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Agulhas Negras

(Postado em 22/08/07, às 0:58.)

Um baiano, dois cariocas, cinco paulistas, dezesseis pneus cravudos e uma montanha com pico a 2790 metros de altitude — eis os personagens.

Faz quase três anos que tudo começou. Nos preparativos para minha primeira grande viagem de bicicleta, cogitei atravessar a Mantiqueira e seguir pelos mui convidativos lugarejos do interior de Minas, ao invés de simplesmente acelerar em frente, alheio a tudo em volta, pelas rodovias principais. Além de trocar correspondência com prefeituras e centros turísticos das cidades que figurariam no tal trajeto bucólico que acabou não acontecendo, iniciei um tópico no fórum de cicloturismo do Pedal.com.br para colher informações sobre o trecho de estrada que, àquela época, mais me preocupava: a subida, pela BR-354, da Dutra até a chamada Garganta do Registro, divisa RJ-MG localizada a 1670 metros de altitude.

O tópico, a pricípio, ficou meio às moscas; aos poucos, porém, tantas mensagens foram aparecendo que o vi transformado no tema mais debatido daquele fórum. O principal motivo de tamanha comoção popular foi a organização de um passeio confraternizatório com partida exatamente ali, na Garganta do Registro. Destino: o Posto Avançado das Agulhas Negras do Parque Nacional do Itatiaia, de onde se chega à base — ou ao topo, dependendo de sua disposição! — da quinta montanha mais alta do Brasil, ponto culminante do estado do Rio de Janeiro.

Tal como aqueles improváveis namoros de Internet que começam desacreditados (principalmente pelos outros!) mas que acabam dando em casamento, rede na varanda, uma penca de netos e todo mundo vivendo feliz-para-sempre, o mega-encontro ia mesmo acontecer e estava fadado ao sucesso. Tanto ia mesmo acontecer que deixou muito marmanjo, na véspera, em contagem regressiva das horas. E tanto seria um sucesso que viria a fazer muito barbado não se concentrar no trabalho, nos dias seguintes, na lembrança de cada momento recém-vivido, como meninos na volta às aulas do mês de fevereiro.

Goela da Torneira, 9h05 de sábado, 18 de agosto de 2007. Chega ao ponto de encontro, com cinco minutos de atraso, o terceiro carro do grupo: vindo do Rio de Janeiro, transportava a mim e ao Fabricio, meu mais constante companheiro de pedal. Os dois carros que lá já se encontravam haviam chegado de Itu, com o figuraça Alessandro e o poeta Edinho (”pelo ronco, pelo berro…”), e de São José dos Campos, com o grande Marcos e seu macarrão infalível. O quarto e último carro chegaria em poucos minutos, vindo de Campinas. Dentro dele, Satoshi, excelente pedal e exímio localizador de bons pontos de apoio para câmeras fotográficas com disparo temporizado, o bom copo e descedor-de-escadas-suicida Marcelo Perine e, finalmente, o velho amigo Baiano, vulgo Sr. Alpe d’Huez, com quem cruzei as estradas do Velho Mundo no começo de abril e que desde então não tinha ainda reencontrado.

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Prontos para partir

Heterogêneo quanto à origem, idade, apetite, compleição física, teor etílico do sangue, presença e quantidade de pelos na cabeça e predisposição a tombos nos minutos finais, o grupo era homogêneo no que tinha de ser: o sentimento de sintonia e fraternidade que se estabeleceu, desde o primeiro minuto, em cada um de nós, a montanha incluída.

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Marcos, Alessandro e Edinho

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Satoshi, Baiano e Perine

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Fabricio, as Agulhas Negras e eu

Depois dos cumprimentos, ajustes mecânicos, risadas, trocas de roupa, chamados da Natureza (desmijos) e das primeiras fotos, começamos o pedal ladeira acima. A estradinha — que é na verdade uma via federal, a BR-485 — começa em asfalto ruim e margeada em ambos os lados por vegetação cerrada. As duas características logo se transformam: o asfalto ruim é substituído primeiro por asfalto horrível, depois por asfalto ainda pior com pedras soltas (e isto não é, de jeito nenhum, uma reclamação!) e finalmente por aquela típica mistura de terra e pedregulhos que às vezes levantam vôo e dão nas suas canelas; a vegetação cerrada dá lugar, primeiro à esquerda, depois à direita, depois novamente à esquerda, depois novamente à direita e por aí vai, a uma vista deslumbrante.

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Primeira visão da imensidão

A subida era puxadinha, então o velho pretexto de parar para tirar fotos foi muitas vezes empregado.

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Foto estratégica

Uma parada interessante que fizemos foi no chamado Brejo da Lapa, pequeno vale que Getúlio Vargas pretendia represar para servir de pouso a hidroaviões! (Sim, o homem tinha um refúgio por aquelas bandas, a chamada Casa de Pedra — que valeu, por sua vez, belas fotos.) Havia ali um riacho, ou coisa parecida, e muitas foram as ameaças de saltá-lo de bicicleta, mas a faixa de água era larga demais e nenhuma delas se concretizou. Foi também no Brejo que o Fabricio deu uma demonstração involuntária de como se abandonar uma subida muito íngreme e estreita descendo de ré, sem cair. (Mas as partes baixas doeram que eu vi!)

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Casa de Pedra, no meio do nada

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Brejo da Lapa

Se pedalar sozinho é bom, com aquele grupo estava sendo — e aposto que tínhamos, cada um de nós, a consciência perfeita disso — uma experiência inesquecível.

E tome subida! Para quem gosta, prato cheio. Quem não gosta, esses ou têm sangue de barata ou passam a gostar. Impossível não vibrar com a conquista de paisagens cada vez mais espetaculares.

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Dois quilômetros acima do nível do mar

Muita, muita subida depois, chegamos finalmente à entrada do parque, onde fizemos um lanche mais reforçado, tiramos fotos e pagamos os doze reais por cabeça para passar pela porteira. Estávamos um pouco apreensivos de não podermos passar com as bicicletas, mas a lábia e bem-falância de nosso amigo Alê, vulgo Cepacol, descomplicou a situação e o guarda liberou nosso acesso sem grandes tumultos. Queríamos ir até o fim da linha, no ponto onde acaba a estrada — que logo se pareceria cada vez menos com uma! — e começa, para quem se aventura, a caminhada pelo mato até as Prateleiras com aqueles picos todos.

– Só acho que vocês não vão conseguir chegar até lá, não! — considerou, incrédulo, o guarda.

– Deixa que isso é a com gente! — retrucou um decidido Cepacol. Merecia urras da turba ensandecida, à moda daqueles escoceses do Coração Valente!

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Na entrada do parque

Aí começou a parte que fica agora parecendo um sonho, de tão distante de tudo que é cotidiano, de tudo que nos lembra o mundo real. O chão virou simplesmente um amontoado de pedras, intercalando trechos muito difíceis de se pedalar com outros simplesmente impossíveis. A paisagem assumiu contornos marcianos. Não havia vento; bichos também não havia. O silêncio, total; você quase podia ouvir o barulho da barba crescendo, se ficasse parado. O que quebrava o silêncio eram os nossos sons e só. Sons de pedrinhas esmagadas por pneus macios, de pedrões pisados pelo duro solado das sapatilhas, sons da terra se abrindo às bicicletas valentes. Sons de corrente girando, de conversa jogada fora, de amizade crescente. E, na clareira final, som também do parabéns-pra-você surpresa que cantamos para o Alessandro, aniversariante da véspera. Com direito a bolo levado pelo Fabricio!

Como não podia deixar de ser, a parte mais visualmente inebriante da jornada desafia minha vontade de tentar descrevê-la. De qualquer forma, feliz do escritor que pode contar com imagens tão por-si-só-falantes.

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Outro mundo

Na volta, enorme descida nos aguardava. Tudo correu bem na primeira metade, e fizemos uma parada na Casa de Pedra para mais conversas, piadas, lanche e fotos. Eu fui o que desceu mais lentamente e cheguei em último. Em parte por inexperiência em trilhas daquele tipo (de qualquer tipo!), em parte pela suspensão de minha bicicleta ser das menos robustas, em parte por parar para tirar fotos na luz macia do fim de tarde. Em parte por puro medo.

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Entardecendo na Casa de Pedra

Na segunda parte da descida, porém, soltei os freios e cheguei com a primeira metade do grupo. Estávamos em clima de missão cumprida, diria até de certa incredulidade quanto à qualidade excepcional do que acabáramos de viver. Comentei, então, sobre não ter havido qualquer imprevisto além de um insignificante furo de pneu na bicicleta do Marcelo. Arrependi-me imediatamente: o dia ainda não tinha acabado. Onde estava o restante do grupo, afinal? Eis que chega o Fabricio dando a notícia de que o Alessandro tinha caído em velocidade, na descida, e se machucado. Uma de suas rodas parecia um oito. Na mesma hora, Satoshi subiu de carro e resgatou nosso amigo ferido, que, apesar do susto, passava bem.

Os ituenses despediram-se, assim, mais cedo do grupo, já que os ferimentos do Alê requeriam assepsia e cuidados mais consistentes. Sabíamos que não era nada que uns pontinhos, um antibiótico e uns tapas de esposa não dessem jeito mas, de qualquer forma, o mais prudente era que eles voltassem dali. O restante de nós desceu a serra para o lado mineiro; passaríamos a noite na cidadezinha de Itamonte. Com a exceção do Marcos, que apenas jantaria conosco e voltaria, logo em seguida, para São José dos Campos.

Apesar do acidente com nosso amigo — que, por ironia, era o que mais recomendava cautela ao grupo –, o pedal foi um grande sucesso, deixando em todos nós uma uma enorme, inenarrável satisfação. Fica também o exemplo de encontro que, bem organizado, deixa apenas boas recordações, gosto de quero-mais e o prenúncio de uma amizade duradoura (e pensar que nos conhecemos pela Internet!…) Que possa, enfim, servir de estímulo a muitos outros.

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Fim da linha

P.S.: Em Itamonte, teve pizza, preço de hotel chorado, caminhada pelas ruas, papo-furado com umas moçoilas, comunicação difícil com o vigia da igreja da praça e muito mais bate-papo entre a gente. E, é claro, uma noite de sono refazedora e necessária para o dia seguinte, quando novas aventuras nos aguardavam. Mas essa já é outra história.

P.S.S.: O Alessandro teve três dias de folga no trabalho e se recupera bem. Os tapas devem ter funcionado.

Veja também:
– o mapa e os números da trilha;
– o álbum de fotos completo.


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23 comentários em “Agulhas Negras”

  1. Marcelo Perine diz:

    Exelente relato !!!

    Relembrei cada comento da pedalada.

    As fotos entao, sao de profissional. Parabens !!!!

    Grande abraco.
    Marcelo Perine - Descedor de escadas hahaha

  2. Renato diz:

    Caramba, você narra tão bem que parecia que eu estava andando junto. Mas não é verdade, eu estava lendo bem sentado, aqui no escritório, e morrendo de inveja!

    Parabéns pela narrativa, pelo passeio e pelos novos amigos.

    Renato

  3. Simone diz:

    Show … muito show, qse senti o vento no rosto perfeito.
    Espero que seja o primeiro de muito passeios com a
    “gang do pedal” hahahha.
    As fotos ficaram bem bacanas tb,pena que o baiano não
    levou os balões, que eu tinha encomendado pro Ale :p

  4. Satoshi diz:

    Belo relato! Belas fotos! Show de pedal!
    Como é bom lembrar esses momentos, saber que um grande círculo de amizades nasceu deste encontro!

    Abraços,

    Satoshi.

  5. Baiano diz:

    Pedal realmente inesquecível! Novas amizades, reencontros com alguns ex-parceiros de pedal (Vinivìus, se na Europa tinha faltado subida essa não faltou!), fotos perfeitas para registrar e um relato que dispensa comentários para relembrar com o gostinho de “quando vai ser o próximo?”

  6. Edinho diz:

    Poxa, relato bacana e fiel da aventura toda! Faltou falar que eu levei dois sacos inteiros de pão pulmann com queijo e peito de perú… que todo mundo tirou sarro… e que todo mundo comeu no final do sábado!!!

  7. Satoshi diz:

    E ainda bem que relato não tem cheiro. Alguns mandaram ver no Luftal.

  8. vigusmao diz:

    HUahuahuahua! Vocês são umas figuras…

  9. Edinho diz:

    “Satoshi diz:
    August 22nd, 2007 at 3:34 pm

    E ainda bem que relato não tem cheiro. Alguns mandaram ver no Luftal.”

    Pelo ronco, pelo berro… ahahahaehehehehahahuahuahuahuahuahuahuahuha

  10. Baiano diz:

    Não tem cheiro mas pode ter audio! hehe Para o pessoal que fez os filminhos pode ter alguns ruídos não identificados hahahahahaha

  11. Baiano diz:

    Ah! Teve outra coisa quebrando o silêncio do parque… Um certo diálogo:

    Edinho gritando: Alê????????
    Alessandro: Que?
    Edinho gritando ainda mais alto: £$µ%@#!!!!!

  12. vigusmao diz:

    …e o Perine completando: “e eu ainda cantei parabéns pra ele!…”

    O fato é que sofremos um pouco nos trechos de pedregulhos onde era impossível pedalar. Tivemos que carregar as bicicletas nos braços um bom tempo. Inclusive ladeira acima, na volta, na parte ainda dentro do parque. A culpa pelo “sofrimento generalizado” teria sido do Alessandro, que foi o principal organizador da coisa toda. Mas estávamos todos adorando, isso sim.

    Sobre eventuais odores ou ruídos de natureza gasocorporal, digamos que a diferença de pressão atmosférica tenha propiciado aos mais empolgados membros do grupo algumas expontâneas e pirotécnicas demonstrações de fraternidade. Nada benvindas, nada benvindas… :-)

    Abraços,
    Vinícius.

  13. Alessandro diz:

    Ralado é uma MERDAAAAAAA!!! :p

    E pancada na patela é uma merda AINDA PIOORRRR!!!! :D

    Não tive tempo de ler direito, mas nem vejo a hora… Abraço a todos os companheiros!!! EU ESTOU VIVOOOOOOO hahahahaaa

  14. Satoshi diz:

    Esperem o vídeo!!!
    Vai ter muitos sons estranhos rolando durante a exibição. Hehehe

  15. vigusmao diz:

    Olha o Cepacol aí, gente! Que bom que sobreviveu, cara. O urubu quase teve razão, dessa vez.

    Putz, não vejo a hora de assistir aos vídeos…

  16. Adriano Diniz diz:

    Show !!! As imagens não os deixam mentir , passeio fantastico. Parabéns a todos.

  17. Alessandro diz:

    Ô Vinicius, a propósito… Vai escrever bem assim na casa do cacete!!! Eu achava que você era professor de línguas!!! Algoritmo? NEM PENSAR!!!!

  18. vigusmao diz:

    :-)

  19. ILYDIO diz:

    Linda aventura, excelente texto! Parabéns a todos do grupo. Aguardo os vídeos.

    Ainda bem que o texto não tem odor mesmo….rsssss….seria fogo…com tanto sanduiche de queijo e peito de perú….

    Um abraço a todos do grupo,

    Ilydio (Pai do Vinícius)

  20. Cida diz:

    Li. E Vi.

  21. Gustavão diz:

    Demais. Eu mesmo que sou do Rio não fazia idéia da beleza desse lugar… Mais esse encontro Rio-São Paulo… O que dizer? Pedal histórico… Parabéns a todos.

  22. Leandro diz:

    Que passeio…..
    Que relato……..
    Que fotos……..
    Que inveja de vcs hehehehehe
    Vou ter que fazer este passeio!!!!!!!!

  23. Luís Guilherme diz:

    pô gostei de vcs virem ak em ita…
    na usina dos bragas e no parque nacional…
    qnd vcs vierem pra ita de novo me da um toque q eu vou cm vcs..
    eu sou dk msm de ita…
    t +…

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