As bicicletas e o Pan
(Postado em 25/07/07, às 21:47.)Os resultados podem não ter sido maravilhosos — como era de se esperar, em um país com um ciclismo incipiente — mas a verdade é que ver atletas de elite derramando suor pelas ruas por que passamos no dia-a-dia já é uma festa em si.
Falo da prova feminina de estrada disputada no sábado passado, a única a que consegui comparecer. Queria ter ido ao velódromo, ao contra-relógio, ao BMX… mas não rolou. Fui, então, com a bicicleta e a câmera fotográfica em punho, para registrar todos os momentos, dos poucos que teria chance de presenciar.
Estava tudo muito organizado e tranqüilo, tanto quanto pude perceber. No Aterro, as passarelas sobre a pista eram ótimos postos de observação. Muitas pessoas as ocupavam, mas havia espaço para todos e consegui meu lugar, de bicicleta e tudo.

Torcida animada, ou pelo menos curiosa
Meu amigo Marcos também foi assistir a competição com sua bicicleta. Tiramos muitas fotos e conversamos com o Pedro e o Guiné, do Pedal.com.br, que encontramos por lá. Eu ainda fui laçado por uma repórter e um cinegrafista (”ih, olha ali um ciclista!”), que me entrevistaram para uma matéria sobre o Pan. Perguntaram-me várias coisas sobre o ciclismo brasileiro, o Pan, o que eu tinha achado do resultado e o que eu teria a dizer para as pessoas de casa. Eu deveria ter sido sincero — sequer sabia quem tinha vencido, ainda! — mas, quando percebi, estava embromando algo no melhor estilo jogador de futebol. Eles deram-se por muito satisfeitos, perguntaram meu nome, minha profissão (”quer dizer, se não for ciclista”), e se foram.

A pista ficou bonita com a reforma
Eu e Marcos, em seguida, animados pela visão das atletas pedalonas (lê direito, não é peladonas!), resolvemos sair para um pedal. A princípio, a idéia era dar uma volta até Niterói, comer alguma coisa por lá e voltar a tempo de ver a disputa dos homens. Mas aí foi a vez de dar-se o meu amigo por satisfeito e sugerir que aproveitássemos o dia maravilhoso para fazermos um pedal mais longo e seguirmos de volta para casa. Acabou que o vento nos levou para a Zona Sul, da praia para a Niemeyer, da Niemeyer para o Joá… e acabamos seguindo mesmo para casa para comer e ver o Pan pela TV. (Para acatar a complexa decisão de ir para casa e perder a prova masculina, 50% do que tínhamos ido ali para ver, eu tinha o álibi de estar gripado até a alma. Some-se ainda o fato de que seria transmitida uma etapa de contra-relógio do Tour de France na ESPN, e eu estava por alguma razão mais empolgado para ver o Vinokourov destruindo tudo na TV do que o Brasil tomando uma surra ao vivo.)

Marcos, no Joá, em sua Volare recém-comprada: melhorando a cada dia!
Só um parêntese: em Ipanema, passamos na loja Fast Runner e — juro! — eu vi e toquei numa Scott Addict toda em fibra de carbono que, de tão fantástica, pesava mais ou menos o mesmo que uma escova de dentes com pouca pasta. Quase passei mal. E quase atirei a bicicleta no teto. Sabe quando você vai erguer algo, achando que é bem mais pesado do que de fato é (pense num tijolo de isopor)? Pois bem, foi exatamente isso.
E agora um registro bisonho: do Joá para casa, em Jacarepaguá, fizemos um caminho alternativo por dentro do Rio das Pedras e passamos por uma mesquita muçulmana abandonada (sic) de cuja origem ou propósitos não faço a menor idéia. Estacionamos os veículos e começamos a xeretear e a tecer conjecturas sobre os possíveis planetas dos habitantes daquele castelo. Até que um cachorro latiu nossa presença para o caseiro (sic), que surgiu lá de dentro meio cabreiro, a princípio, mas amistoso, em seguida. Então soubemos da coisa da mesquita.
Pelas bicicletas hi tech, pelas atletas e pela experiência em si de acompanhar uma disputa internacional no quintal de casa, valeu demais. Valeu também por ver alguma gente se divertindo e torcendo, ainda que timidamente. Mas faltou alguma coisa. Acho que faltou a maioria das pessoas entenderem o que é que estava acontecendo (”pô, por que tá todo mundo juntinho?”, “ué, a brasileira tava indo bem, tava na frente”…). Ciclismo, na mídia? Nada. Niente. O que mais se aproxima são aquelas bicicletas que vêm de brinde na assinatura do jornal.
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July 25th, 2007 at 10:52 pm
De novo, eu não sabia, eu não sabia!
Sou tua irmã mesmo? Acho que é verdade o que você dizia quando me botava em pé na porta do box quando éramos crianças e apostávamos quem agüentava mais água (quente x fria) no lombo: sou adotada e tu tá me ignorando, zé bundão!
Beijo.
July 25th, 2007 at 11:46 pm
Ha! Eu te ignorando? Acho que é o contrário!
Até hoje não leu os últimos dias da viagem pra Europa. A melhor coisa que já fiz e os melhores textos que já escrevi.
July 26th, 2007 at 10:32 am
Dica para os pobres: Já que não vais comprar a Addict mesmo, quando for pedalar a escova de dentes troque a pouca pasta por Hipoglós
July 26th, 2007 at 11:31 am
Essa história da escova de dentes foi engraçada… na hora, levantando a bicicleta, eu apenas pensei “iaaaau, leve bagarai, que absurdo!”. Mais tarde, em casa, escovando os dentes, é que achei a escova de dentes leve, por algum motivo (talvez estivesse com pouca pasta mesmo, ou eu a tenha pego numa posição diferente do cabo). O fato é que eu lembrei NA HORA da Scott Addict. A mesma sensação, a de você ir erguer algo achando que tem um peso x, e, vai ver, tem peso x/2. Foi aí que pensei que não apenas a sensação tinha sido a mesma como provavelmente o próprio peso da bike era o mesmo que o da escova!!! Com pouca pasta!
July 26th, 2007 at 2:34 pm
Viiiii,
Já tinha esquecido como é bom ler o que vc escreve.
Não é só o fato de vc escrever bem pra caramba, mas principalmente porque eu quase vejo vc na minha frente…que delícia!!!
As saudades aumentaram, sem dúvida. O que fica mesmo é o orgulho que eu sinto de vc, do que vc é, do que vc faz e do quanto é gostoso saber disso.
July 26th, 2007 at 3:25 pm
Muito maneiro o texto, lembrei de uma frase do Athur Maia, “Se é bom de ouvir, melhor ainda é tocar”. Se é bom de ler melhor ainda é pedalar. Valeu muito o pedal. E afirmo com toda certeza a Scott realmete é mais leve do que a escova de dente da minha filha, mas sem pasta, com pasta a Scott é mais leve. rsrs
July 27th, 2007 at 12:35 am
Legal,Vi!
Dá prá sentir o vento no rosto, o calorzinho do esforço no pedal e o cheirinho de mar…
Com tanta sede de ler, desd’a infância, só podia dar prá escrever bem mesmo.
Agora, a “Mesquita” eu já conhecia, mas ficou muito melhor fotografada.
July 27th, 2007 at 9:01 pm
Vi….mais um texto muito legal. Agora me responde….do que a Lu está reclamando? Não entendi bem….rssss..
July 27th, 2007 at 10:16 pm
Às vezes, rapaz, seu texto brilha por uma reunião de motivos; outras vezes, é bastante a graça contida na idéia rápida e criativa, que anuncia a sua singularidade. É bom mesmo experimentar algo assim, leve e encorpado. Parabéns de novo!
July 30th, 2007 at 11:44 am
Fala Vinícius!
Concordo, o ciclismo aqui no Brasil é muito fraco para o potencial que temos, mas acho que está em crescimento.
Um evento como o Pan é muito importante para desenvolvimento de todos esportes e poder participar, mesmo que como espectador é muito bom.
Parabéns pelo texto.
July 31st, 2007 at 10:48 pm
Você sabe que uma vez matei aula pra procurar essa mesquita e fui parar no Recreio!!!! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs…
Achei!
bjo!
August 17th, 2007 at 4:59 pm
Vinissopolis,muito legal curtir suas aventuras,elas tem sido nossas parceiras neste inverno rigoroso!!!Amigos estão participando destas viagens!!!Abraço
February 25th, 2008 at 12:07 pm
Mais um lido! Mais um motivo de orgulho! São tantos… Vou saboreando aos poucos.
Obrigada por me proporcionar momentos de leitura tão maravilhosos.
Você me faz viajar sem sair de dentro do escritório… Muito bom!!!