Viagem a Ouro Preto
(Postado em 21/08/09, às 17:49.)A vida na Granja é assim. Algumas aves malditas tiram férias, formam um bando e, de uma hora pra outra, migram. Algumas aves vagabundas nem férias precisam tirar, apenas migram de uma hora pra outra.
Desta vez, a meta era ir do Rio de Janeiro até Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra dos Inconfidentes, caminho do ouro, primeira cidade brasileira a ser declarada Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO. Os três dias programados não seriam tantos, se considerarmos os 6200 metros de aclive acumulados ao longo do trajeto, nem tão poucos, uma vez que que os 410 quilômetros entre as duas cidades estão cobertos por asfalto em excelentes condições.
Pelicano estava empolgado para sua segunda viagem de bicicleta. A primeira, até Aparecida do Norte, há exatos seis meses, foi sofrida. Ele não via a hora de avistar a tal capela. Desta vez, muito mais treinado, mais magro, mais forte, mais confiante, mais audaz, não haveria de sofrer.
Fazia três dias que Araponga tinha voltado do Caminho da Fé, peregrinação ciclística por outros quatrocentos e poucos quilômetros — de estradas de terra e trilhas — pelo interior de São Paulo e Minas Gerais, e a ave inquieta já ansiava por ação. Ajeita daqui, ajeita dali, conseguiu acoplar a ida a Ouro Preto à sua agenda de recém-aprovado em concurso público aguardando convocação, leia-se virtual desocupado.
Quanto ao Frango, para este o que menos importava era a origem ou o destino, contanto que houvesse uma estrada entre os pontos. É um alucinado, pior do que eu.
Primeiro dia
No portão da vila onde habita o mendigo de olhos azuis, os três amigos zeraram seus odômetros e partiram.

Vila do Frango: ponto de partida
Depois de um pedal tranqüilo por lugares agradáveis e propícios à prática esportiva como a Av. Radial Oeste e a Av. Brasil, os três encontraram Condor, ave tão experiente quanto talentosa, e tão talentosa quanto surda, que os aguardava no começo da rodovia BR-040. Por motivo de trabalho, Condor não iria até Ouro Preto com o grupo, sequer até o final do primeiro dia, mas sua participação especial abrilhantaria sobremaneira o evento.
No banheiro da famosa Casa do Alemão, Araponga deixou um pouco de lastro, como faria tradicionalmente a cada manhã. E Frango resmungou “vambora, partiu, partiu!” vezes sem conta, como faria tradicionalmente a cada meia-hora.

Pelica, Frango, Condor e Arapa no Alemão
A subida da serra de Petrópolis foi o primeiro momento interessante da viagem. Todos subiram juntos, e bem, sem paradas, sem pânico, sem quebras de ritmo, sem aumento demasiado da freqüência cardíaca, sem acúmulo de ácido lático maior do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde, enfim, sem qualquer dificuldade. Eu disse todos? Bem, certa ave, cuja cabeça tem peso e diâmetro ligeiramente maiores do que o recomendado pelo Inmetro, sentiu um pouco de cada um daqueles sintomas. Por ora, nós a perdoaremos. Segue a viagem.
Despedimo-nos do Surdinho e seguimos, sempre pela 040, num bom ritmo, passando por Itaipava, Areal, Três Rios, Comendador Levy Gasparian, a divisa RJ-MG, Simão Pereira e, finalmente, Matias Barbosa, onde apearíamos para passar a noite. Eram duas e meia da tarde.

Entrando em Minas pela BR-040, ao passar pelo Km 0 do trecho fluminense
Matias Barbosa não é exatamente a cidade dos sonhos para o passeio de férias com a família, tampouco para a lua-de-mel ou o refúgio espiritual. A bem da verdade, não é exatamente o lugar dos sonhos para coisa alguma. O que vimos foi enxames de mosquitos e bastante lixo despejado no rio Paraibuna. Uma pena. Mas a pousada — a única da cidade — atendeu nossas necessidades de teto e alimentação, e o passeio a pé pela localidade não foi de todo desprovido de graça, embora tenha sido quase todo desprovido de fotos, dado o pouco assunto para se fotografar.
Compramos iogurte no mercado local, jantamos no mesmo restaurante onde havíamos almoçado poucas horas antes — e que ficava no andar térreo do próprio hotel –, e dormimos, que era o melhor a se fazer.
Segundo dia
O plano original concebera uma certa Carandaí como a cidade do segundo pernoite, mas a experiência de Matias Barbosa nos fez optar por algo mais conhecido. Rumamos, então, para Barbacena, sempre pela BR-040, que, embora nos tenha oferecido apenas duas serrinhas mais invocadas — uma logo no começo do dia, outra quase no fim –, lembrava-nos a todo instante que estávamos no meio do mar de morros mineiro, mantendo constante sua alternância de subidas e descidas, quase sem qualquer trecho plano. É o tipo da coisa que vai minando a força das aves mais fracas, e Pelicano, por alguma razão, já não estava mais tão empolgado quanto antes. Araponga, tranqüilo, quase tirava um cochilo enquanto esperava, a cada topo de morro. Quanto ao Frango, este podia estar em Ouro Preto há muito tempo. “Partiu!”
Fizemos um lanche no município de Ewbank da Câmara, o nome provavelmente mais interessante que o lugar. Bacana foi a cidade de Santos Dumont, um pouco adiante, onde paramos para fotografar a réplica do 14-Bis. Esse Alberto foi realmente o cara!
Chegamos a Barbacena sem sustos, e seguimos a indicação de uma senhora para conseguirmos um hotel honesto, onde deixamos as bicicletas e tomamos banho, após o que seguimos nova indicação para conseguirmos um restaurante não menos honesto, onde comemos muito e bebemos de acordo. A masculinidade do dono do lugar é que talvez não fosse honesta assim à toda prova, mas o sujeito nos divertiu desfiando todo um repertório de histórias e piadas.
Depois de um breve passeio pela cidade, em que passamos por uma LAN House para nos comunicar em tempo real com as demais criaturas da Granja, voltamos para o hotel, que era realmente bom. Aliás, do hotel, o único porém foi ter dividido o grupo em dois quartos: eu em um, Frango e Pelicano em outro. Eu disse porém? Menti. Longe dos miseráveis faladores, tirei um cochilo perfeito naquela tarde!

Basílica de São José Operário, em Barbacena
Depois do descanso benfazejo, saímos para uma pizza e umas limonadas suíças com leite condensado. O bom dessas viagens de bicicleta é que você pode ingerir o que — e o quanto — quiser. E pode dormir muito, que foi exatamente o que fizemos logo a seguir.
Terceiro dia
Pelicano sofreu. Sim, sim, sofreu, não vamos adiar muito essa parte. E a culpa é do Coruja, seu treinador, que o convenceu de que é ave forte e tenaz, quando não passa de um fraco. (Que morram abraçados, os dois!)
Este foi um dia, finalmente, para fazer valer. O trajeto, que abandonaria a BR-040 uma vez cumprido o segundo terço da etapa, na altura de Conselheiro Lafayete, enveredaria pela suntuosa Estrada Real e ficaria lindíssimo, realmente maravilhoso. Paisagens deslumbrantes, subidas de arrepiar, descidas tenebrosas, asfalto perfeito, tudo para um dia inesquecível sobre uma bicicleta. Sim, sim, sim, ele sofreu. Não tem perdão.

Lanchinho no começo do terceiro dia
O começo não foi terrível. Na verdade, estávamos andando muito bem na BR-040. Poucas distrações, muito mais ciclo do que turismo. Quando paramos, alegres e sorridentes, para fotografar o Cristo Redentor de Conselheiro Lafayete, mal sabíamos o que estava por vir. Frango fazia idéia, pois já tinha passado por ali de carro. Araponga e Pelicano, puros e inocentes em sua ignorância, nada temiam.

Araponga, Frango e Pelicano: Estrada Real
Faríamos melhor em temer. Parede. Uma atrás da outra. Ô delícia. Frango treinava, coisa normal. Araponga se esforçava, mas se divertia. Pelicano xingava aos quatro ventos. A todo instante pensávamos “agora acabou, né?”, mas, a cada curva, o que vinha era pior. Foi a festa dos 10%. Deve ter uma lei proibindo subidas com menos de 10% de inclinação, por aquelas bandas. Dói!

Entre Ouro Branco e Ouro Preto: dureza
O trajeto foi mesmo difícil, nesse terceiro dia. Até o equipamento reclamou. A poucos quilômetros da chegada, enquanto passávamos por dentro de um vilarejo, num trecho pavimentado com aquelas lajotas hexagonais piores que paralelepípedos, a trepidação fez com que se quebrasse o suporte do GPS que uso em minha bicicleta. E eu nem teria notado, não fossem as buzinadas frenéticas do motorista de uma kombi próxima. Por sorte, apesar da altura em que caiu no chão, nada lhe aconteceu.

Suporte fajuto do GPS da Garmin
Em Ouro Preto, ao invés de descanso, o que tivemos foram subidas diabólicas em paralelepípedos, uma das quais proporcionou um momento de prazer e glória à ave pelicuda, que pedalou em pé com a força e a raça de todos os seus ancestrais e de todos os inconfidentes mineiros de todos os povos e de todas as eras para vencer os 16% de inclinação da maldita ladeira, como se aquela fosse a última subida da viagem, quiçá da vida. Araponga, achando que a viagem já tinha acabado havia muito tempo, e muito mais preocupado em desviar dos carros e olhar a paisagem do que qualquer outra coisa, nem percebeu a maldade. Qual não foi sua surpresa quando, ao final da tal subida, Pelicano, que chegara antes dele no topo, comemorava como se tivesse vencido a etapa de Paris do Tour de France. Aquela era a última subida da viagem.

Ouro Preto (sim, isto é uma ladeira, na foto de baixo)
Brincadeiras à parte, Pelicano pedalou muito a viagem inteira, e fez algo que muitos abandonariam no primeiro dia. Além disso, apresenta uma melhora absurda em relação ao começo do ano. Se continuar assim, terei que respeitá-lo, e muito, no futuro. No futuro, eu disse. Futuro é algo que ainda não aconteceu. Só pra deixar claro.
Na rodoviária, tivemos uma surpresa: havia apenas duas passagens de volta para o Rio, naquela noite. Decidimos, a princípio, que voltaríamos eu e Frango, enquanto Pelica dormiria em Ouro Preto e voltaria para o Rio na noite seguinte. Durante o almoço, no entanto, tivemos a melhor idéia de comprarmos passagens para Belo Horizonte e, de lá, para o Rio, podendo assim voltar os três para casa naquela mesma noite. Voltamos à rodoviária, conseguimos trocar as passagens, tomamos banho — lá mesmo, no banheiro da rodoviária — e, com tudo resolvido, demos finalmente uma volta tranqüila por aquela pitoresca cidade, cheia de igrejas, ladeiras, monumentos, museus, caçadores-de-turistas (”têm pousada? querem restaurante? querem pedras de Minas?”) e história.
Não havia muito tempo, então o que fizemos foi tirar algumas fotos e comer alguns pães-de-queijo, não muito mais que isso. Mas ah!, sim, sempre há tempo para aquela respirada funda, aquele pensamento de “estou aqui, cheguei aqui com minhas próprias pernas” e aquela gratidão não verbalizada a Deus e à vida. Foi o que fiz, num instante fortuito. Estava feliz, já podia voltar para casa.

A Granja em Ouro Preto, fim de mais uma aventura
Foi uma bela viagem. Tenho certeza de que Pelicano e Frango, tanto quanto eu, fariam tudo de novo. Apenas, definitivamente, não dormiríamos em Matias Barbosa!!!
…
|
…




August 21st, 2009 at 6:59 pm
Grande relato!! Ainda faço uma dessas, desafiando meu mestre, o Sr. Coruja!! Mas falta muito pra aguentar 3 de pedal violento. Parabéns pros 3!
August 22nd, 2009 at 12:37 pm
Texto irretocável e viagem tentadora. Tipo de relato que faz bem a qualquer ciclista que, assim como eu, planeja sair por ai pedalando. Parabéns aos nobres ciclistas.
August 24th, 2009 at 8:34 pm
Sensacional! Demais! Que inveja!
August 25th, 2009 at 5:14 pm
Nossa Vi, que viagem linda, parece um sonho!
Sensacional…estou sem palavras.
bjoka
August 26th, 2009 at 6:25 am
Muito legal Arapa, não tinha a menor idéia de como era um viagem destas… Agora que sei, não faço mesmo! Relamente cicloturismo é para fortes… Mas, parabéns para todos.
August 26th, 2009 at 9:19 am
Partiu………
August 26th, 2009 at 9:41 am
Hehehe…
agora falta ler a versão do Pelicano da história…
De olho em:
blogdopelica.blogspot.com
August 27th, 2009 at 3:22 am
E aqui estou eu em mais uma jornada de beleza, coragem, aventura, conhecimento e sobretudo, muita risada…..Tenho uma inveja danada dos filhos de vocês daqui há alguns anos ouvindo estas estórias antes de dormir, saindo de olhos empregnados dum misto de verdade, beleza, orgulho, fé, amor….ao encontro de olhinhos cheios de emoção e vaidade por terem pais tão especiais, tão malucos, tão heróis. Estou convencido de que vocês são belos exemplos. Bom, eu tenho aí um CAMPEÃO…..e SOU FELIZ DA VIDA POR ISSO !!!! Parabéns !!!!!
August 27th, 2009 at 12:10 pm
Achei seu blog fuçando o Google e leio sempre seus textos. Parabéns pelo pedal e pela qualidade dos textos, são excelentes! Qualquer dia, peito uma viagem dessas… O problema é que treino com triatletas que só pensam nas provas do Aterro:( Tô precisando de gente que me acompanhe numa doideira dessa, mas do meu nível. O Frango partiria pra rinha comigo nessas pirambeiras de Minas.
Abs,
Zeca
Niterói
September 1st, 2009 at 11:40 am
Os relatos são incríveis. O blog e as fotos são inspiração pura a qualquer um que queira pedalar. Parabéns ao grupo e, principalmente, ao autor.
abraço!
João
September 10th, 2009 at 2:05 pm
Ai galera, vocês estão de parabéns, pois realmente essa é uma das viagens dos sonhos de qualquer ciclista. Sou um simples amador iniciante, porém, pretendo realizar uma aventura assim, que só de imaginar fico radiante, pois o mais longe que já fui, foi para Petrópolis e Piraí, mas quem sabe um dia terei o prazer de pedalar com vocês, pois um amigo meu ( Jairo ) já teve essa oportunidade no passeio de nome Tour da Serra. Um abraço e fiquem com Deus.
September 16th, 2009 at 3:15 pm
Frango!!!! O Zeca Black INTIMOU!!!! Iiiiiiiiihhhhhhhhh
September 16th, 2009 at 10:13 pm
Excelente texto e sensacional aventura. Parabéns especial para o “Araponga” que fez o percurso de mochila nas costas. Algo que quando faço aumenta consideravelmente o desconforto!! Paisagens mineiras tentadoras e convidativas a seguir o exemplo do trio!! Aves da Granja são valentes e intrépidas!! Estão de parabéns!!! Qual e quando será a próxima aventura?
September 29th, 2009 at 3:55 pm
Queremos novos posts! Queremos novos posts!
October 7th, 2009 at 12:15 pm
Pô Alessandro!!!
O meu nível é beeeeeem abaixo da turma da Granja. Longe de mim desafiar o Frango!