Migração a Aparecida
(Postado em 30/01/09, às 15:12.)Pelicano e Araponga se encontraram, na sexta-feira à noite, e se dirigiram com pressa para o apartamento da segunda ave. Precisavam preparar as bicicletas para mais uma aventura. Depois de algumas tentativas frustradas de tocar “Mood For a Day” no violão, as duas aves conferiram bagagens e bagageiros e dormiram algumas ansiosas horas. Pelicano nunca tinha feito muito mais que uma única centena de quilômetros em um dia, e nos dois seguintes faria três. A ansiedade de Araponga era a da criança em véspera de Natal, que uma viagem de bicicleta tem dessa magia.
Primeiro dia
O despertador arrancou-lhes da cama, um, e do sofá, o outro, às 3h45. Comida nova que entra, comida velha que sai, pneus conferidos, últimos acertos, foi dada a partida, no breu da madrugada. Logo tinham percorrido os 15 Km que os separavam das outras aves migratórias. O ponto de encontro era o famigerado Posto BR da Praça da Bandeira.
O bando compreendia, desta vez, os seguintes membros: Codorna, vulgo Cocodorna, mestre dos desempenos de roda e dos tombos em chãos infectos; Urubutre, vulgo Urubunda, mais vulgo ainda Bunda, médium incorporador do sem-queixo Noel Rosa no final de cada treino; Pato, moleque bonito, tão descansado que sai para uma viagem de 300 Km sem um único documento pessoal; Frango, mentor do grupo e chefe de todos os mulambos, “um dos” mais talentosos da Granja; Pelicano, ex-fuzileiro, sujeito cheio de recursos, moderno senhor de todos os sortilégios; e, finalmente, Araponga, este que vos escreve.
A chuva tem o poder de deixar tudo molhado, mas só. Mulambo que é mulambo nem liga. Frango puxou o grupo, debaixo d’água, por alguns trechos infernais da Av. Brasil e da Via Dutra. A água só deu uma trégua quando as condições da estrada também já melhoravam, deixando para trás o asfalto castigado e os acessos tristonhos a bairros vermelhos e cinzas, e dando vez a acostamentos melhor pavimentados e a paisagens mais limpas e verdejantes. Araponga precisava defecar.
Mas Araponga não defecou. No tão esperado posto de Belvedere, não se sabe se a vontade passou por alguma idiossincrasia orgânica, ou se as condições do banheiro eram por demais desestimulantes que o corpo da ave se resignou ao fardo extra. E por falar em lastro desnecessário, Arapa passou a carregar, além da sua própria, também a bagagem do Frango, o espertinho do ano, que estava sem bagageiro.
Então veio a Serra das Araras. Frango, Codorna, Pato e Araponga a escalavam com emoção, enquanto Bunda e Pelicano vinham um pouco atrás. Frango, quem diria, ensaiou por alguns segundos uma carona-vácuo atrás de um caminhão, no que foi seguido por Cocodorna e Arapa. Pato, assistindo aquilo, ficou revoltado. A Serra das Araras era zona sagrada de disputa e não podia ser conspurcada por trapaceiros e velhacos. Sua revolta lhe serviu de motor, e a honestíssima ave, irritada, revigorada em seu ódio, buscou os outros, centímetro a centímetro, chegando mesmo a ultrapassar Araponga. Diga-se, aliás, em nome da fidelidade do relato, que este último não cumpriu a promessa de chegar ao topo antes dos outros e mudar o nome do lugar para Serra das Arapas. Sem entrarmos no reino das desculpas esfarrapadas, é evidente que a pobre ave vencida apenas sucumbiu ao peso de sua não-ida ao banheiro do posto e de sua bagagem filantrópica.
No alto da serra, as aves migratórias descansaram por uma hora, durante a qual jogaram conversa fora, se entrezoaram, comeram alpiste e bateram fotos. Alguns dos mais asseados tomaram banho num vestiário tosco.
A viagem fluía sem sobressaltos — se não nos sobressaltarmos com três pneus furados de um mesmo frango ou com algumas frases, como “estou sofrendo” e “nunca mais carregarei bagagem numa bicicleta”, ditas a esmo por certos pelicanos e urubus — quando, de repente, estatela-se Araponga na beira da estrada, a mais de 50 Km/h. Sua corrente resolveu escapulir quando pedalava fora do selim, e a ave, desequilibrando-se, foi ao chão, ficando bastante depenada e ralada em sua perna e nádega direita. Houve também um casaco e uma luva parcialmente destruídos, mas a bicicleta nada sofreu. Felizmente, os ralados e o susto não impediram a continuidade da romaria, e nossos amigos seguiram, agora sim, sem quaisquer outros sobressaltos — se não nos sobressaltarmos com um monstro imundo puxando o pelotão a 40 Km/h depois de 6 horas de pedal — até seu sonhado destino.
Em Penedo, foram direto à farmácia, onde a ave machucada adquiriu ungüentos para suas chagas. A atendente era simpática e ofereceu bons préstimos ao maltrapilho ferido.
Já no hotel, divertiram-se os viajantes lavando suas montarias lamacentas e refrescando-se na piscina, onde renderam justa homenagem, na forma de um solene minuto de silêncio, a seu amigo Pombo Anastácia, cuja ausência era por todos lamentada.
Depois do banho, conseguiram comida numa esquina e sorvete numa famosa casa de intenções finlandesas, após o que retornaram para a toca de aluguel para descansar seus carcomidos esqueletos.

No almoço: Bunda, Codorna, Frango, Pato (em espírito), Araponga e Pelicano
A noite não tinha muito a oferecer às aves cansadas, exceto quando alegadamente ouviram alguns sons estranhos vindo de um dos quartos, cuja chave estava em poder de Araponga, que saíra para tomar ares. O miserável Pelicano, para exibir seus dotes de guerrilheiro ninja, decidiu invadí-lo, passando de uma varanda a outra, pelo lado de fora, verdadeiro Homem Aranha de penas. Felizmente, não conseguiu consumar seu intento, do contrário teria ficado trancado lá dentro, se não conseguisse fazer o caminho de volta.
Algum tempo depois, Araponga voltou, sem nada entender, e a noite terminou com risos e hambúrgueres. Um dia quase perfeito.
Segundo dia
Alvorada. Uns poucos ritos de higiene. Pelicano, sorrateiro e vil, faz a foto de Araponga sentado no trono. Café-da-manhã. Frango, o mulambo, apoia seu pão no chão enquanto mexe na bicicleta. O mesmo pão é comido, com naturalidade; depois oferecido aos amigos, com espontaneidade; depois recusado, com contrariedade, indignação e asco. Cocodorna, aquele cujo nome diz tudo, cai na escada com sua sapatilha escorregadia. Mais fotos. E, enfim, de novo a estrada.
Pombo, o homenageado da véspera, saiu cedo do Rio de Janeiro e foi, de moto, ao encontro das aves ciclistas. Preferiria mil vezes estar ali pedalando com os outros, mas isso era algo que ele não poderia confessar, pelo menos não na frente da Pomba, que lhe arrancaria o bico. Além do casal de pombos, foi também ao encontro do bando, em outra moto, um amigo da espécie humana, o Milton. As motos, tendo se juntado ao grupo, deram aos não-motorizados todo tipo de apoio moral e logístico, carregando mochilas, cortando o vento, puxando o pelotão e esperando o Pelicano. Tudo isso, pelo menos, até que o humano Milton dissesse “preciso abastecer, aguardo vocês no próximo posto BR”, pois, dito isto, desapareceu para sempre, sendo visto novamente apenas em Aparecida!
Bunda, aprendiz de espertinho, livrou-se de sua bagagem, logo no começo do dia. Tudo bem. Afinal, os motoqueiros estavam lá para ajudar os mais fracos. Sentindo-se mais leve, passou a resmungar menos e a pedalar mais, seguindo com raça o forte ritmo imposto por uma das motos e, principalmente, pelo Frango, o maldito, que, sem paciência, volta e meia ultrapassava as próprias motos. Aliás, o Frango a Jato madou lembranças a todos e partiu no encalço dos ciclistas da Amazonas Bikes, de Niterói, que estavam em romaria para Aparecida, naquele mesmo dia, e já adiantados na estrada. É claro que ele não apenas os alcançou como os fez comer poeira.
Araponga, mais uma vez, tentou estragar a festa, agora com um raio quebrado na roda traseira. Pombo ainda tentou alinhá-la, sem muito sucesso. Felizmente, foi possível continuar, embora com a roda torta e frágil. Desculpa perfeita para que Araponga seguisse o exemplo de Nádega e se livrasse de sua bagagem, que passou para a moto do Casal Pombo. Quando o segundo raio quebrou, na mesma roda, aí não teve jeito. Todos pararam e Mestre Codorna pôs as patas na massa, trocando os raios e alinhando a roda, com quase perfeição.

…enquanto Pombo e Codorna trabalham (como na vida)
Daí em diante correu tudo bem. Pato, Codorna e Araponga gostaram mesmo do imenso tobogã da Dutra, a caminho de Guaratinguetá. Arregaçavam todas as subidas, reunindo o grupo em cada topo. Bunda também estava bem forte e refeito. Pelicano, o calouro, era um morto-vivo, e foi dele, para variar, a frase mais engraçada da viagem, referindo-se à tão esperada visão do cartão-postal de Aparecida, que marcaria o fim de sua agonia: “Não vou nem acreditar quando aparecer aquela capela depois da curva!” Aquilo é uma catedral, sua mula! Uma basílica! Àquela altura, qualquer coisa que tivesse uma cruz espetada em cima estava bom.
Em Aparecida, algumas aves ciclistas assistiram à missa e juntaram-se aos demais romeiros para carregar a imagem da santa. Bunda e Pelicano preferiram encontrar um lugar para tomar banho. Pombo, o motoqueiro, quase chorou. Não enquanto assistia à missa, mas enquanto via as fotos de seus amigos, na câmera do Codorna. “Pô, ficaram maneiras”, piou, lamentoso. Na próxima você estará junto, seu miserável.

Os ciclistas em torno da santa (detalhe: há duas aves, de verde, à esquerda)
Saindo da igreja, os mendigos sobre rodas encontraram banho e comida, numa pensão tosca. A cozinheira, ou dona, ou sei-lá, a quem as aves chamavam “tia”, uma senhora de bigodes, era um pouco surda e não respondia direito às perguntas. Mas fez rir a todos, com seu humor límpido e agudo. “Quantos bifes tem aqui, tia?”, perguntou Frango, preocupado com uma divisão justa. “Ah, vocês dividem aí”, respondeu a irônica senhora, numa versão carinhosa para ah-não-amola-tô-pouco-me-lixando. Em nome da verdade: Codorna foi o único que encarou o imenso prato de repolho refogado que a “tia” pôs sobre a mesa.
As aves voltaram para casa de ônibus, suas bicicletas bem comportadas no imenso bagageiro. Pato quase não volta, pois não tinha um documento sequer para apresentar ao motorista. “Eu me responsabilizo”, intrometeu-se Araponga. “Ok, então faz o cheque. São R$ 3500,00″, rebateu o motorista engraçadinho. Depois de algum desenrolo, Pato acabou viajando, e Araponga não precisou pegar a carteira. A piada infame veio na hora de preencher a ficha de embarque: “Motivo da viagem: ( ) trabalho; ( ) turismo; ( ) negócios; (X) outros — descanso”.
A viagem foi tranqüila e, com tantas conversas sobre os causos incríveis dos últimos dias, ninguém sentiu o tempo passar. Ainda quis o destino irônico que Araponga fizesse as duas melhores fotos da viagem ali, dentro do ônibus em movimento.
Às aves ausentes, ficam os abraços das presentes. Sentimos falta de todos. Até do Coruja.

Não perca os próximos episódios das Aventuras da Granja!
…
|
…










January 30th, 2009 at 8:56 pm
Belo pedal ornitológico!
January 30th, 2009 at 9:31 pm
Serra das Arapas….rssss….só você mesmo, filho….olha que Araponga vai pegar….Lindo e hilário texto!!!
January 31st, 2009 at 8:51 am
Pô!! as aves fêmeas não migram??
Muito bom!
February 2nd, 2009 at 10:38 am
Show de bola o passeio. Quando foi?
February 2nd, 2009 at 3:47 pm
@Leandro: foi nos dias 23 e 24 de janeiro. Abraço!
February 2nd, 2009 at 7:32 pm
Fala imundície, foi mesmo uma bela viagem.
A Serra das Arapas fica para uma próxima oportunidade.
Sr. ILYDIO pode deixar que a Granja está cuidando bem do seu filho, o coração dele nunca bateu tão forte antes. huahaha
FRANGO
February 5th, 2009 at 1:01 pm
Aves-Maricas, cheias de graça. Araponga, depositaste o substrato colifórmico durante a tentativa de invasão pelicânica ou justaposta ao ato fotofecal? Ou em ambas as circunstâncias? Talvez melhor alcunha fosse AraPombo…
February 5th, 2009 at 4:27 pm
February 8th, 2009 at 8:40 pm
Vinícius
Li todas as crônicas aqui postadas usando a mesma técnica de quando leio um livro pela primeira vez: sem me esforçar para “entender tudo”, pois um texto não se presta a isso, ao esgotamento. Revisitar os textos é o que me dá prazer. E um bom autor sabe fazer seu leitor revisitá-lo, sabe conduzi-lo por novas perspectivas. Então quando leio, deixo o autor me guiar. Confio na estrada.
Você consegue narrar o cotidiano que vê a partir de como o vive. As sensações de sol e chuva rasgando a pele. Os tombos. Os sustos. As alegrias… Num mundo impregnado de linguagem, a realidade é mesmo uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre. Por isso, sempre dá caldo delicioso tentar descrever as metáforas cotidianas. É o que se vê por aqui: quem escreve e quem lê tentando decifrá-las igualmente.
Quanto às imagens (que são verdadeiros textos e falam por si), pensei num pedaçinho da música “Dia Branco”, de Alceu Valença: “… até onde a gente chegar, numa praça na beira do mar, num pedaço de qualquer lugar nesse dia branco, se branco ele for…”
Estarei revisitando-o outras vezes. Parabéns!
Niza.
February 11th, 2009 at 1:37 pm
“…Comida nova que entra, comida velha que sai…” ahahaha….
February 11th, 2009 at 1:38 pm
Caraca.. o Pato REALMENTE estava apenas em espírito.. q foto é aquela!
ahahahahahaha
April 16th, 2009 at 1:34 pm
GARGALHADAS ESTRONDOSAS… Hiláaaario. Em breve vou eu, no ritmo do Projeto Tamar uauauauauua