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Doping: por que não param todos?

(Postado em 19/12/08, às 8:40.)

O doping no esporte é milenar. Não faço, não aconselho, considero abominável. Mas não quero discuti-lo aqui.

A questão é: se todos se dopam — como tantos afirmam, supostamente com conhecimento de causa –, então por que não param todos de se dopar? A saúde agradeceria, e os atletas passariam pela linha de chegada na mesma ordem relativa.

Infelizmente, não é tão simples. O doping no esporte ilustra uma situação conhecida em Teoria dos Jogos como Dilema do Prisioneiro.

Dois malandros são detidos, suspeitos de um crime. A polícia está convencida de que foram eles, mas não tem provas suficientes para condená-los. O jeito é fazer com que um entregue o outro. O que fazem, então? Com os dois detidos em salas separadas, incomunicáveis, abordam cada um dos suspeitos, separadamente, com o seguinte discurso:

“Sabemos que foram vocês. Esta é nossa proposta: se você entregar o seu parceiro, ele vai em cana, deve pegar 10 anos, e você tá livre, vai pra casa. Simples assim. Mas se você não quiser abrir o bico, e ele entregar você, aí é você quem vai pegar os 10 anos sozinho, ele tá liberado. É claro que, se um acabar entregando o outro, ficam os dois presos hehehe… mas nesse caso, porque colaboraram, não vão pegar mais que 1 aninho ou 2…”

Face a esta situação, de que maneira cada suspeito irá raciocinar?

“Hmmm… se ele me entrega…
a) …e eu não o entrego, vou preso sozinho por 10 anos, ele tá livre.
b) …e eu também o entrego, pego só 1 ano ou 2, junto dele.
Nesse caso, é muito melhor eu entregar o cara!”

“Por outro lado, se ele não me entrega…
a) …e eu também não o entrego, dificilmente iremos presos, por falta de provas, mas é certo que vamos levar uma dura, provável que nos quebrem uns ossos, sei lá do que esses caras são capazes…
b) …e eu o entrego, tô imediatamente livre, sem nem um arranhão.
Nesse caso, também é bem mais garantido entregar o outro!!!”

Conclusão: em qualquer caso, não importa o que o outro faça, o melhor para cada um, individualmente, é dedurar o outro cidadão. Sem falar do medo de não trair o outro mas ser pelo outro traído, situação essa em que aquele que foi leal pegaria a pior pena possível. E é assim que os dois acabam delatando o companheiro. A polícia tem o que queria, dois réus confessos atrás das grades. Se ninguém tivesse dedurado ninguém, a melhor situação para a dupla teria acontecido: eles no máximo levariam uns tapas e seriam soltos. Mas como quis cada qual o melhor para si, um terá o outro como companheiro de cela.

Na vida real, a todo instante temos aplicações desse conhecido paradoxo, e o doping no ciclismo é um deles. O melhor para o grupo — e para os espectadores, e para o esporte — seria, evidentemente, ninguém se dopar. O problema é o raciocínio à prisioneiro: “não posso ter certeza de que outros não vão trapacear. Então, se eu não me dopo e os outros se dopam, tenho a pior pena possível: resultados medíocres, fracasso. E se, por outro lado, nem todos se dopam, mas eu me dopo, tanto melhor, estou em vantagem.”

Pessoas movidas a individualismo e a desconfiança, falta de ética e de lealdade. É assim na economia mundial, na corrida armamentista, nas campanhas eleitorais, no meio corporativo, se bobear até em relação marido-mulher. Uma pena, mas não é no ciclismo que ia ser diferente.


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7 comentários em “Doping: por que não param todos?”

  1. Jorge Luis Nogueira diz:

    Lembrando que a pratica do mountain biking leva o noss corpo a produzir, endorfina e serotonina que nos fazem sentir muito bem após as pedaladas e isso por mais intenso que tenha sido o esforço, por isso sempre gostamos de pedalar e se pararmos por um tempo maior logo já ficamos incomodados. Se já temos esse “doping ” natural para que essa galear fica procurando problemas, sei que é difícil , porque os atletas vivem para competir e muitas das vezes esse é seu meio de vida, mas mesmo assim tem que segurar a onda e manter a dignidade e ao mesmo tempo preservar a saúde pois essas drogas sintéticas e anabolizantes fazem um estrago. Texto interessante e que se aplica ao caso: ” De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça,de ver agigantar se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir se da honra , a ter vergonha de ser honesto.” Rui Barbosa visite nosso blog: canelasdeaco.blogspot.com e também nosso site: http://www.amigosdabikerj.com Ass. Jorge Nogueira, Resende RJ

  2. Rafa diz:

    Muito bom Vi.
    Abração, Rafa

  3. Hermes A. Borges diz:

    Eu já sou partidário do seguinte: legalizar a coisa. Aí o diferencial volta a ser o treinamento. É a velha história do “se existe contrabando, é porque há alguém facilitando.” Nessa brincadeira de gato e rato, o primeiro sempre sai perdendo. (E eu achei fenomenal o texto do Coringa, em “The Dark Night” – filme -, onde ele resume bem o problema que nos assola – e que nos assolará para todo o sempre -: ‘it’s all about money!’”

  4. claudio & tania diz:

    Excelente Vi, vou usar este na escola. Hoje em dia quando assisto alguém cruzando a linha de chegada, fico sempre com a pulga atrás da orelha, principal-
    mente em grandes eventos. É muito triste, principalmente quando se trata de um
    “atleta
    abraço.

  5. Julio diz:

    A corrida é “armamentista”, não “armamentícia”.

  6. vigusmao diz:

    @Julio: tem razão, obrigado!!! Já corrigi! :-) Abraço.

  7. amiga oculta diz:

    É Arapa: o bicho pega, mata e come!

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