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Foram mexer em quê, aí?

(Postado em 03/10/07, às 18:51.)

Pode parecer que a distribuição dos pãezinhos, de bicicleta, é jogo ganho, sem aborrecimentos ou frustrações. Será mesmo?


Em casa, com os guaranás, antes da partida

Fez frio, dessa vez, bastante frio. As ruas estavam cheias, muita gente nova. A meio caminho do percurso da semana anterior, nosso estoque já estava quase zerado. A esperança eram as meninas do portão, que nos haviam prometido reforços. Eu levava fé em que elas estariam lá com uma cesta de sanduíches e um par de sorrisos. Não estavam. Chamamos, não atenderam. Pudera, não lembrávamos seus nomes. E, também, não estávamos assim tão dispostos a acordar todos os habitantes da casinha, quiçá da rua, portanto não berrávamos os nomes femininos que meio aleatoriamente escolhíamos, mas antes os pronunciávamos a meia voz, no silêncio da noite, somente com pequenos realces nas sílabas tônicas à guisa de cutucada no ombro, na esperança dupla de acertarmos o nome e de sermos ouvidos por meninas ainda acordadas e apenas não-sincronizadas para o solidário encontro. “Fer-NAN-da!”, “Pris-CI-la!”… um pouco mais alto, “Pa-TRÍÍÍ-cia!”, “Pãozinho da bici-CLE-ta!”, “A-MAN-da!”… Não deu certo. No interior da casa, a luz bruxuleante de uma vela, mais provavelmente uma TV ignorada, continuava embalando o sono das anônimas, bem-intencionadas e esquecidas moças. Como nada havia que embalasse-nos esperanças de reabastecimento, seguimos com os dois sanduíches restantes.

Os Srs. Lúcio, Ben-Hur e Agildo comeram, cada qual, dois terços de sanduíche. Se é que foi justa a divisão que fizeram. Minha idéia era a de transformarmos, de antemão, os últimos dos vinte sanduíches em quatro metades. Daríamos, então, uma metade a cada um daqueles senhores e comeríamos de bom grado a metade sobrante, eliminando a um só tempo uma possível rusga entre os sem teto e uma incipiente gula entre os com. Pois sim, a metade de um sanduíche era deveras tentadora numa hora daquelas, mas venceram o bom senso e a boa índole, que nos sugeriam doar mais pão ao invés de menos pão. Foi assim que os Srs. Lúcio, o barbudo, Agildo, o bigodudo, e Ben-Hur, o ganhador de onze Oscars, comeram, como dizia, dois terços de pão cada um. (Agildo é nome fictício com que eu apelidara o pobre, em minhas pouco nítidas lembranças, em homenagem a meu igualmente bigodudo padrinho; mas lembro, agora, que o cidadão chamava-se Deoclécio. Já o nome do Ben-Hur é Ben-Hur mesmo, como o herói — ou Benhur, vai saber.)

A história dos dezoito primeiros sanduíches é curta, pois foram distribuídos em tempo recorde. Na primeira parada, encontramos cinco ou seis irmãozinhos aparentemente tão famintos quanto inaptos a demonstrações de gratidão. Fizemos nossa parte, evidentemente, e demos no pé — ou nas rodas.

Depois foi o episódio do Sr. Luís Carlos, o alma-nobre que recusara o bis na semana anterior. Encontramos seu carrinho (de catar lixo) no mesmo local da vez passada. Apenas o carrinho, não seu dono. Dois outros catadores dormiam — leia-se jaziam — na mesma calçada e, depois de receberem seu quinhão, explicaram-nos que nosso conhecido personagem teria ido a uma daquelas barraquinhas de cachorro-quente que ficam abertas madrugada adentro. Pois muito bem, pensamos, então os trocados amealhados pela lida de todo um dia em meio ao lixo tinham valido alguma coisa. Mas, ainda que a ida à barraquinha tivesse nutrido sua noite, nosso lanche seria certamente benvindo na manhã seguinte. Com esse raciocínio, deixamos o sanduíche e o guaraná próximos a seu veículo, antes de sairmos dali. Enquanto subíamos nas bicicletas, no entanto, vimos um sujeito caminhando em nossa direção a passos trôpegos. Sua cara não era de bons amigos. A expressão era, dir-se-ia, ameaçadora, tanto quanto os passos pouco retilíneos de seu dono lhe permitiam ser. “Foram mexer em quê, aí?”, inquiriu com voz gutural um ébrio Sr. Luís Carlos. Logicamente, não nos reconhecera. Explicamo-nos. Seu olhar ficou menos duro, mas permaneceu desconfiado e injetado de qualquer coisa que definitivamente não era boa. Falamos do lanche que o aguardava. Mesmo assim, após resmungar alguma coisa que não entendemos muito bem, o Sr. Os-Outros-Não-Estão-Melhores deu-nos as costas e rumou de volta à tal barraquinha, infeliz destino o daqueles papelões todos que foram salvos do lixo para virar bebida.

Conhecemos, então, o Fumante e seu amigo de fala fina. O Fumante estava deitado no chão como os outros, mas não parecia muito confortável com a idéia, talvez se considerasse melhor que os demais. Ou talvez fosse apenas um iniciante na arte de dormir ali, daquele jeito. Agradeceu a comida, mas guardou-a e permanceu ali, do mesmo jeito, baforejando com ares aristocráticos. Seu amigo, o Sensível, que estava bem mais tranqüilo, não parou de nos agradecer nem um minuto e ainda me ajudou a juntar alguns copos plásticos que deixara cair no chão.

Depois foi a vez do Velhinho, coitado. Eu ainda não tinha percebido que ele babava quando fui apertar-lhe a mão. Babou durante o aperto, que opção eu tive? Não morava longe dali, segundo o próprio, mas tive dúvidas se conseguiria chegar ao lar naquele estado de prostração e baba, sentado na sarjeta com um olhar tão perdido quanto a razão. Pelo menos batemos um papo — bastante truncado, é verdade — e ele até sorriu.

Sim, há muitos infelizes pelas ruas. De todas as idades e por todos os motivos. Se lhes atribuo, aqui, codinomes engraçados, não se trata de desrepeito, joco ou pejora. É que, queiramos ou não, envolvemo-nos com todos eles de forma muito mais intensa do que teríamos podido prever; essas pessoas passam a ser de nossas vidas personagens com quem temos relação muito menos formal e distante do que nossas situações financeira e afetivamente opostas fariam crer. A conversa no frio, a saciedade das necessidades mais básicas, as histórias das vidas. Quebra-se o gelo, somos irmãos. O Velhinho Que Babava é meu amigo; posso, pois, chamá-lo assim, com carinho e respeito.

Que queremos, afinal? Histórias para contar aos amigos, às esposas e namoradas, aos futuros netos? Sentirmo-nos, de certa forma, quites com a vida, pelo tanto que recebemos? Ou basta sermos, para um único deles, o rosto da esperança?

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Esta foi nossa sétima noite no Pedal Sem Fome, a terceira desta segunda fase. E a primeira, de todas, em que tivemos reações imprevisíveis e até, confesso, uma ponta de infundada — e temporária — decepção. Heróis bêbados, gente faminta fumando, expressões duras, tudo isso é inerente ao sofrimento indizível das ruas. Os momentos e a reflexão que o contato com essa realidade proporciona, no entanto, são a nata emocional da semana, uma aula de vida para mim e para o Marcos.

Pode, pois, parecer que a distribuição dos pãezinhos é jogo ganho, sem aborrecimentos ou frustrações. E é.


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5 comentários em “Foram mexer em quê, aí?”

  1. amiga oculta diz:

    Segue anexo dicionário de nomes para ajudá-los na curiosa tarefa de contatar as doadoras esquecidas.
    Deus os brindará com doadores a caminho.
    Não desesperem!…tentem chegar um pouco mais cedo, quem sabe não dá mais certo?

  2. Marali diz:

    Depois do parágrafo do Alma-nobre, precisei daqueles segundos, quase minuto, para recuperar o fôlego. Felizmente um e outro, autor e leitor, funcionam em tempos diferentes. Se assim não o fosse, essa crônica teria chegado ao fim, com a evidência de versatilidade da matéria papelão.

    Mais que esbugalhar os olhos ante as letras duras e doces e umedecer o mouse com o saldo de lágrimas que me trouxe o sabor do mar ali, pertinho, quero minhas mãos cheirando a mortadela em trânsito. Como as de vocês.

  3. Alessandro diz:

    Vinícius, a parada é sinistra mesmo (o dicionário do Fabrício funciona! :D)

    Tinha uma tia-avó minha que era freira. Costumava, em vida, recolher os sem-teto e dar-lhes abrigo, roupas, comida, enfim, condições temporárias e até mesmo tentar um encaminhamento para trabalho. Infelizmente a maioria preferia voltar para as ruas, que se por um lado são cruéis em alguns aspectos, por outro os isentam das rédeas da sociedade. Vocês dessa vez tomaram contato com a realidade dessa gente, mas sei que não irão desanimar.

    Abs e força na empreitada!

  4. Rita Morena diz:

    Admiro muitooooooo vc Vi… Conte SEMPRE comigo… Obrigada por fazer parte da minha vida!! Te gosto meu atleta… Até amanhã!

  5. Lu diz:

    Brow, há tempos que eu não dava uma chegadinha aqui…
    Vai com tudo e guenta (cadê o trema desse teclado?) firme, que a sua parte está sendo feita…
    Saudadetu.
    Beijo.

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