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Tour da Serra molhado

(Postado em 20/02/09, às 17:25.)

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Teresópolis, sábado, 9h da manhã.

– Alô.
– Fala, Pombo.
– Faaaaaala, Bunda.
– E aí? Foram?
– Nem fui, cara. Tô em casa. O tempo tava feião, achei melhor não ir. Acordou agora?
– Ótimo! Acordei, sim. Sabe se o Arapa e o Frango foram fazer o Tour?
– Pô, cara, nem sei. Provavelmente, sim. Do jeito que aqueles dois são malucos, não duvido nada. Vai treinar à tarde? Tá chovendo aí?
– Tá chovendo muito, aqui. Mas pode ser, de repente um girinho à tarde.
– Então beleza. Qualquer coisa me liga. Abração!
– Abraço!

Dez segundos depois.

– Alô.
– Fala, Frango.
– Faaaaala, Bundinha.
– Vocês foram, cara?
– Foram pra onde? Pro Tour?
– É.
– Nada, cara! Maior chuvarada! Quer dizer, eu pelo menos não fui.
– Pô, sério?
– Sério, pô. Tô aqui em casa vendo desenho animado na TV. [Ao fundo, barulho de TV passando Pink e o Cérebro, ou coisa que o valha.] Acho que ninguém foi, não.
– Ah… então tá beleza. Valeu!
– Valeu. Abraço!

Volta o tempo. Posto BR da Praça da Bandeira, sábado, 5h30 da manhã. Araponga, Frango e Pombo ajeitam as bicicletas no Arapamóvel. Tudo pronto.

– E aí, partiu?
– Partiu.
– Bora!

É nessas horas que lembro do quanto somos malucos. Saímos para mais uma edição do abominável Tour da Serra. Dessa vez, debaixo de chuva.

Mas chovia muito. Tudo escuro, céu cinza, climão de fim dos tempos. Não eram daqueles pingos robustos, de furar teto de zinco, mas daqueles outros, insistentes, incansáveis, constantes. No jargão ciclístico, seriam pingos passistas, não sprinters. Ou seja: a chuva não ia parar tão cedo.

O Tour da Serra — sem o rabicho da versão anterior, que ligava Jacarepaguá ao anel serrano propriamente dito — é um circuito por algumas das mais interessantes montanhas do Rio de Janeiro. Acumulam-se 2000 metros de aclive em 150 quilômetros de estrada. Algo como 6 horas de pedal.

Frango, Pombo e Araponga saíram da Praça da Bandeira às 5h40. Às 6h15 estavam no posto de gasolina próximo ao pedágio da Rio-Magé, tradicional ponto de partida dos treinos de estrada dos ciclistas e triatletas cariocas. O tempo só piorava.

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Frango, prestes a começar o Tour

Uma coisa é pegar a chuva no meio do treino, outra é ignorá-la completamente e já começar a pedalar todo encharcado, e sem casaco. Qualquer um dos três, se estivesse sozinho, não teria nem montado na bicicleta. (Quer dizer, com exceção do Frango… e do Araponga…) Essa é a força do grupo. Juntos, encararam. No pedágio, com dois minutos de pedal, ainda havia aquela sensação de ainda-dá-tempo-de-desistir, devidamente verbalizada. Pelo Pombo, claro.

Verbalizou, mas não desistiu. Acabou comprando a briga e pedalando que nem um animal, pelo menos até que sua nova série de musculação, inaugurada na antevéspera, cobrasse seu preço. Sentia dores musculares nas pernas.

Tá no inferno, beija o Capeta. Pedalamos sem pensar em nada. Quando voltamos a pensar, lembramos, primeiro, que éramos loucos; depois, que gostávamos daquilo, que não havia lugar no mundo onde preferíssemos estar. A subida de Teresópolis tinha começado.

Aquela primeira subida foi tão bem feitinha que Araponga baixou em 4 minutos seu recorde pessoal. Em Teresópolis, as aves lancharam numa padaria, onde a televisão exibia Pink e o Cérebro, ou coisa que o valha. Eram 9h.

Quando saíram da padaria, os três sentiam um frio de rachar. O jeito foi apelar para o velho truque do jornal no peito, por baixo da malha de ciclismo. O jornaleiro, no entanto, não tinha qualquer jornal velho para lhes doar, nem mesmo Classificados inúteis. Tiveram, pois, que investir 60 centavos de real num exemplar do famigerado Meia Hora, cujas 8 folhas se mostraram insuficientes para os três. Arapa pediu, então, outro exemplar, “para completar uma hora inteira”. Aí deu pro gasto. “Hummm… que gostoso!… que delícia!…” Era o Pombo, confortado pelo jornal quentinho no peito, que verbalizava, mais uma vez, a sensação de todos.

Depois de cruzarem o centro de Teresópolis, as criaturas encararam a segunda grande escalada do dia. A serrinha entre Teresópolis e Itaipava é belíssima, com suas hortências à beira da estrada. Frango e Araponga subiam sem problemas. Pombo sentia mais fortes dores, mas seguia com raça. Vencido mais um desafio, os três tiraram várias fotos no topo do morro. Homenagem — sarcástica, evidentemente — aos amigos ausentes.

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Flores para o Bunda

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Pombo e Arapa tremendo de frio no alto da Itaipava-Terê

O problema da descida, da loooooonga descida, foi novamente o frio. As folhas dos Meia Hora, ensopadas, já não aqueciam o peito. Os dedos das mãos ficavam duros. As orelhas, vermelhas e geladas. Mas a paisagem era tão bonita que compensava tudo. Até que, enfim, as aves empolgadas chegaram a Itaipava, onde se puseram a procurar uma padaria, uma simples padaria. Onde diabos haveria uma padaria naquele lugar tão cheio de bistrôs, brasseries e Casas do Alemão, onde um pão com queijo nao custa muito menos que R$10,00? Depois de algum tempo, e de pedalarem mui caça-foicisticamente pela contramão, seguindo uma informação mal dada, acabaram localizando o que buscavam: uma boa e honesta padaria, onde o pão com ovo custava R$ 1,20. Em frente à mesma padaria, os friorentos conseguiram bons pedaços de papelão, que substituiram os jornais em frangalhos na função de couraça.

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Os “peitos de aço”, na saída de Itaipava

O lanche e os papelões nos peitos deram vida nova aos três sujeitos, que rasgaram as estradas até Petrópolis e embicaram na imensa descida final que os levaria de volta ao nível do mar.

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Descendo a serra de Petrópolis

No estirão plano até o carro, o ritmo foi bem forte, A idéia era queimar as últimas reservas de energia, eliminar qualquer possível gostinho de quero-mais, no final. Parece que deu certo.

Posto de gasolina da Rio-Magé, sábado, 3h da tarde.

– Alô.
– Faaaaaaaala, Bundão.
– Fala, Arapa. Tá onde?
– Pô, tô no meu pai, acabei de ver que você tentou me ligar mais cedo. O celular estava desligado.
– Nada de Tour?
– Nada de Tour. Eu até fui pra Praça da Bandeira encontrar com os caras, mas ninguém apareceu. O Pombo ainda mandou uma mensagem de texto dizendo que não iria; o Frango, nem isso. Aí desanimei. Muita água! Mas fala aí, tudo beleza?
– Tudo ótimo. Melhor ainda agora! Gosto muito de saber que nenhum dos meus amigos treinou.
– Pô, amarelei mesmo, nem tenho o que dizer…
– Você é fraco, Araponga.
– Seu miserável! [Riso sem graça.] Me conta, como foi ontem à noite?
– Pô, cara, nem te conto (…) [A conversa muda completamente o rumo. Bunda está feliz.]

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“Nada de Tour.”

A brincadeira terminou com nossas aves comendo um delicioso galeto, nas vizinhanças da casa do Frango, e brindando aos amigos ausentes.

E este foi nosso Tour. Um abraço às aves medrosas-d’água.
Dos amigos…

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…Pombo, Frango e Araponga.

PS.: Bunda e três capangas imundos — Galinha, Chester e Sabiá — se vingaram com estilo, fazendo o Tour da Serra, escondida e traiçoeiramente, quatro dias depois, em plena quarta-feira. Fazia um belo dia de sol.

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Galeto!!!

Veja também:
– o álbum de fotos completo.


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9 comentários em “Tour da Serra molhado”

  1. Cepa diz:

    Caraca, não conhecem corta-vento não? Jornal é o fim da picada, funcionar até funciona, mas a durabilidade… :S

    Nada de postar as distâncias e médias? Vou achar que é rolezinho de menininha, se não informarem o porte do desafio! :D

  2. vigusmao diz:

    Fala, Alê!
    149,8 Km. 1980 metros de aclive acumulado. 5h59min de pedal. 25 km/h de média. :-)
    Abração!

  3. claudio & tania diz:

    E ai Vinicius desde o início sabia que só podia ser onda tua! Parece como no surf
    um soul surfer nunca iria dispensar umas boas ondas ou mesmo más ondas por uma chuvinha inpertinente. É isso aí soul biker!!
    E para lembrar vcs viraram canibais? estão comendo a própia espécie até os
    ossinhos pô!! Valeu muito bom.abração!

  4. Cepa diz:

    Eita! Rolê de macho! :D

    Cara, por um lado acho legal pedalar na chuva (refresca, principalmente aquelas de final de dia no verão). Por outro, a bike fica uma meleca, carcome a relação, sapatas de freio, o risco de chão é muito mais alto não só pela água mas pelo “sabão” da mistura com os resíduos (óleo, pó, borracha), etcetera etcetera e todas essas coisas chatas. Mas outro dia descobri mais uma…

    Saí sozinho pra um rolê de 90km que nunca tinha feito e já havia adiado algumas vezes antes. Por haver adiado anteriormente, já estava no estágio “foda-se” e acabei saindo com o tempo bastante feio. Com 15km de pedal fui pego por uma chuva, não um temporal mas o suficiente pra molhar muito a estrada, a ponto da roda dianteira jogar bastante água no rosto. A chuva durou 20 minutos e logo eu estava em terreno seco, mas a roupa ficou encharcada, principalmente a bermuda.

    Resultado, algo que eu nunca havia sofrido antes… Assaduras no forévis! Bem onde apoiam os ísquios. Damn sit bones. Já pedalei bem mais que esse tanto, de ficar com dor na bunda, mas bastava 15 minutos fora do selim pra aliviar completamente… Agora, as assaduras não deram sossego até o dia seguinte.

    Fiz outro pedal em que peguei chuva, esse bem mais curto (cerca de 40km) e novamente tive assaduras, embora em menor grau.

    Não sei se é só comigo isso, mas chuva no forévis, tô fora! :D

  5. Revista Foda-se diz:

    Fala Vinicius,
    Só hoje vi teu comentário lá no texto do Ozzy, na Revista Foda-se.
    Valeu!
    Eu não ando nem de velocipede, mas boa sorte com o blog!
    Abs

  6. Felipe diz:

    Fala Vinicius,

    cara, sou de Brasília e to morando no Rio a 1 ano. To procurando companhia pra pedalar cara. Gostei muito das historias de suas aventuras, e seria um prazer participar das proximas…. To trazendo meu camelo pro Rio na semana santa e apartir dessa data ja poderei me aventurar.

    Um abraço e bom pedal… sempre!

  7. vigusmao diz:

    Fala, Felipe. Traga sua bicicleta, sim, e mantenha contato. Abração.

  8. ILYDIO diz:

    Filho…..concordo que são mesmo “loucos”. Podiam ao menos ter levado os “agasalhos”, não? Pena que eu não estava em Teresópolis nesse dia.

  9. Mulher de Ciclos diz:

    Gostei da idéia do jornal no peito!!! Eu que tenho asma, é mó adianto. Adoro essas soluções tabajara para pedalar… Em breve quero fazer esse percurso, agora de speed, que comecei a usar há uma semana.

    Na primeira e única Volta das Serras que fiz (parecida com a de vcs, mas de MTB e em dois dias) passei um perrengue só e aprendi a usar jornal no tênis para tentar secá-lo (meio em vão!!!).

    Meu relato da sofrida viagem aqui http://umamulherdeciclos.blogspot.com/2008/12/volta-das-serras-petroplis-itaipava-ter.html

    Foi esse texto que me deu a idéia de criar meu brogue. Bem, mais uma vez digo: adorei seu texto, a leveza, o sarcasmo, TUDO. Virei fã e leitora assídua, agora vc terá uma Mulher de Ciclos bisbilhotando todos os seus posts… Cuidado!!! hehehe

    PS: quem me falou (ou melhor, escreveu) do seu brogue foi o Frango, que não sei como me achou virtualmente e deixou lá no meu brogue o link para o seu. Mas como não tenho o contato dele, agradeça a ele por mim. A cara dele não me é estranha, acho bem que já o vi em algum rolé aí pela Floresta. Beijão!

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