Macaé
(Postado em 26/03/09, às 19:36.)Tudo bem, admito, tenho medo do mar. Desde sempre. Não medo-pavor, que é o do Bicho Papão, nem medo-repulsa, que é o da barata, tampouco medo-fobia, que é o de falar em público, medos esses que não tenho. É medo-respeito, aquele que se tem pelo adversário mais forte. A mim parece que Netuno não gosta de brincadeiras, então tento não irritá-lo.
Mais recente e preocupante é essa espécie de medo da água. Sim, porque já aconteceu na piscina, também. É algo estranho que tenho, às vezes, nos minutos iniciais de uma natação forte. Está tudo muito bem, quando, de repente, a boca seca, o coração dispara, a barriga gela, o ar falta, a morte é iminente, adeus mundo cruel. Preciso sair correndo, de onde quer que esteja, e para qualquer lugar, desde que em terra firme. Mas é claro que correndo não posso sair, e também não quero de jeito nenhum abandonar o treino ou a competição, então fico paralizado no meio da água, lutando por reaver o controle. Difícil explicar. É uma espécie de terror súbito, algo tão estranho quanto desagradável, que passa em vinte, trinta segundos. Os piores vinte, trinta segundos que se possa conceber, mas passa.
É pior no mar porque, imagino, o medo-respeito amplifica tudo. A sensação do pânico se instalando — aquele desconforto repentino explodindo em crise de ansiedade, ou o que quer que seja — é terrível por si só, mais do que as causas dos medos que supostamente a deflagrem. O que sei é que no mar é pior. Quanto mais turbulento, frio e escuro, pior. Acho que não é medo do mar. É medo do vazio. Nadando no mar, olhando para o fundo escuro do mar, sinto-me tomado pelo vazio imenso e total. Deve ser isso.
A travessia de 2500 metros do Fest Verão de Macaé seria precedida por uma mini-travessia de 600 metros, da qual participaria o mais novo nadador do Fura Onda Team, o Bunda.
Bunda e eu saímos do Rio no sábado, véspera da prova, e, acompanhados por nosso amigo Mario, vulgo Grande Pássaro, colocamos nossas bicicletas na barca das 6h00 para atravessarmos a Baía de Guanabara. De Niterói a Macaé foram 180 Km em pouco menos de 6 horas de pedal, que fizemos sem grandes dificuldades. Foi a estréia de minha recém-comprada Pinarello FP5, que foi aprovada com louvor no teste de distância longa. Destaque também seja dado para a água-de-coco que tomamos em Casemiro de Abreu. Coco gelado, doce, infinito, espanta-Noel.
Em Macaé, almoçamos num pé-sujo e esperamos as outras aves (Marreco e Pelicano) e peixas (Ana e Amanda) para um passeio pela cidade. Pude também reencontrar meu amigo Fininho, um dos que fizeram o famigerado pedal até o Chuí, e que é morador de Macaé.

Marreco, Bunda, Pelicano e Araponga: é a Granja invadindo Macaé
Domingo de manhã. Não chegava a ser um princípio de tsunami o que havia na Praia dos Cavaleiros, mas o tamanho e o ímpeto das ondas deixavam o mar daquele jeito temível-respeitável. Sem falar da arraia que fora vista na tarde de sábado, saltitante e ameaçadora, singrando as águas.
Bunda, calouro, tinha motivos de sobra para pensar “o que estou fazendo aqui?”, como o fazíamos eu e tantos outros, mas o que aconteceu foi que ele desafiou a morte e entrou no mar. O que impressiona é ter saído de lá vivo, ileso, depois de completar o percurso. Além disso, para nosso mais absoluto espanto, conseguiu o terceiro melhor tempo em sua categoria, conquistando um honroso lugar no pódio.

Na cama com a bicicleta nova (tem louco pra tudo), e a medalha do Bunda
Chegou a hora da travessia principal. Os peixes da equipe Fura Onda se alinhavam, unidos, para encarar o mar revolto. A entrada no mar até que foi tranqüila. De frente para o perigo, não foi tão difícil furar as ondas. Quando vimos, já tínhamos vencido a arrebentação e nadávamos num mar esburacado mas sem grandes problemas.

Equipe Fura Onda unida na largada dos 2500 metros
Não demorei a perceber que meu amigo e algoz, o Marreco, tinha sumido da minha vista, o miserável. Não podia ser bom sinal. Sem referência, não havia escolha a não ser fazer o meu melhor. Foi o que fiz e, para minha surpresa e alívio, nadei sem qualquer sinal do tal medo inexplicável, sem qualquer problema.
Drama mesmo foi na hora de sair da água. No sprint final, de costas para o mar, nadando em linha reta para o pórtico de chegada, a areia cada vez mais próxima, pensando em nada, só em queimar as últimas reservas de energia para fazer o melhor tempo possível, e de repente… cai um piano em minha cabeça! A sensação foi bem essa! Sabe a bigorna caindo na cabeça do personagem do desenho animado? Exatamente. Foi o maior caixote da minha vida. Num segundo, eu nadava forte, respiração 2 por 1, mirando a Chegada; no segundo seguinte, eu estava debaixo d’água, liquidificando loucamente, como numa máquina de lavar roupa, tocando a areia do fundo com o corpo moído. Saí do mar perdidinho, no melhor estilo “anotaram a placa do elefante?”… pra piorar, Marreco, aquele maldito, já tinha saído da água havia alguns minutos. Ah, nada como uma derrota acachapante!
Felizmente, o resto da equipe foi muito bem, e tivemos as costumeiras presenças femininas no pódio. E a viagem foi divertidíssima, isso que importa. Parabéns, Fura Onda, por mais essa eletrizante aventura!

Regiane e Ana Marreca Phelps no pódio
Sobre meu medo da água, acho que o problema está em meus óculos de natação, que têm a lente muito escura. Talvez seja só isso.

Na piscina do hotel, depois da prova
Epílogo
Em nome da verdade, é preciso que se registre o diálogo entre um pai e uma mãe que tinham levado a filhinha de dez anos para competir com os amiguinhos no mar.
– Vem cá, que diabos aquele galalau está fazendo ali com a gurizada?
– Ué, ele deve ser da organização.
– Organização?!? Olha os números pintados nele!
– Hmmm… é mesmo…
– Isso é uma covardia!
– Calma, benhêêê, o moço deve ter algum problema, deve ser especial…
– Tsc, especial my ass. Aposto que é um malandrão. Assim é mole chegar em primeiro lugar, mesmo com aquela bunda grande. Assim até eu!
Mais tarde.
– Benhê, olha lá o seu galalau, acho que ele tá indo receber uma medalha.
– É, viu só?, ele tava competindo mesmo, vê se pode.
– Ainda acho que ele é especial.
– Especial o meu traseiro, já falei. É um pilantra, isso sim.
– Ai, benhêêê, calma, pra que essa raiva do moço?
– Não tô com raiva. Mas que é o fim da picada, isso é!
– Tá bom… você tá certo… ficou feio, mesmo…
– Hahaha, e o pior é que não ficou em primeiro, não! Teve outros dois engraçadinhos da idade dele, olha lá! Tsc tsc tsc…

Fotos auto-explicativas (francamente!!!)
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March 26th, 2009 at 11:31 pm
UHauhauhuaha…
Ainda choro de rir quando ouço “galalau”…
Há muito tempo q não ouvia esse termo, e fui ouvir justamente em Macaé, no já citado diálogo relatado pelo Arapa…
O diálogo é real e dou fé!
Marreco – Compromisso com a verdade
March 28th, 2009 at 8:30 pm
Haaaaahahaha!
Em dezembro fiz uma travessia e tive exatamente esse diálogo com a Iara, pois havia uma categoria especial com paraatletas. Tinha um malandro no meio com maior jeitão de nadador…E o pior o cara foi de pé-de-pato.
Mas nesse caso o malandro calou minha boca, quando ele saiu da água percebi que éra um guia de um dos cego. Putz que vergonha!!!
Quanto a onda, tem que fazer como falamos, nadar “de vara curta” “a não ir”, por trás dela e por cima, ela vai te puxar mas não vai socar, ha é melhor explicar fazendo. Mas é tranquilo.
Fala pro Bunda que é assim mesmo, primeira travessia tem que ser curtinha, não tem nada de errado.
E o pão ou pirulito na prova de Triathlon?
March 29th, 2009 at 7:33 pm
Fala, Edu. Pô, ainda não rolou, mas vai rolar com certeza o algodão-doce espetado no clipe da bike!!!!!!!!!!!!
April 6th, 2009 at 5:37 pm
Filho….gostei mesmo da narrativa final, do galalau….rssss….genial. Fiquei preocupado com o “caixote” que você levou (e eu não sabia). Compre óculos novos… rssss. … já senti esse tipo de “paúra” em lugares muito altos. Claro que não senti no mar, pois não me atrevo a entrar nele mais do que a minha altura alcança…rsss.