Rio-Resende
(Postado em 27/05/08, às 22:08.)Seria, pois, o último feriado do ano, pelo menos para efeitos práticos. Não se pode deixar passar o último feriado do ano sem um bom pedal.
Há um amigo meu, de nome Rodrigo, ou João, ou Marcelo, que começou a pedalar há três semanas. Seguindo o lema “se é pra fazer, é pra fazer direito”, comprou uma speedzinha Trek que é uma beleza, devorou cada grão de informação ciclística que lhe caiu nas mãos e pôs-se a treinar, sem tempo ruim. Prova disso é que não rebarbou em ocasião alguma que eu o tenha convidado para um rolê. Por rolê entendam-se estirões de 40 Km no meio de trânsito pesado e subidas como Corcovado, Sumaré, Joá e Mesa do Imperador, inclusive debaixo de chuva. É verdade que o doido já corria e nadava, passando longe do sedentarismo; mas pedalar, que é bom, nada.
O estalo para comprar toda a indispensável cicloparafernália e começar a ser feliz veio da prova de triatlo de que eu participaria. Seria minha primeira prova desse tipo, apenas uma despretensiosa curtição, mas a perspectiva de ter um amigo triatleta — sem sê-lo também! — era inadmissível para o pilhabilíssimo André: inscreveu-se para a prova antes de mim, sem nem ter comprado ainda a bicicleta.
Bem, o triatlo acabou de fato acontecendo e, embora nossos tempos no ciclismo não tenham acompanhado a quase absoluta igualdade que experimentamos na natação e na corrida, deu pra sentir que, sobre as duas rodas, meu amigo tinha talento. E estava levando a sério.
Resolvi testar aquela empolgação toda.
– E aí, vambora pedalar até Itatiaia no feriadão?
– [Sem pestanejar] Bora, pô!
Ele estava falando sério, iria mesmo comigo.
A idéia de pedalar os 175 Km do Rio de Janeiro até Itatiaia secundou, na verdade, a combinação de repetirmos a expedição à base das Agulhas Negras que realizamos, em agosto passado, eu e amigos muito queridos do fórum do Pedal.com.br. O ponto de partida seria novamente a Garganta do Registro, na divisa Rio-Minas, distante de Itatiaia apenas uns poucos quilômetros. A data seria a sexta-feira 23/05, dia enforcado, naturalmente, por espremer-se entre uma quinta feriada (Corpus Christi) e um sábado. Para não ficar em casa criando limo, nada mais justo do que aproveitar a própria quinta-feira para ir pedalando até lá. Só não acreditava que o calouro Gilberto fosse mesmo comigo.
Fato número um: eu iria de mountain bike, pois precisaria dela para a trilha de sexta-feira; o Henrique, ao contrário, iria em sua speed Trek raivosa. Dois: eu carregaria bagagem para passar quatro dias longe de casa, fora pneus cravudos para substituir, na trilha, os slick que usaria no asfalto; já o Leôncio iria leve como uma pluma, pois retornaria de ônibus no mesmo dia. Fato três: havia séculos que eu não andava de mountain bike, ao passo que o Anacleto… isso mesmo, leitor profético, não precisa muito dom divino para adivinhar que estou apenas apresentando todas as possíveis desculpas esfarrapadas para justificar que… comi poeira.
Ou quase isso. Mas bem quase. O cara está pedalando muito. E já nem cai mais por causa do clip. Juro que eu teria ido mais devagar, em vários trechos, se não fosse por tê-lo puxando o ritmo, à frente. E, no finalzinho da subida das Araras, eu sobrei mesmo, miseravelmente.
Mas vamos à história. Depois de todo o preparativo, na quarta-feira à noite, que envolveu a troca de pneus e a adaptação de um bagageiro à base de alicate e força bruta para caber na mountain bike, dormimos umas poucas horas e partimos.
Caminhos alternativos — que, por ser feriado, estavam bem tranqüilos — abreviaram nossa distância à Rodovia Presidente Dutra por entre bairros de baixa renda e de humor inversamente proporcional ao PIB. Foi quando ouvimos um sujeito gritar, na calçada, para uma senhoura passante: “Ô bolota murcha! Bo-lo-ta muuur-chaaa!” O jeito com que cada uma das sílabas foi pronunciada foi tão pitoresco, tão engraçado, algo assim meio cantado, meio vendedor-de-sorvete-na-praia, sabe?, que não saiu de nossas cabeças. Durante toda a viagem, para quebrar o silêncio, berrávamos, naquela mesma melodia: “Ô bolota murcha!” O outro respondia: “Bo-lo-ta muuur-chaaa!”
Nada disso pôde, no entanto, distrair-me do cansaço que a bicicleta me impunha. Houve momentos em que a sensação era a de estar pedalando um armário embutido. Tanto que, nas duas vezes em que paramos à beira da estrada para comer, cheguei a me deitar no chão para dar uma recuperada. E o Bolota Murcha lá, firme e forte.

O Bolota Murcha, 5 minutos antes do primeiro pneu furado de sua vida

Meu armário embutido e o rio Guandu
Mas os quilômetros foram passando e, quando vimos, já tínhamos mais de cento e cinqüenta deles no Cat-Eye. Estávamos quase chegando. Num posto de gasolina, porém, fomos informados de que não haveria ônibus de Itatiaia para o Rio; era, portanto, mais recomendável que parássemos 13 Km antes de Itatiaia, em Resende, onde meu amigo Leocádio encontraria ônibus que o levasse de volta para casa. Além disso, estava já escurecendo; era bom que parássemos, mesmo.
Ainda houve um trechinho de estrada sem acostamento, devido a obras, em que meu perigômetro experiente acusou nível 8 (nível 10 é descer montanha abaixo de speed numa estrada de terra — e sem freios). Esperamos o melhor momento para agredirmos a pista (era um trecho bem curto, uns quatrocentos ou quinhentos metros sobre uma ponte) e pedalamos com tudo. Sobrevivemos, e foi divertido. Por uns instantes, todo o meu cansaço tinha desaparecido.

Trechinho complicado da estrada, já quase em Resende
Em Resende, encontramos hotel sem grandes problemas. Problemas tivemos na hora de fazer o check in. Eu, apressadíssimo em ir logo para o quarto e ficar uns minutos na posição horizontal, fui logo preenchendo a ficha com meus dados. Faltaram os dados do meu amigo. (Pois sim, acabou que o Fúlpito Epaminondas resolveu ficar, também, e pegar o ônibus do regresso apenas na manhã seguinte, com a idéia de ir pedalando da rodoviária direto para o trabalho.) O recepcionista, com a caneta na mão, perguntou seu nome, bastava o primeiro nome. Meu amigo disse o nome, pausadamente, acostumado com esse tipo de situação. “Quê?!”, fez o homem, com expressão de não-entendi-nada. Meu amigo repetiu. “Hein!? Sono!?”, duvidou o perguntador. Meu amigo tentou então a velha dica: “Escuta, é igual a Rômulo, só que com S.” Não deu certo. Soletrou. Nem assim. Aí eu entrei. “Olha aqui, meu querido, o nome dele é Sômulo, SÔ-MU-LO, mas pode chamar de Fernando, ou de José, como o senhor quiser, o que importa é que eu preciso muito da chave desse quarto!” Fora de brincadeira, eu é que já estava chamando Jesus de Genésio; fazia tempo que não me cansava assim.
Mais tarde, saímos, ainda, para comer num restaurante italiano pseudo-chique, muito mais pseudo do que chique. Mas a comida estava muito boa, sem pseudo, e a fome era de leão. Final feliz para a primeira viagem de bicicleta do incansável Sômulo (sim, esse é o nome real da figura). Brincadeiras à parte (aposto que vai deixar um recado engraçadinho, né, ô Murcha?…), não esqueçam este nome e seu dono: você certamente ainda será ultrapassado por ele.
PS.: Ah! Não era bem “bolota”… isso foi o mais próximo que fui capaz de narrar. Sorry.
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May 28th, 2008 at 7:44 am
Bolota? Lorota? Cocota? Pororoca? Patota? Lajota? Borboceta e passaralho? hahahaha… Sômulo e sua sister, Semolina, saíram sambando solidariamente sem se sacanearem…
Afe, quanta b*sta!!! Viu, fio, anda logo com esse relato, e empacota as fotos que vc tirou que eu também quero ver!!! E temos que mandar pro guri de Itamonte, né… Vou mandar uma impressa, se bobear!
May 28th, 2008 at 8:16 am
HEHEHE gostei do “perigômetro”!!!
Abraço.
May 28th, 2008 at 8:29 am
Libero as fotos hoje à noite, Alê, sem falta! E vem vindo um “Agulhas Negras 2″…
Valeu, Zaka!
Abraços.
May 28th, 2008 at 10:48 am
Ah, deixem disso. O nome dele é mais fácil de soletrar que o meu!!!
Fantoche, Santoxi???
E o Fabrício? Sobrou de vez e abandonou a patotada??
May 28th, 2008 at 10:48 am
Bolota? Olha, para quem tem imaginação basta rimar “bolota” com uma conhecida parte da anatomia feminina, trocando as letras “b” por “x”. Pronto? Tá bom assim? Mais que isso, só escrevendo a palavra inteira… aliás, a história é muito mais engraçada sabendo a palavra correta!
May 28th, 2008 at 10:52 am
Pedalando dentro de um armário embutido foi o máximo!
Triathlon Vinícius?
Vou repetir ou já te falei umas três vezes: Ainda vou ver você cruzar a linha de chegada de um Ironman!
Abração!!!
May 28th, 2008 at 7:49 pm
Vinicius…
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A noite chegou!!!
May 28th, 2008 at 9:10 pm
…e as fotos já estão lá, ô murcha!
http://www.flickr.com/photos/cronicasdebicicleta/sets/72157605311758941/
:-)))
May 29th, 2008 at 2:12 pm
DSCF4154: Edinho fazendo cara de bolota flácida!
June 2nd, 2008 at 5:23 pm
“…Eu, apressadíssimo em ir logo para o quarto e ficar uns minutos na posição horizontal…”
Deixando claro q o Vinícius estava se referindo exclusivamente a atividade bíblica e literal de **dormir**.
Pô, foi isso q vc quis dizer, né, ô xo… digo, bolota? =o)
P.s.: eita recadinho infame.
Rômulo, só que com S.
June 2nd, 2008 at 5:27 pm
O mais engraçado é q a listagem dos nomes segue uma crescente de (hã, digamos…) “excentricidade”; começa com nomes bíblicos, comuns, e vai complicando, complicando, até chegar em Sômulo….
UhauhUhauhUhauhuHuahuhauaha….
=o)
Lista de nomes:
Rodrigo
João
Marcelo
André
Gilberto
Henrique
Leôncio
Anacleto
Leocádio
Fúlpito Epaminondas
SÔMULO !!!!!!!
June 13th, 2008 at 8:20 pm
Sômulo… o cara mais pilhável de todos os tempos…