Prainha
(Postado em 19/09/07, às 19:49.)Também não chego a ser essa seriedade toda de ciclista. Meu problema talvez esteja em não conseguir — ou, antes, não querer — concentrar todos os recursos físicos, mentais e temporais em uma única atividade. Veja, por exemplo, a meia-maratona em que me meti na semana passada. Às vezes, simplesmente, dá vontade de fazer outra coisa. Ou de não fazer nada.
A vantagem da bicicleta é que ela acaba aparecendo até mesmo quando tudo a que você se propõe resume-se a um mero e despretensioso passeio a um pedaço qualquer de paraíso. Foi o que aconteceu no último sábado. Lá estava ela, travestida em simples meio de transporte.
A vantagem da bicicleta como meio de transporte é que ela acaba transformando o que seria, de outra forma, a banal alteração da posição de um corpo ao longo do tempo em esporte, em brincadeira, em vida. E foi por esporte, por brincadeira, por vida, que entrei no vácuo daquele caminhão.
Senhores, não tentem fazer em casa; não é algo lá muito recomendado. Mas confesso meu pecado, com o sorriso do gato que acabou de engolir o passarinho — delícia. Ia eu naquela reta infinita (por definição, eu sei) que passa ao lado do Autódromo de Jacarepaguá. Muito tranqüilo, pensava no sábado, na semana, na vida e na morte, inclusive a da bezerra. O Éden em questão era a Prainha, recanto de surfistas, hippies, sereias e eremitas-de-fim-de-semana como eu. Era para lá que eu ia, a cabeça serena antevendo as horas de descanso naquela fusão do verde com os azuis marinho e celeste. Com o barulho e o deslocamento de ar característicos de bicho grande, passou rente a mim o enorme caminhão. Voltei à realidade da estrada.
Voltei à realidade de meus 35 Km/h ou coisa parecida. A quanto estaria aquele caminhão? A diferença não era grande, talvez estivesse ainda acelerando após um sinal fechado. Quem sabe se eu…? Num clique, subi algumas posições no passador traseiro, fiquei em pé e pedalei com toda a grosseria armazenada no âmago de meu ser. Deu certo: alcancei o caminhão! Uma vez alcançado, dele não desgrudei, nem mesmo quando chegamos a absurdos (para mim) 61,5 Km/h! Minha única experiência parecida tinha sido um vácuo de trator numa estradinha belga. Mas vou repetir: é perigoso e não farei mais. Nem você!
Ó Prainha, que jazes ali entre a mata e o mar, emoldurada por charmosas pedras e morros-mirantes bons de subir. Perdida entre Grumari e o Recreio dos Bandeirantes, és morada do Hemp, o hippie jogador de xadrez e vendedor de melzinhos, cereais e incensos. Foste, decerto, criada por um pintor com uma vasta palheta de cores e sentimentos — ou senão por Deus em pessoa, num dia de muita inspiração –, e possuis tantos atrativos que só um carrancudo ranheta poderia não abdicar vezenquando de um dia de treino para uma tal expedição diplomática a tuas benfazejas paragens. Obrigado pelas horas perfeitas que passei em tuas águas e areias, sob o sol que até parece teu. (Aproveita e dize ao Hemp que não me subestime e jogue que nem homem, ou o placar — Ciclistas 2 x 0 Surfistas — será impiedosamente ampliado.)
O passeio foi isso: uma ida à praia feita em expedição fotográfica feita em treino feita em match de xadrez. Com direito a furo de pneu, no final, que de perfeição em excesso fomos ensinados a desconfiar.
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September 19th, 2007 at 10:20 pm
Coisa simples com pompa e circunstância. Vezenquandar assim é bom.
September 20th, 2007 at 9:06 pm
Pedalar assim é navegar através de emoções e sentimentos. Um grande abraço.
September 24th, 2007 at 4:24 pm
Ô Vinicius, nem todo surfista é “Hemper”.
Conheço mais de 5 que não são (e me incluo nestes- tá bom seis então) hehehehe!
September 24th, 2007 at 4:38 pm
Sim, sim. Mas o apelido do sujeito é que é Hemp, mesmo!