Usina dos Braga
(Postado em 24/08/07, às 14:23.)Não consigo lembrar sobre o que conversávamos. O sujeito fica num estado meio alterado da mente quando está fazendo a primeira refeição do dia, com iogurte e tudo, junto a um grupo muito especial de amigos, num hotelzinho mineiro, e aguardado por uma ensolarada manhã de domingo que lhe quer revelar recantos com cachoeiras; é algo que muda o funcionamento das células cinzentas: de certos momentos você guarda com tanto detalhe a lembrança que poderia, em pensamento, revivê-los em tempo real; de outros você apaga minúcias e pormenores, retendo apenas a lembrança compacta de uma única fotografia mental. Mas o fato é que estávamos, ainda sob os efeitos do pedal do dia anterior, tomando um pacífico café-da-manhã, com iogurte e tudo, naquele curioso hotel-pizzaria-restaurante-boteco-center de Itamonte.
Éramos, agora, apenas cinco: Satoshi, Fabricio, Perine, Baiano e eu. Já passava das 9h quando saímos, e precisávamos esvaziar os quartos até o meio-dia. Considerando o tempo para os banhos no final, as cervas do Perine e a arrumação das coisas, nosso pedal precisaria caber todo num par de horas.
Mais do que suficiente. A trilha não era difícil. Seriam menos de dez quilômetros por uma estrada de terra em boas condições e com subidas leves. Conheceríamos uma antiga usina hidrelétrica.
Construída no começo do século passado por alemães que imigraram após a Primeira Guerra, a Usina dos Braga foi desativada na década de 60, quando a CEMIG passou a atender — e lucrar com — os municípios de Itamonte e Itanhandu. Hoje, tem a função única de cartão postal. Com sua arquitetura suíça, cem metros de queda d’água e uma bela represa, cumpre muito bem o papel.
Logo no começo da trilha, uma placa — na verdade uma espécie de tótem informativo — nos chamou a atenção: a trilha era na verdade um pedaço da famosa Estrada Real, caminho por onde escoava-se o ouro do interior até o litoral, na época da exploração colonialista (aquela, dos livros de História; hoje são outras as vias).

Pedal na Estrada Real (sem querer!)
Dividindo o espaço com vacas, cavalos e fuscas, chegamos a nosso destino sem dificuldades.
Aí foi aquela coisa de ficar olhando para a cachoeira e pensando em como era grande e bonita. Chegando bem perto da água, sentíamos o ar gelado dos microscópicos respingos. É claro que ninguém quis experimentar a temperatura dentro do imenso conjunto dos respingos unidos.
Quando fazíamos as últimas fotos, um grupo de meninas em suas bicicletas de passeio passou por nós, indo pelo que seria nosso caminho de volta. Sabe como é homem, né? Pois é, de repente todo mundo lembrou que era hora de ir embora! Mas elas iam tão devagar quanto lhes convinha e aproveitamos sua companhia por uns segundos apenas. A verdade é que já estava mesmo na nossa hora, e tivemos que nos apressar.
De volta ao centro de Itamonte, passamos pela praça principal com a igreja, onde tiramos mais umas fotos. Dois últimos acontecimentos dignos de nota envolvendo bicicletas foram o tombo do Baiano, logo após ter trocado de bicicleta com o Fabricio por razões provavelmente filantrópicas, e a tentativa de suicídio de nosso amigo Marcelo Perine, que decidiu descer de bicicleta uma escadaria muito alta e íngreme. Assistíamos a tudo como criminosos passivos, mas — quem diria! — ele fracassou. Em suicidar-se, é claro, pois a manobra foi executada com perfeição, arrancando aplausos do grupo e lágrimas dos coveiros e carpideiras que tinham antevisto serviço. As últimas chorariam de qualquer forma, é verdade.

O tombo do Baiano e os carros prontos
De volta ao hotel, tomamos banho, organizamos nossas coisas, fechamos a conta e almoçamos com fome de leão. Um de nós ainda teve uma pequena conversa de cunho elogioso-sentimental com uma beldade local. Fotos finais, abraços derradeiros, três bicicletas em um carro, duas no outro e fim de papo. Teríamos ainda uma enorme e linda serra até a Dutra. Depois cada carro iria para um lado.
Cavalheiros, foi realmente uma honra e um privilégio pedalar com os senhores. Até a próxima.
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August 24th, 2007 at 3:15 pm
…Alguém pingou UMA gotinha sequer de óleo na corrente?
E a foto da beldade local? o_O
August 24th, 2007 at 3:20 pm
A beldade local ficou tão lisonjeada ao receber o “elogio” do autor da narrativa acima que saiu em disparada em sua moto e sumiu no horizonte da estrada que corta a cidade.
Resumindo: deu no pé ao levar uma bela de uma cantada. Hahahaha
August 24th, 2007 at 3:58 pm
HUAHAHAAhuauhahua! Foi por aí… mas rolou um sorrisinho!
Óleo?!? O que é isso?
August 24th, 2007 at 4:32 pm
Eis o seguinte comentário do Vinícius sobre a beldade:
“Perguntei se ela almoça todo dia no restaurante e ela me respondeu que ’sim’, e com aquela voz de caipira”.
Hahahahaha
Mas que ela soltou um sorrizinho, sim. Devia ter anotado a placa da moto!
August 24th, 2007 at 5:05 pm
Sei, vocês lá pagando de homem-beringela após terem feito compras na quitanda local, a menina foge, sorrisinho… Aham, ok…
August 24th, 2007 at 5:45 pm
HUAHAHAHAUA! Assim vocês me matam de rir!
August 26th, 2007 at 3:44 pm
Simplesmente lindo os comentários, caipira a parte! o que restou no horizonte foi a poeira da moto!! risos…