Desafio 3000
(Postado em 12/06/09, às 14:59.)A idéia era percorrer todas as subidas do Rio de Janeiro em uma tacada só.
Saí de casa, no Humaitá, às 5h30, e pedalei até o tradicional posto de gasolina da Praça da Bandeira. Era ali que eu me encontraria com o Frango, o miserável loirinho de olhos azuis que sobe qualquer coisa sem fazer força enquanto todo mundo está morrendo. Antes mesmo de encontrá-lo, porém, inaugurei as ladeiras do dia subindo a Rua Alice para atravessar o túnel, um bom atalho entre Laranjeiras e Rio Comprido.
Saímos do posto, eu e Frango, às 6h15, e seguimos até a Barra da Tijuca, via serra Grajaú-Jacarepaguá. É uma serrinha pouco inclinada, dá um bom aquecimento. Na subida, vimos um cachorrinho ser atropelado por um carro, quando tentou atravessar a pista. Mas não morreu, apenas ficou manco, coitadinho. Parece que nenhuma roda passou por cima dele, devem ter acertado só uma das patinhas, porque ele entrou todo debaixo do carro. Vimos também, passando em sentido contrário, o Sasquati, um dos melhores ciclistas do Rio, bicampeão do GP Rota-116 na categoria Master A.
Na Barra, juntou-se a nós Pelicano, um imundo que, até bem pouco tempo, era um dos mais fracos da Granja, e agora é um dos mais fortes, graças a treino sério e consistente. Pelicano possui uma cabeça avantajada.
A próxima subida foi a do Alto da Boa Vista, que vencemos sem problemas. O nome oficial é Estrada de Furnas, a ligação entre a Barra da Tijuca e a Tijuca, bairros meio irmãos, separados por uma montanha. O topo da Estrada de Furnas é a confluência de caminhos para vários lugares da cidade. Pode-se descer para a Barra, voltando por onde viemos, ou para a Tijuca, seguindo a própria Estrada de Furnas para o outro lado. Pode-se entrar na Floresta da Tijuca, lugar de muitas cachoeiras e trilhas para os pontos culminantes da cidade. Pode-se subir até um ponto privilegiado de onde se vê o mar, via Estrada do Açude, que se transforma na Estrada da Paz. Pode-se descer para São Conrado, via Estrada das Canoas. Pode-se ir para o Jardim Botânico, via Estrada da Vista Chinesa. Pode-se subir ainda mais, via Estrada do Redentor, até as Paineiras, o Sumaré ou o Corcovado. Enfim, muitas opções. Nós escolhemos todas.
Primeiro, entramos na Floresta da Tijuca e percorremos quatro exatos quilômetros de subida até o Bom Retiro, onde o asfalto dá lugar às trilhas no meio do mato. Descemos, a seguir, pelo Açude da Solidão, que é o outro portão da Floresta. Dali, subimos a Estrada da Paz até seu final, o tal lugar de onde se vê o mar. Como não fazíamos muita questão de vê-lo, porque já tínhamos pedalado por toda a orla da Barra uma hora atrás, descemos imediatamente por onde viemos, e seguimos a Estrada do Açude até a Estrada de Furnas, onde paramos no velho e bom posto de gasolina do Alto.
Pelicano viajou com a Granja para a cidade sagrada de Aparecida, no começo do ano. E sofreu, aquela cabecinha. Não via a hora de aparecer logo a maldita capela (sic) numa curva da estrada. Quando a basílica enfim apareceu, ele era um trapo em forma de gente. Mas há tempos que vem dando mostras de uma evolução incrível. Ponto para ele e para seu treinador, o Coruja. O fato é que, de lá para cá, Pelicano emagreceu uns oitocentos quilos, conheceu — biblicamente, inclusive — a mulher-da-sua-vida-mãe-dos-seus-filhos e ficou vinte vezes mais forte. Tudo isso lhe fez muito bem. Se a cabeça pesasse um pouco menos, ia longe.
Ontem, Pelicano acabou comigo. Não ele. Na verdade, o Imundinho de Olho Azul acabou comigo, mantendo o tempo todo aquele ritmo apenas ligeiramente acima do ideal, apenas ligeiramente desconfortável, mas imensamente desaconselhável para quem ia, nas minhas condições, acumular em torno de 3000 metros de aclive no dia. Se eu estivesse sozinho com o Loirinho Miserável, teria seguido o velho truque de ir-me deixando ficar para trás, muito de leve, muito aos poucos, segurando sutilmente seus ímpetos em nome da sobrevivência. Mas o Cabeçudo, calouro, empolgado, resolveu que ia no ritmo do Mulambão do Cabelo Amarelo o tempo todo, então quem se ferrava era eu, porque, com a presença cabeçuda, a conclusão deixava de ser “Frango está forte, melhor diminuir” e passava a ser “Araponga está fraco, vamos cuspir na careca dele”. Maldito Cabeça.
Ali, no posto estratégico do Alto, fizemos nossa primeira reposição de nutrientes. Eu gostaria de repor também minhas pernas e pulmões, mas tive que me contentar com um Gatorade e umas barrinhas.
Tinha ainda muito chão pela frente, e eu achava que o Pelicano não ia durar tanto tempo assim. Aí começou a chover forte. Tínhamos acabado de descer a Estrada das Canoas, e passávamos pela bela Av. Niemeyer, que liga São Conrado ao Leblon, espremida entre o morro do Vidigal e o mar. Com aquela água toda, podia apostar que alguém pronunciaria a palavra “casa” sem muita demora. A dúvida era: quem? Pelicano, aproveitando o álibi para parar o treino antes que lhe parassem as pernas? Frango, em nome da segurança, ou em nome de não levar uma bronca da esposa por voltar para casa bem mais tarde do que devia? Eu, em nome da cama quentinha que me aguardava e evitando ser massacrado pelo Cabeça de Nós Todos, casa ele teimasse em não pifar?
Mas ninguém falou. O que foi dito, na verdade, foi “o pior já passou”. O que era uma mentira deslavada. Quando vimos, já estávamos atacando a Mesa do Imperador. A bem da verdade, sendo atacados por ela, a pior subida de todas. A inclinação, ali, não dá a menor trégua. Pelo menos a chuva deu uma aliviada, e já estávamos mesmo nos divertindo. Frango não sentia nada; quando muito, sono. Pelicano, esse ia cada vez mais alegre, cada vez mais arisco, parecia que tinha enfiado uma Duracell no… umbigo. E eu só olhando. Um olho nele, outro no monitor cardíaco. Não era possível que ele fosse assim até o fim.
Da Mesa do Imperador seguimos novamente, embora por caminho completamente diferente, até o Alto. Novo lanche no posto, dessa vez envolvendo capuccinos e hambúrgueres com uma pasta amarela duvidosa à guisa de queijo.
A subida seguinte foi a das Paineiras, até o ponto em que se precisa decidir entre seguir pela Estrada do Redentor ou subir ainda mais para o Sumaré, onde ficam as antenas de rádio e televisão. Fomos para o Sumaré. O outro caminho seria feito mais tarde, de qualquer maneira, no sentido contrário. Do topo do Sumaré, descemos 9 Km até Santa Teresa, um bairro agradável cortado por muitos trilhos de bonde e balas perdidas. Como nenhuma nos achou, pudemos subir a Estrada das Paineiras até o Mirante do Dona Marta, onde há o famoso heliporto, de onde partem os vôos panorâmicos pela cidade.
E Pelicano, nessa altura do campeonato? Ia bem. Tão bem que resolveu brincar com o perigo. Na subida do Dona Marta, mandou às favas completamente o respeito aos mais velhos — e mais fortes — e soltou um “vem, Araponga, vem…” enquanto apertava mafiosamente o ritmo. Aí foi minha vez de mandar algo às favas: a cautela. Além daquela, faltava apenas uma subida mais drástica: o Corcovado. Então, percebendo que chegaria vivo ao final, sprintei tão orgulhosamente que o Cabeçudo ficou até atordoado tentando anotar a placa do caminhão que o atropelou.
No Dona Marta, dividimos os restos de comida que trazíamos às costas e tiramos fotos. Depois foi o Corcovado. E aí houve, sim, o Massacre. Não que alguém tenha massacrado ao outro, embora o Frango, como era esperado, tenha chegado lá em cima uma meia hora na frente. Quem nos massacrou a todos foi a montanha, porque pegar 15% de inclinação depois de 2500 metros de aclive acumulado dói um pouco em nós mortais. Meu tempo no Corcovado foi de 13:21, exatos três minutos acima de meu recorde pessoal. Estava ótimo, para a situção. Pelicano chegou poucos segundos depois, e está absolutamente de parabéns, o miserável. Quem o visse seis meses atrás!
Na vendinha para turistas, aos pés do Cristo, fizemos mais umas fotos e conversamos com um sujeito do Texas, que se interessou pelas bicicletas. Ele parecia entender um pouco, falou coisas que faziam sentido e nos elogiou por termos subido o Corcovado inteiro até ali. Resisti e não contei o resto da história. Foi melhor olhar para os outros dois com um sorriso. Estava feito.
A volta para casa foi tranqüila. Depois de descermos pela Estrada do Redentor até o topo da Estrada de Furnas, Pelica seguiu para a Barra; Frango e Arapa, para a Tijuca. Despedimo-nos no mesmo posto BR do começo do dia. Frango estava em casa. Eu tinha ainda 13 Km planos pela frente, e, sem eles, e doido para chegar, essa foi seguramente a parte mais difícil do dia.
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July 24th, 2009 at 4:41 pm
Eita! Quantos Km foram pedalados nesse dia ?
July 27th, 2009 at 1:46 pm
Oi, Ramon. Foram 150 Km. Abraço!
April 6th, 2010 at 12:21 pm
Qual o tipo de bicicleta que vcs usam nesses percursos??? E a prática costante do ciclismo acarreta algum problema no homem???
Obrigado!!!
April 6th, 2010 at 6:42 pm
Oi, Fabiano. Usamos bicicletas normais de estrada (speed). O ciclismo não acarreta problema algum, tanto quanto eu saiba. Abraço.