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Rio das Ostras – Serramar

(Postado em 13/02/09, às 18:53.)

E porque algumas aves também sabem nadar, o destino desta vez foi o balneário de Rio das Ostras, no norte fluminense. O pretexto para mais um fim-de-semana à margem e a salvo do Sr. Fausto Silva era a Travessia de Nossa Senhora dos Navegantes, de cuja lista de inscritos constavam os pseudônimos humanos dos multitarefa Marreco e Araponga. Nada mais justo, portanto, do que convocar os demais seres de penas para a brincadeira. E não apenas para a torcida, mas também para a escolta. Porque Araponga, empolgadamente, iria até lá pedalando.

Renato Bunda, vulgo Noel, e Rogério Pombo, vulgo Anastácio, iriam ambos pedalando com Arapa Gusmão. Marreco Mafra, também conhecido como Murcha, iria melhor escoltado, com toda uma comitiva feminina: as peixas de nossa Equipe Fura Onda de natação. Lúcio Pelica, o Cabeça, ex-RH dos Fuzileiros Navais, estava com dores nas costas e não poderia pedalar; mas iria, mesmo assim, de ônibus, acompanhando Marreco e as meninas-peixe, e levando as bagagens dos seres que iam a pedal.

Primeiro dia

Bunda, Pombo e Araponga se encontraram na estação de barcas da Praça XV e entraram com bicicleta e tudo no barco das 6h. Araponga não tinha certeza se já estava acordado, embora tudo indicasse que tinha ido pedalando de sua casa até a estação, pois o sono remanescente de uma noite curta era daqueles que confundem a cabeça. Pombo e Bunda jogavam conversa fora, enquanto Arapa tentava lembrar o que estava fazendo ali.

O sangue só começou a fluir do outro lado da baía, onde as criaturas compraram protetor solar numa farmácia e se puseram a pedalar.

Os primeiros quilômetros, na Estrada do Contorno, depois Niterói-Manilha, foram assustadoramente rápidos. Há trechos de estrada que são rápidos, você não consegue impedir a bicicleta de ir tão depressa quanto ela queira. Duas das bicicletas gostariam de ir ainda mais depressa, gostariam sobretudo de simplesmente ir, mas foram impedidas pela terceira, a do Pombo, que se viu às voltas com um furo em seu pneu dianteiro. Os três amigos, então, pararam num posto de gasolina próximo para trocar o pneu, comer e beber. Algum animal de bunda grande derramou o copo inteiro de suco de laranja na mesa.

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O primeiro furo

A viagem era um treino de luxo fora da rotina. Um bom treino. As três bicicletas revezavam a frente, serelepes e faceiras, ganhando terreno com arrojo e emoção. Nova parada foi feita, desta vez no famoso Queijão, para uns sanduíches, refrigerantes e quetais. A parada teria sido mais breve se o pneu mulambento do Pombo não tivesse furado pela segunda vez. Arapa recostou-se num banco para um cochilo.

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O segundo

De volta à estrada, o ritmo estava melhor ainda do que antes, os três animais revezando a frente a cada minuto inteiro. Num dado momento, Arapa e Bunda começam a perceber uma certa perda de potência quando era o Pombo na frente a puxar o grupo. Seria impressão? Mas não foi preciso esperar muito mais para terem certeza: Pombinho fraquejava. O odômetro registrava a cabalística marca de 100 Km rodados.

Um par de horas mais tarde, os três ciclistas invadiram Rio das Ostras debaixo de forte sol. Pararam numa lanchonete, presenciaram uma chinesa tendo um ataque de nervos, informaram-se sobre a localização de seu hotel e para ele seguiram.

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Bunda e Pombo com 150 Km de pedal

O ônibus, que trazia um marreco, um pelicano e todo um cardume, foi recebido pelos três primeiros ciclistas em ritmo de fome. Os estômagos reivindicavam coisas sólidas. Era urgente. Tão urgente que se permitiram entrar num daqueles bistrôs bacanas, onde consumiram, vorazes, o arroz-com-feijão mais caro de suas vidas.

Aves e peixes saíram, então, para um rápido passeio, com direito a mergulho de reconhecimento no mar, que estava uma beleza. Pombo, então, voltou de ônibus para o Rio, onde Pomba o esperava, pronta para lhe dar uns petelecos na orelha.

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Bunda, Araponga, Pombo, Marreco e Pelicano: granjada em Rio das Ostras

À noite, depois de um disputadíssimo duelo de ping-pong onde Araponga exterminou as aves fracas impiedosamente, saíram todos para pizza, sorvete, cantoria e apertação de mão do Luiz Lima, campeoníssimo de natação, que estava por aquelas bandas. O banho de piscina à meia-noite ficou para uma próxima ocasião, que eram todos meninos muito ordeiros.

Segundo dia

Marreco e Araponga amanheceram inimigos mortais. Era dia de competição.

Depois do café, dirigiram-se os seres para o mar. Durante todo o tempo, Araponga só tinha um pensamento em mente, e apenas uma era a preocupação de Marreco: destruir um ao outro.

A travessia teria sido fácil, brincadeira de criança, não fosse aquela rivalidade antiga e letal. Por sua causa, Marreco e Araponga quase tiveram um piripaque no mar, nadando no limite de suas forças. Foram 1500 metros furando as águas com raiva. Araponga transtornado. Marreco venceu.

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Elaine, Araponga, Marreca Phelps e Marreco do Brejo

Foi por pouco. Marreco Maldito ficou em 6º lugar na faixa etária; Araponga Vingativo, em 7º. Marreca Phelps, orgulhosa do namorado, teve ainda outro motivo para comemorar: conquistou uma linda medalha de prata em sua categoria. As peixas Elaine, Amanda e Regiane também foram muito bem, com Regiane subindo ao pódio no lugar mais alto. Pelicano e Bumbum estavam ali para fazer bagunça e ver o circo pegar fogo. Não perderam a viagem.

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Fura Onda Team: travessias e travessuras

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a hora da verdade, para Araponga e Urubunda, havia chegado. Precisavam partir, e tinham pressa, pois iriam pedalando até Nova Friburgo, no alto da temível e fantástica Serramar, uma estrada com rampas que chegam a 25% de inclinação e uma inclinação média de dar arrepios. Despediram-se, então, de seus companheiros, comeram macarrão num restaurante onde foram o centro das atenções (“como é que é, vocês vieram pedalando do Rio?!?”) e, finalmente, partiram, com medo de não chegarem a seu destino antes do anoitecer. Eram 14h05.

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Arapa e Bunda, de partida; Marreco com as bagagens

De Rio das Ostras até Casemiro de Abreu, as aves loucas não tiveram problemas maiores que o sol quente nas cabeças. Então começou a brincadeira. A temida, imensa, inclinada, mortífera, maravilhosa Serramar escancarou suas paredes de asfalto na cara de nossos pedaleiros audazes, que a olharam nos olhos, encheram o peito, e invadiram seus emaranhados verdes. Nos primeiros momentos de crise, a estrada só fazia zombar dos dois aventureiros, como quem diz “isso não é nem o começo”. Bunda, rancoroso, viu motivos para se estranhar com um rio muito caudaloso e fresco, que margeava a estrada com ares convidativos, mas em cujas águas não poderiam parar, aqueles dois, sob pena de serem tragados, mais tarde, pela escuridão da noite. “Tô fulo com esse rio”, repetia ele.

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O começo do sofrimento

A distração da dor vinha na forma de um jogo de adivinhação. A idéia era profetizar a inclinação das subidas descortinadas por cada nova curva. “Essa aí vai bater em uns 15%, pode anotar.” “18! 18%!!!” O GPS não mentia, a coisa era difícil mesmo.

O Luís Antônio é o sujeito que vende coco, água e refrigerantes, por ali. Sua barraquinha fica um pouco depois do povoado conto-de-fadas de Cascata, entre a Barra do Sana e Lumiar. Sujeito simpático, educado, articulado, quando Araponga pediu que aparecesse na foto com o Bunda, ele botou de lado o cigarro, para não aparecer na foto (“senão fica feio, né?”). Gente simples, vida simples. As aves saíram de lá revigoradas.

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Parada abençoada, no meio da Serramar

O vigor das aves não durou muito tempo, e Noel Rosa deu as caras mais ou menos por ali. Como de costume, Bunda, exaurido, garimpando as últimas forças das entranhas de sua imunda alma, transfigura-se no famoso compositor da Vila Isabel. O espírito de Noel, uma vez incorporado, põe-se a pedalar, com reduzido queixo e redobrada raça, num silêncio tumular. E é sinistro seu olhar. Noel Rosa foca o infinito, concentrado, vidrado, condenado, invadido por raiva genuína pelas coisas desse mundo, que tão mais pesada tornam sua já penosa tarefa de se locomover montanha acima. Noel pensa particularmente no tamanho das nádegas de seu médium, mas nunca faz reclamar. Apenas avança.

Desta vez, algo realmente sinistro aconteceu. Noel viu Araponga. Ele o fitou, olhos nos olhos, Araponga tinha certeza. A mensagem que Noel, numa fração de segundo, lhe transmitiu, com aquele olhar do além, era “eu sei que você sabe — sou eu”.

E nunca mais se comunicou com o mundo. Araponga, percebendo o transe, ia na frente, fotografava, esperava, comprava Coca-Cola e abria a tampa e a entregava geladinha para Noel, que resmungava algo gutural que Araponga decidia interpretar como um agradecimento.

E assim foi. Quatro horas de subida quase ininterrupta. Noel Rosa pedalou até Mury, quando então Bunda recobrou a consciência. Coincidentemente, restava apenas uma longa descida até Nova Friburgo.

Os dois amigos chegaram à rodoviária de Friburgo apenas vinte minutos antes da própria noite. Araponga pediu um suco; Bunda tomou outra de suas legendárias Coca-Colas, confirmando que Noel tinha voltado para lá de onde não deveria ter saído (Araponga temia ver seu amigo pedindo cachaça e um cigarrinho)…


Renato Bettim

Com as bicicletas ajeitadas nos bagageiros, nossas sujas e cansadas personagens entraram no aconchegante ônibus, que as reconduziu ao Rio de Janeiro, ao lar e às suas vidas. Melhores do que antes, muito mais felizes.

No ônibus, a Bunda Sorrateira ainda teria a sorte de se sentar ao lado de uma formosa donzela. Cadê Noel, numa hora dessas, para compor uma bela canção?

Valeu, meus queridos mendigos (todos que participaram), por mais esta aventura. Marreco, ó imundo, destruirei você na próxima. Esteja pronto!

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Equipe Fura Onda com Pelicano e Bunda

Veja também:
– o álbum de fotos completo.


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6 comentários em “Rio das Ostras – Serramar”

  1. Cepa diz:

    As adjetivações nadegabundianas estão de matar… hahahahaha…

  2. Anderson diz:

    Realmente, estes textos vão acabar virando leitura obrigatória pra prova de literatura no vestibular (brincadeira). Parabéns por mais essa vitória. Um abraço.

  3. Bruno diz:

    4h de subidas sem parar? Cruzes…. :)

  4. Mulher de Ciclos diz:

    Tô doida para fazer essa viagem: Rio – Rio das Ostras no 1o dia, Rios das Ostras – Friburgo no 2o dia.

    Em Janeiro passei por Casemiro de Abreu, vindo pedalando do Rio, mas parei no Sana para passar o finde por lá. Mas de MTB. De speed tudo é diferente, né mesmo? Agora quero seguir adiante e terminar de subir a estrada…

  5. Eu mesma diz:

    Como pode ser melhor? Impossível. Sabe do que falo.

  6. Julio "Papagaio" Calassara diz:

    O biotipo do Renato B… na época nada tem com atualmente! rsrsrsrs

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