Parque do Tinguá
(Postado em 27/06/07, às 13:33.)Nada muito pesado. E nem poderia ser, para não assustar o calouro aqui. Por anos minha mountain bike vinha sendo usada apenas no asfalto: viagens, deslocamento diário para o trabalho, rolês despretensiosos, quando muito uns paralelepípedos! Depois que comprei minha primeira speed, então, há coisa de um ano, a montanheira sub-utilizada foi relegada à função de mera acumuladora de pó. Seriamente contaminado pelo vírus do ciclismo e das estradas, até para o lendário ir-à-esquina-comprar-pão eu preferia subir na Angliruzinha esbelta.

Estradeira chegando da ação e montanheiras encostadas
Seria, portanto, um sábado diferente, em que não treinaria com o pelotão habitual nem veria minha altitude se afastar muito do nível do mar. Meio desconfiado de que não passaria de um sub-treino enlameado, aceitara o convite de meu compadre e amigo de infância, o Paiasso (atual Jungle Jesus), para uma trilha no Parque do Tinguá, em Nova Iguaçu. A idéia era unir o agradável do passeio ao útil de finalmente soltar a Proshockinha (Perpétua, para os íntimos) em seu habitat natural e descobrir por que é que as pessoas gostam tanto de pedalar no meio do mato, do mosquito e da formiga.
Foi assim que na véspera da brincadeira a ex-ociosa MTB despediu-se de suas características híbridas: os finos pneus slick deram vez a uns biscoitudos com quase o dobro de bitola e o garfão rígido foi substituído por uma suspinha marota. Ela estava pronta. Estaria eu?

Antes

Depois
Saí de casa às 8h e pedalei uns vinte e pouquinhos quilômetros até a casa do Lander (nome real do meu amigo). A bicicleta ia zunindo e agarrada ao chão; chegava a ser engraçado para mim, acostumado ao silêncio e à velocidade de uma aerodinâmica quase perfeita. Mas serviu para que eu já fosse mudando minha atitude mental: nada de ficar olhando para o velocímetro ou ultrapassando os veículos motorizados com arrancadas inacreditáveis. A onda agora era mirar os buracos do asfalto e passar por cima! Incrível a sensação de invulnerabilidade: quanto mais esburacado melhor.
Da casa do Paiasso fomos de carro até Rio d’Ouro, próximo ao começo da trilha. Nosso cicerone era o Tuninho, concunhado do Lander e dono de uma magnífica Santa Cruz full. Para dispersar qualquer sugestão de fome antes mesmo de começarmos, fomos previdentes o suficiente para ingerir umas granadinhas-de-mão, que acabaram se revelando as melhores dos últimos tempos. Foram uns bolinhos de aipim com carne seca e umas coxinhas de galinha — quem sabe daquelas de Angola que vimos passar –, fritos na hora por uma menina com cara de sono na vendinha em frente à qual tínhamos estacionado os carros.

O ponto de partida (com os bolinhos de aipim no fundo, à direita)
De barriga forrada, começamos a pedalar tranqüilamente até entrarmos no Parque do Tinguá. A primeira parada para fotos foi logo nos minutos iniciais. Já tinha batido uma sensação de liberdade e contato com a natureza que queríamos registrar.

Paiassão e Tuninho num início tranqüilo

Eu, já gostando (e mal tinha começado)
A próxima parada foi num ponto em que havia uma subida bem íngreme para um lado e uma descida mais íngreme ainda para o outro. Tuninho deu aula e mostrou como fazer tanto o downhill quanto a subida. Eu tentei umas cinqüenta vezes — sem sucesso — subir o tal morro, mas a bicicleta, com a roda da frente quase levantando por mais que eu jogasse meu peso para a frente, acabava sempre dando de lado e saindo da trilha estreita. Faltou técnica, admito.

Subidinha nervosa

Nosso mestre ensinando a humildade
A trilha em si era fácil, quase sem subidas. Alguns trechos de singletrack no meio do mato, uns riozinhos de pedras em que atravessamos com as bicicletas nos braços e algumas descidas com muitas pedras e raízes, mas nada muito assustador.

Aí não tem jeito…

A vingança (delas)
O ponto alto foi um poço, no meio das pedras, onde pudemos nos refrescar. Não tinha ninguém lá além de nós, então vagabundo tomou banho de cueca mesmo. Só eu, sem cueca por baixo da roupa de ciclismo, é que improvisei um sungão com o bretele mesmo, enfiando suas alças para dentro.

No piscinão natural
Na parte final, rumo ao lugar dos carros, pedalamos mais forte e tiramos as mãos dos freios para acrescentar emoção. Incrível que ninguém tenha caído.

Pose para a foto
Agora, o herói do dia foi, sem dúvida, o Paiassudo: numa bicicleta pelada (tirada num sorteio tosco há mais de dez anos), sem amortecimento algum, pneus sem cravos, luvas daquelas de malhar em academia, um par de tênis em vez de sapatilhas e tendo trabalhado no turno da noite (leia-se madrugada adentro) imediatamente anterior ao passeio, a dificuldade foi duplicada ou triplicada. E não o ouvi reclamar em momento algum. Pelo contrário, o que rolavam eram empolgados iuhuuuuus e coisas que o valham. Quando descolar uma bicicleta que seu talento e disposição merecem, então, sai de baixo.

JJ em ação
Fica a lição do Jungle Jesus: não deixe de fazer algo porque não tem o melhor equipamento — basta o mínimo, quando há vontade.

Os extremos
De volta ao ponto de partida, houve quem comesse mais uns salgados na menina que ainda estava com sono. Missão cumprida, tínhamos o direito.
Em resumo: foi bom demais o passeio. Pode não ter sido nada de muito arrojado, mas o vírus trilheiro estava lá e já me infectou. Não faz sentido uma comparação com o mundo das speeds; a verdade é que cada estilo tem sua magia, seu barato próprio. Assim como posso garantir — a quem nunca tenha experimentado — que pedalar no asfalto numa estradeirinha bem calibrada é infinitamente mais prazeroso que pedalar, no mesmo piso, numa MTB (ainda que com pneus slick), agora sei que pilotar um tratorzinho desses no meio do mato pode ser também fantástico. Não foi, portanto, um sub-treino, de forma alguma. Foi, sim, uma super-diversão, uma comunhão com novos e velhos amigos e com a natureza desafiadora e pacífica. E nem teve formiga ou mosquito.

Que venham as próximas!
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June 29th, 2007 at 1:59 pm
Não tem muito o q falar, não. Quer dizer, até tem, mas é complicado. Bem … numa palavra …. : MANEIRÍSSIMO!
Sempre esqueço de levar a sunga de banho. Acho q vou imortalizar essa cueca nos próximos passeios. Tá dando sorte. A tarja preta é pra não surpreender as leitoras mais incautas evitando maiores constrangimentos ou calores repentinos.
Enquanto escrevo cai um toró daqueles na véspera de mais uma pedalada (a de Petrópolis). E dessa vez comemorativa (aniversário do Tuninho - o da “Santa Cruz”). Sou iniciante total e já foram duas trilhas incríveis e até certo ponto meio punks de maneira q é de se estranhar a falta de argumentos pra reclamações climáticas ou coisas do gênero. Em ambas o tempo estava maravilhoso em tudo. Sem mosquito, sol na medida, cachoeiras, pouca lama e temperatura perfeita. E amanhã, hein? E logo amanhã q, além dos amigos pedaladeiros profissionais do Tuninho, vai também um novo personagem na parada, o nosso outro irmão(Edvar) q já confirmou presença. Falta só o Marcos aderir agora. A previsão do tempo diz q amnhã de tarde deve melhorar a chuvarada. Vamos ver …!
June 29th, 2007 at 2:02 pm
Outra coisa … calma meninas que futuramente organizaremos um passeio leve para as vocês entrarem no circuito também.
June 29th, 2007 at 2:18 pm
Vinícius,
Além de ser um excelente ciclista, vç. tb. tem o dom de trasmitir em palavras as verdadeiras sensações que uma trilha; muitas vezes cheias de barro, lama, mosquitos , formigas, entre outras adversidades; podem trazer para nós amantes de um bom pedal . Concordo também que não importa a modalidade o importante mesmo é a companhia de bons e agora mais novos amigos. Grande abraço e até a proxima e que seja breve !!!!!
September 24th, 2007 at 12:34 pm
Emoção puríssima, autêntica, das minhas!!!
Pena não ter como acompanhá-los presencialmente. Mas, de longe mesmo, já vai se criando uma certa relação de afinidade com os que, até então, desconhecidos eram. Lembrando os ditos populares “amigo do meu amigo, amigo meu, também é”.
Parabéns prá todos vocês, que conseguem de forma maravilhosa, recarregar as baterias, de forma totalmente saudável, dando bons exemplos para os futuros descendentes, e até trazendo inspiração, certamente, desses minutos tão juntos a DEUS, para ações das mais meritórias, dirigidas também a Seus outros filhos que disso tudo, talvez só percebam a energia do amor que se acumula e é liberada nsa ações do Bem.
Vide, por exemplo, o “Pedal sem Fome”.
September 30th, 2007 at 10:10 pm
Por que cargas d’água não havia lido esta crônica ainda? Que momentos bons pude viver. Mudou minha noite, que estava chata, de chateada que estava.
Realmente nunca vi pessoa (Fernando à parte) deliciar-se assim, com algo tão simples (será?) como girar pedal.
Como se não bastassem as delícias da ação, temos o fino trato das palavras pondo aquela num pedestal. Tudo muuuuito bom, mas garimpei dois artigos seguidores de um primeiro, que hmmm! singularizaram o texto como ninguém o faria. Artigos de luxo: “pedalar no meio DO mato, DO mosquito e DA formiga”.
Professores de Português e Redação, cursos pré-vestibulares e universitários, editoras de plantão, empresários de bikes, ponham o olho no material desse garoto. Isso vende!