuda, que não contássemos para ninguém. (Perdoe-me, Sr. Valdeci, é que não resisti. Mas não se preocupe: quase ninguém vai ler esta história, mesmo! E, se não for pedir muito, evite descarregar sua escopeta na minha pessoa!)
Com mais algumas horas de pedal, eu já podia sentir minha forma voltando e começava a fazer jus ao apelido de Coelho que me tascaram. É que vinha pedalando não apenas depressa, com tempo de parar no alto das subidas para ler e mandar mensagens de texto pelo celular, mas também com pressa, sempre fazendo contas envolvendo velocidade média, distâncias e hora do pôr-do-sol. “Vambora, tá tarde, vai escurecer!” acabou virando meio que um mantra.
Aí nego inventava de parar pra tomar caldo de cana, pra bater papo, pra contar capítulo de novela, pra contar ao transeunte que estávamos indo pro Uruguai, pra catar piolho, espremer espinha… e por água abaixo iam nosso ritmo e minhas contas. Sobretudo depois da enorme e habitual pausa para o almoço — e do enorme e habitual prato que eu rebatia –, o coelho virava bicho-preguiça.
Ia eu em plena maré alcalina pós-rango, curtindo um baita de um preguição, quando fomos ultrapassados por um ciclista numa speed que não era de se jogar fora. Bastou para o Coelho reaparecer. Fui atrás do cara e passamos a pedalar juntos em bom ritmo. Meus dois companheiros, achando graça na metamorfose, deixaram-se ficar para trás. Ao mesmo tempo, uma chuvarada começou a vir de cima, de baixo e de todos os lados, tanta era a água. Acabamos aliviando o ritmo, eu e o cara, e ficamos pedalando lado-a-lado e batendo papo até o momento em que ele pegou um retorno. Rodnei era seu nome. Treinava sempre por ali, no sol ou na chuva. Mas não podia ser um sujeito lá muito sério. Cadê o capacete, Rodnei meu filho?
De outros acontecimentos dignos de nota, houve o trecho em que pudemos avistar, da estrada, as usinas da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, também conhecidas como Angra I, II e III. Houve também uma parada demoradíssima para comer pastel, que colaborou, evidentemente, para que chegássemos a Paraty sob os últimos raios de sol. Pura emoção! Para que tornar as coisas mais fáceis (e seguras), afinal?

Fininho e eu, num “pastel break”
Brincadeiras à parte, o fato é que deu tudo certo, nesse segundo dia, e chegamos, mais salvos do que sãos, a nosso destino. Hospedamo-nos numa espelunca, daquelas irremediáveis, depois saímos para uma despretensiosa volta pela cidade.
Depois da caminhada pelo Centro Histórico, as barrigas reclamaram atenção. Paramos num restaurantezinho de beira-de-rua e, enquanto esperávamos a janta, que, aliás, demorou séculos, conhecemos o sujeito mais interessante de toda Paraty, quiçá do Brasil. Trata-se do mais rico, culto e inteligente habitante daquelas terras, além do mais destemido navegador daquelas águas (Amyr Klink fica com a medalha de prata); e, como não podia deixar de ser, é marido da mulher mais bela e fogosa (sic) do Estado do Rio de Janeiro, quiçá do planeta Terra. Tudo isso ficamos sabendo, evidentemente, da boca do próprio, em poucos minutos. Pudemos congratulá-lo, também, pela autoria de algumas frases de efeito (na opinião do autor). “A vida é muito curta para se beber um mau vinho; é muito curta para se fumar cigarro Derby’s; a vida é muito curta para se casar com mulher feia; é curta para… (segue longa lista com negações de prazeres fáceis).” Mas a vida é curta, mesmo, e é por isso que estávamos ali.
É claro que nosso amigo não quis saber da nossa história de pedalar até o Uruguai; tinha muito de que jactar-se. O que foi bom, pois nos divertimos à beça com a falastrice. A janta, que afinal chegou, estava uma delícia, sobretudo para a fome de um dia daqueles; saboreei cada grão de arroz como se fosse o último grão de arroz do planeta. Por fim, despedimo-nos do inglório personagem, tirando sempre muitas fotos para eternizar todos aqueles momentos.
Das sonoras frases de caminhão do fanfarrão incompreendido, houve uma da qual gostei bastante: “Sabe o que a gente leva da vida? A vida que a gente leva.” Boa para um epitáfio. Pois muito bem. O dia seguinte seria uma segunda-feira, e, enquanto muitos estariam sentindo, naquele momento, aquela típica depressão pós-Fantástico, nós não estávamos nem aí.
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March 6th, 2008 at 7:02 pm
Te tenho orgulho!!!
Parabéns por mais esse lindo texto!
Quanta aventura! E ‘estamos’ apenas no 2º dia…
March 7th, 2008 at 9:51 am
hehehe Sr. Pernito tem que ser umas três paginas,
até tirei o fone do gancho pra ler mais tranquila
E sacanagem com o Sr. justiceiro, fora da lei deu nome e
ainda revela pra onde ele ta indo ai ai ai
Que venha o terceiro dia
March 8th, 2008 at 1:49 pm
Capítulo 2 (ou 3) visto!
Bora com o resto que já vai escurecer!
March 10th, 2008 at 1:13 pm
Voltei aqui para ver as fotos, agora que conheço melhor…
Que viagem boa!!!
March 12th, 2008 at 1:01 pm
Olha só se vc não mandar o terceiro dia, vou contar pro seu Valdecir
que vc soltou a historia dele [:p] hehehehe
March 12th, 2008 at 1:37 pm
FALA MEU AMIGO VINICÍUS o cara da vo2 te ligou???
March 12th, 2008 at 2:31 pm
Ligou.
March 12th, 2008 at 9:16 pm
Caros:
Segunda 10/03 pernoitei no Cassino, desta vez à trabalho, pude rever todo o trajeto.
A escolha de não seguir adiante no dia que dormimos na Igreja foi a melhor mesmo. Seríam mais 15 Km até a Quinta e mais 38 Km em estrada muito escura até Cassino.
Deixei um abraço ao borracheiro que nos ajudou e não encontrei o Pastor Rodrigo para agradecer nóvamente (os únicos que nos atenderam naquele local).
Ventava mais forte ainda do que naquele dia. “A ponte”.
March 13th, 2008 at 4:08 pm
Ou, como diria Fininho: Cassino de ****** é ******.
March 13th, 2008 at 5:09 pm
Haaaahahahahaaaaaaaaaaaaa!
March 13th, 2008 at 7:28 pm
é isso aí poxa bateu saudades daqueles dias heheh valeu seus pamonhas
March 19th, 2008 at 9:19 am
Vi, filho querido….
Não sabe como fiquei feliz (e até emocionado) com o relato do cano de água à beira da Rio Santos…é que parei muitas vezes lá para beber e molhar o rosto (para espantar o sono)…nas idas e vindas para lecionar no Colégio Naval…lembra?
Que venha o terceiro dia…
April 7th, 2008 at 4:54 pm
Enquanto espero pelo terceiro dia, ja li todas as outras aventuras.
O que me resta senão esperar!? :/
abraço
April 24th, 2008 at 1:13 pm
Até parece que alguém iria perder a oportunidade de alguma “roda”? hehehe
E afinal, a água era “boa” ou n era hein Fabricio? hahaha