Agulhas Negras 3
(Postado em 15/08/08, às 17:59.)Sim, senhores, lá vamos nós outra vez.
Nem passa pela minha cabeça tentar novos argumentos ou descrições românticas para convencer o leitor cabeça-dura a garimpar um espaço em sua apertadíssima agenda e ir conhecer o Parque Nacional do Itatiaia, de preferência a parte alta, com os morros falantes. O leitor será, certamente, muito mais hábil com as justificativas de sua recusa: ele não tem bicicleta, ele não tem quem o acompanhe, ele prefere ler a respeito, ele não tem tempo, ele não quer ir e pronto. Muito bem, não vamos brigar.
Conheço alguém que também não tinha bicicleta até o último Natal, e que resolveu pedalar da Garganta do Registro, a 1670 metros de altitude, até o Morro da Antena Sinistra, a mais de 2600. Para isso, treinou meia dúzia de vezes e se infiltrou no grupo que ia fazer o tal passeio, tudo gente infinitamente mais experiente do que ela. Sim, ela. Estamos falando da Bianca, a namorada deste vosso narrador.
Não eram nem 8h da manhã quando Bianca e eu paramos no Graal de Itatiaia para um lanche. Enquanto comíamos, começou a chover, e a chover muito. Chegamos a pensar que o passeio tinha ido por água abaixo, mais ainda quando o carro se recusou a ligar para nos levar dali. Pane elétrica, qualquer coisa assim, nem sinal de vida. Fiz, então, o que faz todo homem nessa situação: abri o caput. E depois fiquei olhando lá pra dentro com cara de tacho, mantendo, ainda, a tradição. É claro que precisávamos de ajuda.
Eventualmente, acabamos localizando um eletricista, depois outro eletricista, depois um curioso risonho e falante, depois o irmão-guru do segundo eletricista. Foi esse irmão-guru, meio sério, meio calado, meio cabelo-black-power, que deu o veredito final, em que condenava a rebimboca da parafuseta do rubbles de arranque. O que importa é que, mexe daqui, mexe dali, toda aquela equipe acabou conseguindo remendar alguma coisa que conferiu ao automóvel certa sobrevida.
Chegamos, então, bastante atrasados, ao ponto de encontro, na Garganta do Registro. Já era quase meio-dia. Estacionamos, pegamos as bicicletas, demos um oi generalizado, vestimos a indumentária ciclística e, sem mais delongas, a brincadeira começou. A boa notícia era a chuva, que tinha ido embora.
O grupo estava bem heterogêneo, dessa vez. De veteranos das duas edições anteriores da aventura, havia apenas eu e o Edinho, que estava com Estella, sua esposa. O todo-cauteloso Alessandro Cepacol Underscore SP Alê, idealizador do projeto e mestre-dos-magos turístico, fotográfico e tômbico de todos nós, teria sido o outro único elemento presente às três agulhadas, se tivesse vindo, como viria, com sua digníssima esposa; impediram-no, entretanto, motivos de força maior. Das trevas, ressurgiram os saudosos Perine e Marcos, que estiveram naquele inesquecível 18 de agosto de 2007. Bom revê-los! Agora, os calouros: Bruno, Diógenes e Felipe, companheiros de outras pedaladas e outras histórias (em estradas mais lisinhas!…); o casal Renato e Mila, de Campinas; e, de de Itu, o casal Marinho e Bel, com os filhos Henrique, Rodolfo e Eduardo. Estella, Mila, Bel e Eduardo, o mais novinho, comporiam nosso “carro de apoio”.
Foi tudo muito tranqüïlo. Paramos nos lugares de sempre, ao longo do caminho: Casa de Pedra, Pontezinha da Árvore do Saco, Brejo da Lapa, os mirantes sensacionais. A gente, que já conhece, fica se sentindo meio anfitrião, meio preocupado se todos estarão gostando, como se fôssemos os donos da festa. “Olha essa vista”, “você ainda não viu nada”, “espera até chegar lá em cima”, por aí vai. E vamos contando as histórias e os causos, galvãobuenizando o momento. É irresistível, mas, se querem saber, nem precisávamos falar nada — pra quê palavras?
A propósito, Edinho me explicou que não seriam helicópteros, mas hidro-aviões, os veículos que, numa emergência, levariam Getúlio Vargas, que Deus o tenha, para seu pretenso esconderijo na Casa de Pedra. A idéia exótica do hômi era inundar todo o Brejo da Lapa para servir de pouso a seus batráqueos voadores. Talvez tenha começado mesmo a fazê-lo; aquela poça, pelo menos, está sempre lá.

Todos juntos na Pontezinha da Árvore do Saco
Quis a História que o Brejo escapasse de seu destino de hangar da Casa de Pedra e se tornasse algo como um enorme quintal com uma poça e uma pistinha de downhill. Sendo assim, os mais empolgados, como sempre, resolveram descer aquele barranquinho. A novidade é que, desta feita, houve um que conseguiu subir de volta! (Parabéns, Henrique! Técnica e raça! Uma aula!) Tudo, aliás, devidamente filmado pela Bianca.
Falando nela, minha maior preocupação era, evidentemente, sua integridade física. Não queria que se machucasse nas pedras, ou que forçasse demais o ritmo no começo e acabassem-lhe as pernas antes da hora, essas coisas. Mas deu tudo certo, e ela se saiu muito bem, enchendo-me de orgulho. Tão bem, na verdade, que, em retrospecto, vejo que eu poderia ter ficado bem mais relax.
Deve haver uma lei, quem sabe do próprio presidente Vargas, proibindo o trânsito de cúmulos-nimbos por aqueles céus. É sério. No espaço de um ano, foram três dias de sol e céu azul em três passeios por lá; isso dá cem porcento de aproveitamento. Desta vez, as únicas nuvens que vimos foram, na verdade, uns verdadeiros algodões cenográficos, bem abaixo de nossas cabeças. E que foram colocados ali, na certa, apenas para aparecer nas fotos que já seriam, sem eles, absolutamente perfeitas. Sem qualquer provocação com o Cepa, o Baiano, o Satoshi, os Fabrícios, a Sra. Bruno Pinheiro e todos que não puderam acatar nossa intimação de comparecimento, deixo meu testemunho de que foi um dos dias de sol mais perfeitos dos últimos tempos. O azul do céu era tão intenso e imaculado, quase de mentira, que parecia em primeiro plano, roubando a cena. Photoshop não faria melhor.
E eis a guarita, na entrada do parque, anunciando a hora do lanche, com direito aos clássicos damasquinhos desidratados do Edinho, e o fim da subida. Fim da subida para os carros de apoio, é claro!, que nós ainda iríamos até a antena maluca. E até a antena fomos todos, tanto quanto eu saiba, pedalando até o fim. Parabéns ao grupo, que pôde desfrutar de uma vista verdadeiramente esplendorosa.

Bela cena de pai com filho, e outra de namorados famintos
Lugar fantástico. Acho que ninguém se decepcionou. Meu pedido de desculpas vai, na verdade, para o Pico das Agulhas Negras e seus irmãos menos famosos. Os amigos foram tantos, e o tempo, tão pouco, que nem falei com eles (os morros) direito. Aqueles dois minutinhos de paz total, de transe, de contato reservado com a natureza, com algo maior, com qualquer coisa que é ao mesmo tempo passado e futuro, não importa o nome que se lhe dê. Acho que fiquei devendo. Já os amigos de carne e osso, esses foram devidamente abraçados, que é tão bom fazê-lo, já que as estradas da vida são tantas, e nem sempre convergentes. Os morros hão de entender. Eles, afinal, não têm desses desencontros; eles estão sempre lá.
Visita de médico. O tempo foi suficiente apenas para batermos (um bocado de) fotos; para a Bianca tirar um cochilo, e depois, levar o tombinho que eu tanto temia na trilha pedregosa, sendo prontamente socorrida pelo Bruno e pelo Diógenes, que estavam por perto; para o Renato esquecer sua mochila no alto do morro da antena e ter que voltar lá para pegar; para eu comer um monte de maçãs e Polenguinhos; para olharmos à nossa volta e pensarmos “caramba”. E foi isso.
Quer dizer… depois teve ainda aquela descida sensacional, mas fazia tanto frio que me recuso a contar. Só de lembrar já começo a bater os dentes.
Mas é de você, meu bom leitor, que precisamos falar. Se os primeiros textos das Agulhas foram dedicados aos próprios morros e companheiros de aventura, este é para você, que nunca esteve lá, que ainda não fez algo parecido. A vida é muito curta, mas, paradoxalmente, ainda há tempo, e sempre há.
Eu sei, eu não resisto, mas a intenção é a melhor possível. Vamos lá:
1) Bicicleta — o tipo de invento de que todo mundo gosta, ou pelo menos tem simpatia por, e já usou alguma vez na vida. Por que não comprar logo uma boa, agora que você não precisa mais escrever um bilhetinho “não se esqueça da minha Caloi”? Acredite, é animador. 2) Companhia — não sei se a Internet funciona direito para promover casamentos ou namoros, mas, para descobrir quem queira encontrar você na Garganta do Registro e pedalar morro acima, serve muito bem. Se preferir, pode me chamar, e iremos juntos. Depois você ainda ganha um texto de brinde. 3) Prazerosas leituras — um livro é algo muito bonito, quase sagrado, uma das invenções mais incríveis; mas seus filhos não teriam nascido se você tivesse apenas lido a respeito, certo? 4) Tempo — em geral, quando alguém diz que não tem, é porque tem, e não sabe; os que menos têm são os que menos dizem: inventam. 5) Vontade — estou fazendo a minha parte. Um grande abraço. Ainda pedalaremos juntos por aí!
PS.: Relendo o texto, me ocorreu que os grandes amigos são como aqueles morros. Eles também sempre estão onde precisamos que estejam.
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August 15th, 2008 at 6:14 pm
Como é bom lembrar desse fim de semana com pessoas tão queridas!
Muito obrigado Vinícius!
A Bianca meus parabéns novamente, mostrou muita coragem e força. Vocês tinham que ver como ela desceu, com as mãos congeladas de frio e ainda cantando a música do Fagner! hahahaha como foi bom!
Ps. O nome do eletricista que ressucitou o carro é LINHO!
August 16th, 2008 at 11:58 am
Gostaria muito de ter sido a primeira pessoa a postar um comentário neste, mais uma vez, belíssimo texto.
Gostaria de ter sido a primeira por ter feito, pela primeira vez, parte deste elenco.
Mas não tem problemas, pois o Bruno (acima) inaugurou com louvor (falando bem de mim - ahahaha) a futura extensa lista de comentários.
Ganhar este texto de brinde é como voltar àquele lugar, realmente mágico. É reviver cada momento e desejá-los em uma nova oportunidade.
Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer a todos, que foram muito atenciosos comigo.
Estamos de parabéns!!!
August 16th, 2008 at 6:51 pm
Mais um texto sobre estes morros e vou ser obrigado ir para conferir! Quem sabe!?
Abraço,
Renato
August 16th, 2008 at 8:45 pm
Muito boa a pedalada de hoje.
Parabéns pela subida da Serra, gostei da garra.
Fui a Visconde de Mauá na Terça - Feira após o fim de semana da viagem de vcs, encontrei o Perine (peguei carona com ele por acaso) e passei 3 noites com - 3ºC, realmente estava muito frio, tinha gente lá dizendo que na parte Alta do Parque estava - 7ºC.
Um abraço, Fernando Padilha
August 17th, 2008 at 3:48 pm
Bianca, me desculpe!
Mas dessa vez eu fui favorecido com informações secretas! Eu estava falando com o Vinícius pela internet quando ele disse: Vê lá! Fresquinho… acabei de publicar!
August 18th, 2008 at 10:54 am
Não é fácil escrever depois de um texto do Sr Vinicius afinal ele domina a arte de transformar paisagens e sensações em palavras.
Só quero agradecer a companhia e a recepção dos amigos veteranos e de todos que estavam lá.
Aos que ainda não foram, não sabem o que estão perdendo.
Abraços
Diógenes
August 18th, 2008 at 11:05 am
Pô cada vez fica mais legal as Agulhas, essa parte III foi show, já contando com
só faltou o Bruninho levar a Marcelinha, quem sabe na proxima né
a presença feminina !! Parabéns Bianca por ter feito bonito, foi bem , tombos acontecem até com os meninos mutantes do pedal
heheh
August 18th, 2008 at 1:53 pm
Show de bola!!!!! Alías, como sempre
Apenas retificando: o Felipe Bergo é de Campinas, não de SP…
E no carro de apoio foram, além dos já mencionados, a Estella e a Mila.
August 18th, 2008 at 8:57 pm
No “Agulhas Negras 23″ o Vinicius ainda vai estar nos surpreendendo. De onde esse cara tira tanta inspiração!!!!???
Não vou dizer o quanto senti não poder ter ido. Foi necessário ficar, realmente eu precisava. Pelo menos pude ajudar o Edinho a contatar o Vinicius
Agora, cadê esse vídeo do Henrique subindo aquele top “insubível”? Essa eu PRECISO ver!!!!!
August 19th, 2008 at 3:26 pm
Pô galera! Fiquei na vontade de ir, mas vida de recém-casado é uma correria só. hehe
Parabéns a todos que participaram, indiferente de sexo, cor, credo e diâmetro abdominal!
Abração e talvez nos vemos na quarta edição!
P.S.: Ah, e pra quem não acredita em encontros pela Internet, eu tenho dois exemplos bem sucedidos: Agulhas Negras 1 e o meu casório.
September 9th, 2008 at 10:29 pm
Realmente o visual do parque é incrivel .todas as vezes que olho pra serra me lembro do dia em que estive lá.Pretendo voltar lá assim que eu puder.Vinícius abraço