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Rio-Teresópolis-Friburgo-Rio

(Postado em 16/07/07, às 20:10.)

Quem viaja de bicicleta quer descomplicar a vida, certo? Pois muito bem. Foi o cúmulo do minimalismo, dessa vez: nem mochila levei. Para não dizer que fui só com a bicicleta e com a roupa do corpo, carreguei também aquilo que os bolsos da malha de ciclismo podiam comportar: um casaco, uma camisa dry fit, uma sunga de banho, um gorro, um saco plástico à guisa de carteira — contendo documentos, algum dinheiro e cartão –, a chave de casa, o celular, umas barrinhas de cereal e o estojinho das lentes de contato já com soro dentro. No fim, usei exatamente tudo que levei e não senti falta de nada. Bom feeling.

Não estou treinando para faquir nem nada do gênero. Esse desapego franciscano é apenas em nome da simplicidade e da leveza do corpo e da alma. Ora, se a bicicleta nos dá uma liberdade de ir e vir que outros veículos não sonhariam, para que complicar tudo, desvirtuando o conceito? Meses esperando férias que não chegam, semanas planejando a rota, telefonemas e e-mails procurando formar um grupo e dias comprimindo quilos de bagagem inútil. Esqueça. Deixe um bilhete com recomendações gerais para o caso de óbito, lembranças para todos e pronto, adeus, é só partir.

Decidi na quinta à noite e saí no sábado antes do nascer do sol. Como ninguém quis ou pôde ir junto, as estradas desse fim-de-semana foram algo solitárias. O que também é bom, bom demais até.

Do Rio a Teresópolis fiz o caminho de sempre. Foram duas horas e meia pedalando a 32,5 Km/h de média, da Glória até a base da serra.


Começo da subida, em Guapimirim

Então comecei o contra-relógio ladeira acima, mas me sentia estranhamente pesado e sem ritmo. Só lá no topo é que entendi: tinha subido a serra com um furinho no pneu traseiro que deixava sua pressão ridiculamente baixa. A descoberta do furo foi, por um lado, benvinda, justificando o fato de eu ter baixado em apenas uns míseros segundos meu melhor tempo, obtido há quase um ano; por outro, comprometeu totalmente a avaliação de meu desempenho real, sobre o qual eu estava — e permaneço — muito curioso. Droga.

Não custei a lembrar, no entanto, que a idéia era viajar relaxada e descompromissadamente. Sendo assim, e se preocupações de caráter planejativo não me tinham causado qualquer dispêndio de energia, considerações cronométricas também não mudariam em nada meu humor ou estado de espírito. A vista estava fantástica, isso é o que importava — e eu tinha uma câmera fotográfica presa ao guidom!


Fim da subida, no Soberbo

Em Teresópolis, fiquei no apartamento do meu pai. “Aaaahh, assim é mole.” Sim, sim, mas a viagem não acabou ali. E apenas aceitei o conjunto de moletom que ele me ofereceu porque não me sentiria muito bem de sunga-de-banho na frente de minha madrasta. Mesmo assim, passei a maior parte do tempo com o bretele de ciclismo e meu próprio casaco, sem problema algum.

Cheguei a tempo de assistir à sétima etapa do Tour de France. Depois, fui até uma bicicletaria da região para comprar uma câmara de ar, já que gosto de andar sempre com duas de reserva e tinha acabado de usar uma.

Por se tratar de crônica supostamente ciclística, não vou dar detalhes do ótimo dia que passei ao lado de meu querido pai. Resumo rápido: vimos esporte na TV. Não demos sorte no jogo do Fogão (primeira derrota no Brasileiro, e logo para quem…), mas à noite o vôlei feminino deu show no Pan e botou o Peru no saco.


Botafoguenses felizes e orgulhosos apesar da derrota

No domingo de manhã, saí cedo e peguei a estrada Teresópolis-Friburgo.


Começando o segundo dia

Tinha calculado chegar lá a tempo de assistir, desde o começo, à cobertura da oitava etapa do Tour. O que não tinha entrado nos meus planos era o sobe-e-desce sem fim da Terê-Fri. Como as duas cidades ficam mais ou menos à mesma altitude, tinha imaginado uns 400 a 500 metros de subida acumulada (já levando em conta que meu deslocamento se daria todo no meio de morros). Tolinho. Foram quase 1300 (!), mais do que na véspera. Minha média foi, portanto, abaixo da esperada e perdi o começo da etapa. Mas não perdi o Mayo chegando em segundo ou a facilidade do Alejandro Valverde em deixar para trás todo mundo de seu grupeto para obter o terceiro lugar com sua Pinarello. Está ficando bom…


Bem a tempo de ver a vitória do Frango Rasmussen

Alojei-me, em Friburgo, no hotel a que meus pais costumavam levar a mim e a minhas irmãs, quando crianças. Poderia ter ficado em qualquer lugar, é verdade (minha única exigência era TV a cabo para assistir ao Tour); mas quis ficar naquele para matar as saudades. (Ou para ter, na verdade, saudades daqueles tempos…) O único problema é que o hotel fica numa subida muito cascuda de paralelepípedos à Flandres. A roda da frente chegou a empinar, num descuido meu. Mas consegui pedalar até o fim, para incredulidade da recepcionista.


Subidinhas punks

À tarde, fui ao centro de Nova Friburgo comer decentemente e tirar fotos. Até andei de teleférico. Depois, de sunga, camisa laranja e lençóis enrolados nas pernas à moda farisaico-mesopotâmica, vi o Brasil dar aquele chocolate na Argentina. Não tinha como ser melhor.

Na segunda-feira, acordei bem cedo, vesti o gorro sob o capacete para não congelar as idéias na descida, tomei o café-da-manhã, paguei o hotel e pedalei os 130 Km — 20 dos quais serra abaixo, num desnível de 1000 metros — até meu trabalho. Para começar bem a semana.

DSCF9492 DSCF9487
GPS marcando certinho a altura (erro menor que 1%)

E assim foi minha viagem: muito simples, muito perfeita. O melhor, evidentemente, esteve nos deslocamentos e não nos destinos. As estradas da região serrana do Rio são lindas e, ciclisticamente falando, excelentes. Você treina enquanto se diverte. Ouvindo Metallica antigo no MP3, então, é melhor ainda.


Foto engraçadinha na volta

Veja também:
– o mapa e os números da viagem;
– o álbum de fotos completo.


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16 comentários em “Rio-Teresópolis-Friburgo-Rio”

  1. Ilydio diz:

    Faça sempre isso, filho….e passando por Terê para ficar um pouco comigo. Foi Show.

    Beijão

  2. Bárbara diz:

    Que legal, Vinícius! Adorei a aventura. Parabéns pela disposição.
    Vou mostrar pro Christian.
    Beijão.

  3. herval diz:

    coube essa bagagem toda num bolso nas costas?? putz… :-P

  4. Alessandro diz:

    Metallica… Bão, bããão… Mas do álbum preto pra trás, né? De preferência o Justice inteirinho. Eye of the beholder :)…

  5. vigusmao diz:

    Herval: três bolsos. :-)

    Alessandro: Levei o Master of Puppets e o Garage Days. Bãããão.

  6. Tuninho diz:

    Vinicius,
    Já sou seu fã !!!
    Espero estar fazendo uma dessas tb até o fim do ano.
    Vou comprar uma speed e cobrar de voçe o convite de abre alas - como foi p/ vç. no MTB.

  7. Alexandre diz:

    Fala Vinícius muito maneiro, um grande abraço.

  8. Alexandre diz:

    Ah, esqueci, com metallica é show!!!!!!!

  9. Baiano diz:

    Tomou banho? hahahaha

    Show de pedal! Só faltou a kilometragem para quem (ainda) não conhece a região rs Agora vem cá, que horas vc chegou no trabalho na segunda? ahahahha

  10. vigusmao diz:

    Fala, pessoal. Obrigado, todo mundo, pelos comentários.

    Baiano véio, a quilometragem está lá sim, ô zé. Tem um link no final para os “mapas e números da viagem” :-) http://www.cronicasdebicicleta.com/rio-tere-fri-rio-info (PS.: Tomei banho, sim… hehehe)

  11. Augusto diz:

    fala ae cara….gostei muito desse site q vc fez!!
    maneira suas aventuras….
    Quando eu tiver mais tempo e mais dindin, pretendo
    fazer umas viajens dessas…
    vlw cara…

  12. Cida diz:

    Vinícius,

    Toda a sua aventura é muito envolvente; enche de saúde quem toma conhecimento dela.
    Mas sabe o que mais me encantou? O seu texto. Todos os seus textos. Pedalar tanto e escrever tão deliciosamente não é uma combinação que tenha visitado muitas vezes o meu olhar.
    Parabéns, garoto! Que belo o acaso que me fez parar por aqui. E nem tenho bibicleta…

  13. Lino diz:

    Vi, achei o máximo, tavez um dia quem saiba suba a Terê contigo;
    E se quiser na próxima pode parar lá em casa tbm;Lino

  14. Luciana diz:

    Ah, fala, vai, que o melhor foi, sim, matar ou ter saudades do Mirador, Schumacher, Praça do Suspiro, LaBamba, Papillon e do teleférico de Friburgo.
    Tá, eu sei, não dá pra competir com o Tour de France. Nem com pedalar. Ok, ok…

  15. Gilson diz:

    @MO MUITO ESS@ TERRINH@ FRIBURGO TERESÒLIS;

  16. Marc!!! diz:

    Vinicius! Estou tentando falar com vc para marcarmos umas pedaladas!

    me liga

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