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Voluntários da meia-noite

(Postado em 14/09/07, às 0:23.)

A idéia nasceu das minhocas cinzentas da cabeça do Marcos. Foi posta em prática no fim do ano passado e durou um mês, ou pouco mais. Logo em seguida, minha partida para Londres deixou-a interrompida, sem previsão de volta. Na última terça-feira, porém, os Voluntários Ciclistas da Meia-noite venceram a inércia e voltaram à ativa.

Os preâmbulos são muito simples: um cuida dos sanduíches — de queijo, presunto, patê ou mortadela — e guarda-os, já envoltos em guardanapos, nos próprios sacos em que vêm os pães-de-forma; o outro faz o guaraná natural e o engarrafa, providenciando também copinhos descartáveis. Cada qual coloca o que preparou dentro de uma mochila, e esta às costas. Sobe, então, em sua bicicleta e vai para o ponto de encontro do grupo (da dupla, vá lá). Em seguida, o grupo de dois troca um aperto de mão e sai às ruas, distribuindo o lanche para os que têm a infelicidade de morar nelas.

É evidente que, da primeira vez, tínhamos todo tipo de receio: de sermos roubados no trajeto, de sermos roubados nos destinos, de não sermos bem-recebidos, do escuro da noite e até do Bicho Papão. Mas fomos, mesmo assim; na pior das hipóteses, decepcionar-nos-íamos um pouco ou, no máximo, voltaríamos a pé. Morrer era pouco provável.

Deu tudo certo demais, não apenas na primeira vez, mas em todas as seguintes. Você vê de perto, sente na pele, se humaniza. Alguns contam toda a sua vida, outros não querem muito papo. De alguns não esquecemos os rostos e os nomes (êi, Dilma, pra onde levaram você?), outros passam sem marcar tanto. Uns são bem articulados e mentalmente sãos, enquanto outros, bem embirutados, parecem há muito ter perdido a razão. Da maioria recebemos expressões de agradecimento (”pô, irmão, valeu mesmo, valeu mesmo, valeu mesmo”, “ah não, gente, não acredito, eu nunca vi isso, como é que pode, eles são ciclistas, olha só, saradões, e tão vindo aqui ajudar a gente” — essa aí precisava era de óculos); de uma minoria, apenas o olhar raso de quem não se emociona com mais nada. Alguns não estão famintos e guardam o pão “para o café”; outros devoram o alimento com a urgência de uma fome eterna. Alguns acordam assustados, outros dormem sonos de pedra, e há os que não conseguem dormir — mas a senha “sanduíche” logo abre os olhos e o entendimento dos três tipos ao motivo da inesperada visita. Uns não se interessam pelo planeta de onde viemos, outros notam com curiosidade a, digamos, pouca ortodoxia de nossos veículos. Mas de todos, de todos sem exceção, haurimos a certeza de termos feito alguma diferença, no meio da noite vazia.

Há coisas do arco-da-velha. Tinha um camarada que dormia dentro de uma dessas casinhas de hidrantes, ao lado de uma famosa instituição financeira. Outro, com o cabelo e a barba há anos sem tesoura ou sabão, confessava o desejo de treinar para correr no Pan e interessou-se pelas diferenças entre Pan e Olimpíada. Houve crianças que, após comerem os sanduíches em segundos, quiseram andar nas bicicletas e só foram dissuadidas pela estranheza dos pedais de clip. Outras houve que, sem pestanejar, jogaram os guardanapos usados no chão — como certos adultos, das janelas de seus carrões — e acabaram ouvindo um sermão meio teatral sobre entupimento de bueiros, que, se não as convenceu, pelo menos as fez sorrir.

Nesta terça, saímos de nossas casas à meia-noite e a elas retornamos pouco depois das duas da manhã. Foram trinta quilômetros, vinte sanduíches, quatro litros de guaraná e algumas roupas. Dezoito foram os atendidos, todos do sexo masculino; desta vez, não houve mulheres ou crianças. É que percorremos lugares distintos dos que visitáramos nas primeiras vezes. Aqueles moradores de rua, por alguma razão, desapareceram na época do Pan.

Não me venha, grandiloqüente leitor, questionar a eficácia de se dar um único lanche para uma única meia dúzia de moradores de rua em um único dia da semana. Tampouco cabe a discussão que quer trazer à tona o leitor de coração mais empedernido, para quem aquelas pessoas constituem apenas mazelas sociais explicadas pelo vício e pela vagabundagem. Pouco importam teorias sobre peixes e aulas de pescaria; o fato é que são seres humanos dividindo uma cama de cimento com o rato e com a barata, enquanto você e eu dormimos em lençóis perfumados. Naquela noite de terça-feira, para aquela meia-dúzia, o sanduíche de mortadela que chegou de bicicleta foi um delicioso banquete.

O preço? Quase zero. Além disso, no fim das contas, eu e Marcos estávamos apenas pedalando — que é, de qualquer forma, o que mais gostamos de fazer.

PS.: Encontrávamo-nos, na verdade, às voltas com a escolha de um nome para o grupo, é claro que com o intuito de divulgá-lo e até contagiar outros simpatizantes da combinação bicicleta mais comida na barriga do próximo. Tenho um certo carinho pelo “Voluntários Ciclistas da Meia-noite”, que usávamos, só de brincadeira, no começo; o mais sóbrio “Pedal Solidário”, no entanto, acabou vencendo, que a fome alheia não sugere lá muita brincadeira. Mas… bem, se você quer fazer parte do movimento Pedal Solidário em seu bairro e sair à noite para a atividade, pode considerar-se um orgulhoso Voluntário Ciclista da Meia-noite, sem problema algum!

PS.2 (a posteriori): Acabamos, finalmente, aceitando a sugestão do amigo Satoshi: “Pedal Sem Fome”, está batizado.


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19 comentários em “Voluntários da meia-noite”

  1. Tulio diz:

    Pessoal, muito legal a iniciativa de vocês. Parabéns! Muitos podem pensar que é uma atitude pequena e que não vai resolver o problema do mundo, mas se ninguém se mexer, “nada acontece, nada muda” e vocês estão fazendo acontecer. Para essas pessoas menos afortunadas, com certeza vocês são vistos como anjos de bicicleta, que vieram trazer, além do alimento, atenção, carinho, a conversa amiga e fizeram elas sentirem que alguém se importa. Isso é um belo exemplo de amor ao próximo. Mais uma vez, parabéns!

  2. Satoshi diz:

    Indiscutivelmente, uma atitude de amor ao próximo! Parabéns!

  3. Simone diz:

    Pois é uns meninos de bike levando sanduiches pelas ruas da cidade, fazendo a alegria daqueles que se sentiam “esquecidos” pelo mundo e confortando uma barriga vazia e fazendo uma secretaria boba chorar na frente do PC …hehehh continuem assim bjkas

  4. Alessandro diz:

    Putz, muito legal… Deveria ter pedido ao Edinho, que como se sabe, é PhD em fazer sanduíches em quantidade (se bem que ele consome também, e gasta uns créditos de carbono fazendo ruídos esquisitos com sua camera, rs)

    Parabéns! E cuidado pra não deixar azedar no calor!!! :D

  5. grandiloqüente leitor diz:

    É isso aí, Vina!

    Até mandei o texto para a minha família…
    Um barato!
    Sômulo N Mafra

  6. Renato diz:

    Vocês estão de parabéns. Nestes tempos de tanta roubalheira, cinismo, cara de pau, uma atitude como esta me faz ter, ainda, um pouco de fé na humanidade.

    Abraços,

    Renato

  7. Lia diz:

    Estou orgulhosa, sim, de um amigo humano tão especial. Um abraço no Marcos.

  8. Bruno Feijó - Maceió AL diz:

    Parabéns pela iniciativa, muito mesmo. Vou dar essa ideia para o pessoal aqui de Maceió, quem sabe outros grupos pelo Brasil não seguem o mesmo exemplo.

  9. Baiano diz:

    Legal que retomou o projeto!
    Mais um exemplo de “quem é o cara” hehehe Quando eu crescer vou ser assim hehehe Brincadeiras a parte, parabéns pela iniciativa e tomara que outros ciclistas se interessem pelo projeto e quem sabe até abram uma “filial”! rsrs

    P.S. Agora segurem a Bianchello!!!!!!!!!!!!!!!

  10. amiga oculta diz:

    Muito lindo!
    Grande exemplo, prá aqueles que se frustram por que nunca conseguem participar de algum grupo instituído por uma ONG, Instituição Religiosa ou Filantrópica, por incompatibilidade de horários, de ideais que movem as tais entidades criadoras dos grupos, etc…
    Certamente os “louros” do grupo (que aliás ainda não os possui - só morenos mesmo haha) já chegam em forma de grande satisfação pelo contato com pessoas necessitadas que sempre nos dão mais do que recebem; também através do bem estar que os envolve ao prepararem esses lanches e até mesmo dos contatos daqui, que passa a ser, também, um espaço para novos encontros e amizades.
    Sinto-me orgulhosa por vocês, amigos.
    Daqui a pouco saberão de outros que iniciaram movimentos caridosos influenciados por vocês.
    Grande beijo nesses corações lindos.

  11. Márcio Fonseca diz:

    Parabéns, Vinicius. Admiro profundamente tua generosidade, coragem e desprendimento demostrados em gestos de amor e compaixão como estes. Um grande abraço.

  12. Rogério Machado diz:

    É como não canso de falar: Tenho um enorme orgulho de ser seu amigo !!!! Iniciativas assim de desprendimento e atenção ao outro tornam bem claro a definição da palavra IRMÃO, que como quase tudo o mais está prá lá de banalizada. Mas existem pessoas como vocês e outras tantas que não conhecemos mas estão aí, sem propagandas ou discursos, fazendo sua parte, não esperando as soluções virem de fora. Deus os proteja e ajude para que consigam disseminar este gesto de humanidade e amor ao semelhante. Campeão, já te disse inúmeras vêzes: VOCÊ É FERA !!!!!!! Obrigado. A toda a tropa de choque…..

  13. amiga oculta diz:

    Quero mais, não demore tanto assim…
    Beijo, e muitos outros “pedais” solidários, solitários ou em grupos.
    Já pensaram em aumentar essa cota de distribuição com pneus de apoio, solidários também?

  14. jacusdeduasrodas diz:

    olha: fiquei muito comovido, e com uma sensação de que preciso fazer algo semelhante aqui em curitiba! muito embora à 1ª vista a atitude pareça não mais do que “simplesmente mais uns 20 sanduiches”, tem ela uma extensão muito maior do que possamos imaginar…divinamente grande! parabéns, e que deus mantenha a luz sobre vocês, é o que deseja o clube de ciclismo “jacusdeduasrodas”! Celso Ribas - (misterhill)

  15. Marcelo diz:

    Muito legal! Gostei da idéia!

    Parabéns a vocês.

  16. Nina diz:

    Texto óimo, atitude… sem palavras.
    Fiquei emocionada com o texto, Vi. E lembrei do primeiro que vcs fizeram… e do segundo.
    Continuem firmes, fiquem com Deus.
    Se cuidem muito,
    beijo.

  17. ILYDIO diz:

    Filho,

    Sinto muito orgulho e você e do nosso amigo Marcos. Acho que vou dar um jeitinho de acompanhar vocês…aproveito para diminuir um pouco a barriga.

    Que Deus os proteja sempre.

  18. Ligia diz:

    Caraca, o que dizer???
    Assim, quando eu me tornar uma corredora, vou ter que sair correndo pelas ruas distribuindo pão. :-)
    Brilhante idéia, excelente iniciativa e invejável perseverança!
    Parabéns por ter vencido o Bicho-Papão! Agora, se cuida, hein?!
    Beijo grande, um no coração e outro na testa!

  19. Daniele diz:

    poxa!
    e ainda dizem que não se tem mais idéis pra ajudar o proximo e ainda dizem que não existe gente legal ste mundo não é?
    parabéns pela iniciativa e linda ação!

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