Ladeira da Pena
(Postado em 24/07/07, às 22:43.)Da janela do apartamento em que passei meus sete primeiros anos de vida, em Jacarepaguá, avista-se um morro. Um morro isolado, esquecido ali no meio como um bico de pão sobre a mesa. No alto do morro, uma igreja.
Como morávamos num andar alto do edifício, tínhamos uma vista ampla das redondezas quando chegávamos junto à janela. Porém, se estivéssemos um pouco afastados, mais para o interior do cômodo, tudo o que se via por ela era a metade superior e pelada do morro, a igrejinha branca e o céu.

Morro querido da infância
Todo morador do bairro, com ou sem janela privilegiada, conhece a Igreja de Nossa Senhora da Pena. Poucos, porém, a conhecem pessoalmente. O acesso, seja qual for o meio de transporte, é muito difícil. Trata-se de uma estradinha construída pelos escravos, em meados do século XIX, com pedras de vários tamanhos, escorregadias e assimetricamente dispostas. Os vãos são largos e irregulares. A inclinação é de mais de 13% de média e beira o absurdo em alguns pontos. Não é qualquer carro que sobe aquelas ladeiras e, principalmente, não é qualquer motorista que se aventura por ali. O mais indicado é ir mesmo a pé, tartarugueando sem maiores compromissos e ganhando altitude muito lentamente.
Eu não era mais que um girininho de cinco ou seis anos na única vez em que lá estivera (de carro, com meus pais, num sufoco que até hoje é por eles lembrado). Agora, sapo velho, tive a idéia de subir aquilo de bicicleta.
Não sabia exatamente como seria a pista, minha lembrança era vaga — pudera! — e não procurei me informar. Montei na Perpétua e fui, confiante em sua recém-adquirida vocação para terrenos difíceis.
A primeira parte é uma ladeira normal de paralelepípedos que não apresenta dificuldades. Da pracinha — onde fica outra igreja, a de Nossa Senhora do Loreto — em diante é que está a subida propriamente dita. De speed eu não teria passado nem do primeiro metro. O terreno era difícil de verdade, mesmo para mountain bike. Não bastasse terem os escravos se empolgado com a inclinação do caminho que estavam abrindo, a irregularidade da pista é o que complica tudo e demanda força redobrada. E equilíbrio. O problema é que, numa inclinação dessas, você precisa manter sua trajetória o mais retilínea possível (qualquer ziguezague pode ser fatal: seu próprio peso inclina a bicicleta e você, para não cair, bota o pé no chão; retomar a pedalada parede acima é quase impossível, principalmente se estiver usando pedais com clip). Tem que ir reto, não tem jeito. E se houver uma fenda grande demais, uma pedra, um buraco, uma jaca ou um tatu morto exatamente no caminho? O macete é desviar sutilmente, com grande antecipação. Às vezes é melhor passar por cima. (Mas nunca passe por cima de um tatu vivo.)
Tudo isso exige que você mantenha nos pedais uma cadência que não pode ser muito baixa. Não dá para seguir o velho truque de subir tranqüilão para não disparar o coração. Ou você gira muito e faz força, ou então simplesmente não sobe. Quando vê, você está trabalhando no limite. E vem curva! E aumenta a inclinação! (Para você ter uma idéia, usando a relação mais leve — 22 x 32 — da Perpétua, meus batimentos cardíacos chegaram a 191 por minuto; nunca antes tinham passado de 187, nem nos sprints mais desesperados.) Um bom macete, também, é subir de jipe. Para evitar a fadiga, como diria o Nhonho.
Mas venci o susto dos primeiros metros e, sabendo que na pior das hipóteses levaria um tombo (rolar ladeira abaixo e cair no abismo não parecia muito provável), fui com tudo. E deu!
Na chegada, a recompensa: uma visão panorâmica de toda a região de Jacarepaguá. Vê-se, do alto, o Morro da Panela, a Vila do Pan, a Cidade de Deus, os túneis da Linha Amarela e até o mar da Barra da Tijuca.
Muito divertido, enfim, muito mesmo. Para quem curte subidas encapetadas com visuais fantásticos no final, fica a recomendação. Uma vez lá em cima, não deixe de aproveitar a igreja para pedir ajuda aos santos protetores dos freios. A descida o aguarda.
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July 25th, 2007 at 8:29 am
Caracas… deu canseira essa subida hehehe… Show de pedal.
Abração
July 25th, 2007 at 1:13 pm
Fala Vinícius… onde fica o acesso a essa igreja? Uma beleza…
PS: Quem evita a fadiga é Jaiminho, o carteiro… hehehehe…
July 25th, 2007 at 1:26 pm
Ah, é verdade! Jaiminho!… tô ficando velho!…
E aqui está o mapa.
July 25th, 2007 at 10:59 pm
Eu ia bem corrigir, também, que é o Jaiminho que sempre quer evitar a fadiga… e eu também. Cansei!
Beijo.
July 26th, 2007 at 10:38 am
Tá, e o downhill, sem nada de notório para relatar? :p
July 26th, 2007 at 11:33 am
De notório, só o meu cagaço extremo, mesmo… mas correu tudo bem.
Agora, com pista molhada não desço aquilo ali nem a pau.
July 31st, 2007 at 10:23 am
Vi, talvez vc não saiba, mas acontece que subi por duas vezes o mastro desta bandeira para recolocar a corda da bandeira que havia partido;
Acredite, subi só com dois pedaços de corda e um cinto de escalada e muita disposição; Abraços, Lino;
August 1st, 2007 at 1:43 am
Filho,
Muitas boas lembranças da infância de vocês….velha ladeira, janela, paisagem…voei nas lembranças….só não quero lembrar o susto passado…eu não estava junto mas sei que passaram um sufoco mesmo.
August 19th, 2008 at 10:37 am
Eu quero tentar!!! rs
September 18th, 2008 at 8:28 pm
Olha que ela é valente mesmo!!! Se encontrar jaca no caminho, evite tanto quanto tatu vivo, pois será tombo na certa