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Caçafoicice crônica

(Postado em 06/10/09, às 10:17.)

Caçafoice é aquele sujeito que, por inexperiência, imprudência ou falta de talento, vive se expondo a perigo em cima de uma bicicleta: ignora as leis do trânsito, perde o equilíbrio quando vai beber água, não sinaliza seus movimentos, não respeita veículo ou pedestre, cai sozinho. Está, enfim, a todo instante, pedindo para ser levado pela Foiçuda — daí o nome.

É fácil reconhecer o caçafoice. Ele não usa capacete (ou o usa alto demais na cabeça), anda na contramão, pedala desavisadamente em lugares pouco recomendáveis, não dá a devida manutenção na bicicleta, xinga o motorista do carro quando se assusta. O caçafoice quase sempre começou a pedalar anteontem, mas gosta de aconselhar, dar explicações, contar histórias, demonstrar conhecimento.

Por falta ou por excesso, o caçafoice sempre peca. Ou está rindo muito, sinal de deslumbramento ou nervosismo, ou fazendo cara de mau, sinal de auto-afirmação — nunca está apenas tranqüilo. Ou não leva água e comida suficientes, passando sede, passando fome ou incomodando os demais com pedidos, ou leva uma imensa mochila com provisões para uma semana, quando uma banana ou uma barrinha de cereal teriam bastado.

Quando em grupo, o caçafoice prefere andar bem na frente ou bem atrás, nunca simplesmente no meio. Bem na frente vai o caçafoice bobo, iludido, querendo comunicar a todos que está forte e bem preparado, e que poderia estar andando mais rápido, não fosse o grupo; bem atrás vai o caçafoice consciente, evitando trair sua condição com barbeiragens involuntárias no meio do pelotão. Os do primeiro tipo, porém, costumam terminar os treinos com os do segundo tipo, porque se desgastam demais no começo, e sua pilha acaba.

A mulher do caçafoice sabe que seu marido não é um talento nato, pois há muitos indícios dentro de casa. O banho do caçafoice é demorado, porque ele chega em casa com uma corrente de graxa tatuada na panturrilha direita. Se houve algum furo de pneu, estarão imundas suas mãos e onde mais tenham elas encostado: testa, braços, pescoço, orelhas. O marido caçafoice gasta muito dinheiro na loja de bicicletas, mas raramente é para trocar seu equipamento por outro superior; normalmente, gasta-o com bugingangas — espelhinhos, faroletes, bolsinhas, cadeados, buzinas, garrafas térmicas, garrafas com canudos — ou com serviços muito simples que poderia ele próprio fazer. A mulher do caçafoice cuida do marido quando ele se rasga, se arranha ou se queixa de dores estranhas, mas evita pedir muitos detalhes — ela sabe que a culpa nunca foi dele.

Hoje conheci um belo espécime. Caça legítimo. Eu estava voltando do treino, às 7h da manhã, fazendo o trajeto da Estrada das Canoas à Mesa do Imperador, quando avistei o sujeito empurrando uma bela mountain bike de carbono. Parei, ofereci ajuda. Ele me pediu uma bomba, seu pneu traseiro estava arriado. Perguntei se não preferia trocá-lo, se ele tinha câmara-de-ar. Disse-me que tinha câmara, sim, mas que preferia apenas enchê-lo um pouco, o bastante para chegar em casa. Se precisasse, tornaria a enchê-lo em algum posto de gasolina, na rua Jardim Botânico.

Feito, agradeceu e saiu em disparada. Guardei a bomba, continuei, e logo estava novamente a seu lado. “Não é contra o relógio, é contra o vazamento de ar”, ele justificou, com esse trocadilho infame, nosso reencontro. Seu pneu estava novamente baixo. Sugeri que parássemos na Vista Chinesa para trocá-lo de uma vez. “Mas você tem a habilidade?” — perguntou. “Tenho”, respondi, “mas você tem câmara, né?” Ele tinha.

Paramos na Vista. O Rio de Janeiro, lá embaixo, estava sensacional. Não deve ter sido difícil escolher a sede das Olimpíadas de 2016. Difícil foi soltar o pneu da roda do caça. Acho que ele nunca tinha trocado aquele pneu na vida. Havia uma espécie de cola, uma gosma maligna dentro do pneu, grudando o pneu no aro, a câmara no pneu, a fita na câmara. Que lenha! Ele explicou que aquilo era um produto que ele costumava usar num outro pneu, do tipo sem câmara, mas que acabou usando naquele ali também. Com apenas uma espátula (a que eu tinha, mais do que suficiente para os pneus da minha speed), foi tarefa complicada.

Quis ser didático, e ele parecia interessado. Expliquei que devemos encher ligeiramente a câmara nova, antes de colocá-la no pneu, para evitar que ela dobre. Fiz o que disse, mas reparei que o ar escapava da nova câmara, mesmo com o pino devidamente fechado. Localizei o furo. Os furos. A câmara “nova” tinha dois belos furinhos, e seria impossível enchê-la. Como ele não tinha outra, sugeri que colocássemos de volta a câmara velha, que estava, por assim dizer, menos furada. Pelo menos poderíamos enchê-la de quando em quando, até chegar à civilização.

O pino da câmara velha, porém, enferrujado e ressecado, se partiu ao menor contato com a bomba. Restavam duas possibilidades. Uma: usar a minha câmara, para pneus maiores que os dele (aro 700 contra aro 26). A outra: estratégia MacGyver, enchermos o pneu de mato.

Vinham chegando ao local, no entanto, dois outros mountain bikers. Sugeri ao caça do pneu furado que tentasse desenrolar com eles, que lhes perguntasse se o venderiam uma câmara pelo preço justo de, sei lá, dez, quinze reais. O caça não tinha dinheiro — era um caça imprevidente! O que fiz foi pedir, eu mesmo, uma câmara em doação. Um dos mountain bikers disse que tinha quatro câmaras (que exagero! Um caça do outro tipo!) e que não se importaria em nos ceder uma. Nesse meio tempo, porém, o caça original tinha conseguido encher a câmara antiga, a do pino quebrado, e ela parecia estar esvaziando muito lentamente, mesmo com furo e sem pino. Vendo isto, ele recusou a câmara do mountain biker e disse que colocássemos aquela mesma. Fiz o que ele me pediu, após o que, novamente, saiu em disparada.

Fiquei um tempo na Vista, conversando com os dois mountain bikers e com outras pessoas que lá chegaram. O assunto era justamente a beleza do dia e da cidade, e a facilidade da escolha para 2016. Na despedida, um deles falou: “Aposto que o outro está lá pela cachoeira com o pneu vazio de novo. Devia ter aceitado a câmara.”

Não deu outra. Na cachoeira, bem no meio da descida, ele empurrava a bicicleta. Encostei novamente e emprestei-lhe a bomba — na verdade enchi para ele o pneu, pois ele estava com “lombalgia”. E repetiu-se a cena duas ou três vezes até que chegamos à rua Jardim Botânico. Agora, ele estava seguro. E, seguro, estava feliz. Não há nada como um caçafoice feliz! Que fez então? Saiu em disparada.


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18 comentários em “Caçafoicice crônica”

  1. edinho diz:

    Araponga, arauto das florestas!!! Que belo texto! Estou me matando rir aqui no escritório… ainda bem que estou sozinho na sala!!!!!!

  2. Fernanda diz:

    hahahahahaha
    Esse é um espécime curioso de caçafoice.
    Eu, pelo menos, sou do tipo humilde.

    Mas que ciclista nunca foi caçafoice um dia?

  3. Bruno diz:

    O Xarope é sempre cortês! :)
    Queria ter visto a cena de perto, seria uma aula de auto-controle, por que outras pessoas com certeza teriam largado o Caça sozinho. ;)

    Grande abraço!

  4. ILYDIO diz:

    Filho,

    Essa foi demais. Caçafoice….rssss…..Acho que esse tipo de “espécime” não existe apenas nas estradas e em cima de bikes….rssss… existem motoristas, pedestres, funcionários, etc…”caçafoices”….é uma raça que cresce em progressão geométrica.

    Ri muito aqui!!

  5. Renato diz:

    Demais! Deviam permitir a caça aos foices….

    Renato

  6. Andorinha diz:

    Pior que essa “raça” é mais comum no fim de semana….
    Tbm já fui uma caça foiçe de “prima”….heheheehe
    Agora sou só um pouquinho…..
    Valeu Arapa !

  7. Lu diz:

    Agora conheço um pouco do jargão de vocês.
    Beijo.

  8. Alessandro diz:

    Fê disse: “Mas que ciclista nunca foi caçafoice um dia?”

    E eu complemento:

    Quem não é ao menos um pouquinho? Acho que inexiste um ciclista que não tenha um mínimo de caçafoicice. Quando não pelos motivos bregas (buzinas, retrovisores, já tive, e feios que possam ser, têm sua utilidade), o são então pelos riscos (excesso de confiança em si mesmo e no resto do mundo – esses inclusive muito mais propensos a encontrar o ceifeiro).

    Aqui em SP (e acredito que no RJ e no resto do Brasil também) temos um nome para o caçafoices da MTB de carbono: MANÉ :-D

  9. Alessandro diz:

    E por que diabos você chamou o Buscema de caçafoice? Deve ser por causa dos abusos… Ou tá tão velhinho que a foice tá caçando ele? :-D

  10. vigusmao diz:

    O Buscema, de caça, não tem nada! Foi só uma maneira carinhosa de chamá-lo, mesmo. É como o “capivara” do xadrez ou o “perna-de-pau” do futebol. Às vezes o cara não é, mas você chama. :-)

  11. Mulher de Ciclos diz:

    Carácoles, me ESCANGALHANDO de rir aqui, GARGALHADAS ESTRONDOSAS!!! hahahahhahahaha

    E o pior é a capapuça entrendo… Não há um pedal em que eu não chegue em casa com marcas de corrente e as mãos todas sujas! Ah, na verdade, há sim: os pedais que faço usando calça.

    Conclusão a que chego: sou uma caçafoice da melhor qualidade hehehe. Adorei o texto, parabéns! Ah, claro, mais cedo ou mais tarde vou linkar lá no brogue, pode?

  12. vigusmao diz:

    @Thais (Mulher de Ciclos): Claro que pode! Obrigado pelo comentário!

  13. Lex Blagus diz:

    Excelente post, é o equivalente ciclístico do meu polêmico “Trilheir pé-de-frango” em http://blog.blag.us/trilheiro-pe-de-frango/

    fortes abraços!

  14. Mario Amaya diz:

    Desculpa, mas caçafoice é também quem não carrega um kit de reparo com cola e patches prontos. O texto é bonito, mas falha em não comentar essa questão. Tem kits prontos da Vipal, nacional e Zéfal, francês, ambos custam muito barato e não pesam nada. Nunca saio de casa sem um kit desses, e já me ajudaram muitas vezes (se bem que cada vez menos vezes desde que instalei a fita antifuro).

  15. vigusmao diz:

    Sim, Mario, cola e remendos podem salvar o pedal de um dia. Abraços.

  16. Carlos Eduardo Patussi diz:

    Nem me fala disso Vini, no domingo voltando de Gramado (eu mais o Márcio) deparamos com um desses, o sujeito estava parado no acostamento, nós já tínhamos subido e descido a serra, perguntamos se queria ajuda, foi nosso erro.
    O cabra j´chegou contando que éra pai da campeã de ciclismo de 1900e guaraná de rolha e seguiu fazendo das suas até que chamou seu filho de 12 (doze mesmo) anos, que esperava um pouco antes, o moleque atravessou sem olhar e por muito pouco não foi atropelado por um carro a 80Km/h, em seguida caiu a bomba do sujeito quase me derrubou pois vinha atrás com medo das seguidas barbeiragens, vi que o Márcio apertou o passo e não tive dúvidas, segui meu parceiro, não o vimos mais, pois em seguida quando concordamos com o risco, apertamos ainda mais e nem olhamos para traz. Deus me livre! Hehehe

  17. Celia diz:

    Caçafoicices generalizadas… caçafoicices à parte… os textos são sempre muito bons!
    Esperamos o livro com ansiedade.

  18. aimore diz:

    Não entendo nada disso de MTB ,mais tô gostando da leitura que a essa hora da noite e sem ter nada que fazer ,preenche a madrugada vazia. HEHEHE!!!! , a estrada da vida é uma festa ,apenas basta ter senso de humor e boa vontade.è vc tem jeito pra narrador,pode fazer o livro.

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