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Os outros não estão melhores

(Postado em 22/09/07, às 20:21.)

“Muito obrigado. Os outros, que os senhores vão encontrar aí na frente, não estão melhores do que eu.” Tente imaginar esta frase sendo dita por um morador de rua, maltrapilho, acordado de sabe-se lá que sonhos, o corpo envolto em panos rotos sobre um papelão imundo. O Sr. Luís Carlos recusava, assim, o segundo sanduíche que lhe oferecíamos. Metade do primeiro já tinha sido comida. “Eu pelo menos tenho o mérito de ter isso aqui, ó!”, e deu um tapinha em seu veículo, um amontoado-sobre-rodas de papelão, entulhos e outros frutos do garimpo diário no lixo. “A maioria nem tem como comprar um, ou fazer um”, explicou. Depedimo-nos e partimos, grãos de areia espalhados ao vento. Não houve outro comentário possível: “essa foi f…” A lição deixara-nos pequenos e mudos.

(Para que não surja qualquer desconfiança sobre a nobreza d’alma daquele senhor, atesto que os sanduíches estavam uma delícia, fresquíssimos e bem recheados. Portanto, a razão da recusa não foi, leitor engraçadinho, uma suposta intragabilidade do pão que eu preparei! Na verdade, até eu estava torcendo para sobrar algum. Mas não sobraram. Faltaram.)

Começamos pelos mesmos caminhos do Pedal Sem Fome da semana anterior. Encontramos as ruas bem vazias, a princípio, o que nos causou estranheza. Quase todos da semana anterior nos tinham dito que costumavam passar as noites sempre nos mesmos locais. O bom homem do começo do texto foi a única entrega que fizemos num trecho em que tínhamos feito de dez a quinze, no primeiro dia. A segunda e a terceira pessoa a receber nosso pequeno cuidado estavam numa rua transversal à que seguíamos e foram vistas por um Marcos atento. Eram um casal, aparentemente. Pedalamos até lá e, enquanto transferíamos o lanche de mãos, fomos vistos por duas moças, moradoras da rua (e não de rua), que voltavam a suas casas àquela hora e que verbalizaram um elogio em nossa direção. Depois que despedimo-nos do casal, segui até elas para explicar. Boa intuição. Foram só uns minutinhos de conversa, mas é grande a chance de termos conseguido reforço. Pelo menos disseram-nos as moças que estarão lá, naquele mesmo portão, na próxima semana, com lanche e outras doações para reforçar nosso estoque. Veremos!

As jovens com quem conversei no parágrafo anterior deram-nos, também, importante dica, apontando-nos o lugar onde poderíamos encontrar uma boa “clientela”. Dito e feito. Pedalamos até o bairro vizinho e encontramos tantos necessitados que nosso estoque não foi suficiente. Eram muitos, e estavam juntos, e sabíamos que poderia ser um problema, caso não tivéssemos pão para todos. Mas tínhamos que parar ali, ou haveria o risco ainda pior de voltarmos para casa com comida sobrando.

Foi nesse atendimento tamanho família que o Marcos protagonizou uma cena engraçadíssima, que poderia ter sido trágica. Na verdade, protagonizou-a sua garrafa de guaraná natural. Em primeiro lugar, todos os que encontravam-se naquele local ficaram meio desconfiados, via-se nitidamente que estavam com o pé atrás. É que recentemente houvera, como logo o soubemos, alguns esfaqueamentos noturnos nos membros daquele grupo — praticados, evidentemente, por pseudo-neo-nazistas ou qualquer outro tipo de adeptos de “limpezas étnico-sociais”, leia-se assassinos. Mas, logo que decifraram a boa intenção daqueles dois seres com roupas esquisitas, capacetes estranhos e veículos improváveis, trataram-nos com absoluta cordialidade e gratidão. Pois então, a garrafa… estava eu distribuindo sanduíches enquanto o Marcos servia os copos de guaraná. Muitos dos desabrigados estavam ainda dormindo; talvez metade deles já estivesse desperta, com nossa movimentação. De repente… BUUUUUUUUUUM!!!!, uma baita explosão no silêncio da noite! Todos os que ainda dormiam acordaram assustadíssimos — pudera! –, prontos para lutar por suas vidas. Mas tinha sido apenas a queda trapalhona de uma garrafa de guaraná, que, por sorte, estava fechada! Desculpamo-nos de todos os jeitos e, no fim, foi até engraçado: acabamos todos rindo do acontecido, fazendo piada. Porque aqueles ainda encontram uma nesga de bom humor, para uma hora dessas. E ainda sorriram pelo alimento benvindo.

Faltaram três sanduíches. Exatamente para os três que estavam mais afastados, no final da longa marquise. Por sorte, novamente, aqueles ainda dormiam, aparentemente não tinham ouvido a explosão da bomba! E assim não ficariam chateados de não receberem seu quinhão. O que fiz foi nomear o Sr. Renato — um que estava deitado próximo àqueles que não receberam o lanche — “guardião do guaraná”. Então deixei uma garrafa com mais ou menos um litro do líquido, envolta em um pedaço de coberta, aos pés de um dos que dormiam. O guardião daria o recado e nosso abraço fraterno.

Voltamos para casa de mochilas vazias, a alma cheia de alegria e satisfação. E esta foi a noite de mais um dia na vida de todos nós, cada qual com problemas e necessidades muito particulares. Aprendemos que tudo passa. Mas também que tudo volta, assim como a fome. Cada dia requer soluções e cuidados próprios, sua dose de imediata coragem. Mas estamos todos no mesmo barco, e ninguém está tão melhor do que nós.

foto: Adilson Faltz

Homem na rua


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17 comentários em “Os outros não estão melhores”

  1. Renato diz:

    Arrepiante! Vinicius e Marcos: que Deus abençoe vocês.

    Um abraço,

    Renato

  2. ROGÉRIO diz:

    E AÍ VINÍCIUS: FAZER O BEM SEM OLHAR A QUEM! FALAMOS TANTO E NEM SEMPRE NOS “MEXEMOS”. MUITO LEGAL PARABÉNS
    ABRAÇÃO
    ROGÉRIO

  3. Bpinheiro diz:

    Vinícius…. você é o cara !!!!!

  4. Márcio Fonseca diz:

    Vinicius a perseverança é uma grande virtude. Parabéns e um grande abraço.

  5. Baiano diz:

    Caracas Vinícius que texto! Que primeiro parágrafo! De causar arrepios e no mínimo marejar os olhos de qualquer um… É algo mais real e concreto da sensação que fiquei ao assistir pela primeira vez Diários de Motocicleta e os questionamentos que subjetivamente ali foram deixados. Parabéns mais uma vez e realmente um exemplo a ser seguido.

  6. simone diz:

    Nunca mais vou ler o que vc escreve:(
    mas vou rezar pra que Deus proteja vcs, e que não desanimem ~tão cedo desse pedal solidario, continuem fazendo a parte de vcs.
    Ah qdo falarem que é pouco que tem milhões de pessoas na rua que precisam disso, lembre do rostinho daquels que já ganharam um sanduba e do sorriso timido, vale a pena sim !! parabéns
    ( mas não leio mais :P hehehehe )

  7. Nina diz:

    Meu, que f*…
    bjo.
    To velha aqui.

  8. Bruno Feijó - Maceió AL diz:

    Pô fiquei com um nó enorme da garganta. Fantastico o texto a iniciativa, parabéns.

  9. Satoshi diz:

    Uma mochila vazia significa vários estômagos cheios, daqueles que foram assistidos por vocês. Continuem com este belo trabalho! Parabéns!

    Abraços,

    Satoshi.

  10. Alessandro diz:

    :o

    Nem vou comentar sobre a nobreza do gesto…

    Só sugerir: Já pensaram em levar frutas? Bananas, maçãs, laranjas, sei lá… Pra dar uma variada/complementada…

    E que tal um site? Onde as pessoas interessadas possam contribuir tanto com doações como com força de trabalho (quem sabe mais ciclistas)?

  11. amiga oculta diz:

    Louvável atitude, que produziu em mim as emoções que só nós conhecemos, mas com diferenças, pela individualidade de cada um, pelas posições de cada qual no contexto familiar, da comunidade dos amigos ou na sociedade, de forma geral.

    É MUITO BOM SABÊ-LOS VIVENDO ESSAS ALEGRIAS, MAS, MELHOR AINDA É ESTAR NELAS, JUNTOS.
    As bênçãos de DEUS nunca deixam de nos possibilitar o melhor em nossas atuações; que saibamos bem aplicá-las em proveito maior, é o desejo sincero para todos nós.

    Beijo nos sentimentos da dupla querida.

  12. vigusmao diz:

    Pessoal, obrigado pelos comentários! A idéia das frutas é boa mesmo. Vou ver se levo banana, essa semana; é prática e tem potássio. (Se faltar, servem uns gelzinhos de carboidratos? rsrsrs)

    Amiga oculta: saudade dos tempos de coral. Mas tudo volta, como diz o texto. :-)

  13. Lia diz:

    Que boa a noite em que leio um mundo movido a quatro rodas.
    Vê aquela poeira que fez macio o assento duro em que Fulano dormia? Foram você e você que a sopraram com movimentos que, repetidamente, fechavam um círculo abrigador de surpresas.
    Obrigada.

  14. Ismair Max diz:

    Vinicius tudo bom, sou amigo do Otavio e um apaixonado por bike, sem ele ter falado de você eu e ele ja estamos a alguns meses treinando puxado pra tornarmo-nos “Bikers”, um certo dia ao falar pro Tavim sobre minha vontade de registrar com fotos e videos um projeto que se torne um webbook ele me falou de você, então cara, poxa, o que posso primeiramente é reverenciar-te porque tudo que vi aqui e ja ouvi de você me resta te dar os parabens e suar mais e mais pra quem sabe eu e o Otavio não fazermos a “Marcha dos discipulos do Imperador!” saindo de nossa Uberlandia e chegando no céu, ops, alguns ainda chamam de Rio de Janeiro. Valeu cara… email e msn são um só, caso queira add.. será um prazer!!!

  15. Paula Vargas diz:

    Puxa!!!
    Conheci este site no domingo à noite na casa do meu compadre/amigo/irmão Rogério e adorei.
    Passei para várias pessoas a existência dele. Inclusive para outro amigo apaixonado por bicicleta. O “Café”.
    Fiquei feliz em saber que ainda existem pessoas tão especiais como vocês e me inspirou. Preciso fazer alguma coisa.
    Abraço, Paula.

  16. ILYDIO diz:

    Filho, querido,

    Realmente o exemplo que o homem deu no primeiro parágrafo é uma grande lição para todos nós e não há como não ficar emocionado.

    Se vocês tiverem condições de levarem as frutas sugeridas, quero contribuir com algumas.

    Um beijão, amo você.

  17. claudio & tania diz:

    Vinicius realmente você manda ver nos textos e é bom de pedal, mas também é
    bom de coração assim como seus colegas de P. S. F .Parabéns!

    PS. Eu li esse meio atrasado e não percebi se vc falou sobre roteiro do PSF.
    se vc ler este poderia passar o roteiro que vcs fazem? Valeu abraços.Claudio.

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