Crono-escalada de estimação
(Postado em 04/06/07, às 21:21.)Moro em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, desde que nasci. A avenida Menezes Cortes, vulgarmente chamada “Serra Grajaú-Jacarepaguá” ou simplesmente “Serra”, fez parte de meus deslocamentos diários durante muitos anos. Antes da construção da Linha Amarela — via expressa que reduziu à metade o tempo de acesso dos moradores do meu bairro ao centro da cidade –, subir a Serra era a melhor opção para passar para o lado de lá dos morros. Com a Linha Amarela, no entanto, passar pela Serra se tornou, para mim, evento raro.
Quando adotei a bicicleta como principal meio de transporte, chegava ao Centro pelo subúrbio, contornando os morros todos, num trajeto plano e cheio de trânsito. Outra opção era ir pela orla, andando muito mais porém num caminho mais bonito e agradável — embora algo mais perigoso, por causa de dois túneis.
No meio do caminho havia uma serra
Mas a velha serra continuava ali, do lado de casa, olhando para mim, querendo voltar a ter algum papel na minha vida. Tão próxima, tão desafiadora, algo como um atestado de competência ou mediocridade — era preciso saber. Se adviesse um fracasso retumbante, que fosse um fracasso honroso, ao menos. Mas eu não passava de um iniciante abusado, sem a menor técnica e sem nunca ter subido nada.
Na primeira tentativa, quase desisti antes de começar. Frio na barriga, medo, mau agouro. Bufando, com os batimentos cardíacos completamente degringolados logo nos primeiros metros, usando a relação mais leve de uma mountain bike de 27 marchas, paguei todos os meus pecados em nome de uma pretensa coragem. Acabei, ainda que muito mais teimosa que corajosamente, não desistindo. Subia a 7 Km/h, às vezes 5, bebendo muita água e ziguezagueando involuntariamente no acostamento estreito. Foram eternos 42 minutos para vencer os 4 Km da base ao topo, num desnível de aproximadamente 300 m. Mas comemorei como se tivesse conquistado o Everest: missão cumprida! É possível subir essa desgrama!
Não imaginava, naqueles tempos, que além do desafio que ela representava — e que, mal ou bem, eu tinha vencido –, a Serra, um dia, viria a ser também o caminho mais rápido entre a casa e o local de trabalho. Não que eu tenha mudado de emprego; foi meu tempo de subida que baixou radicalmente ao longo dos anos.
Após aquela primeira aventura, as visitas de bicicleta ao topo da criança eram ainda apenas esporádicas, como que avaliações mais ou menos regulares de meus progressos ciclísticos. De fato, comecei a notar alguma melhora, vendo meu tempo, após algumas tentativas menos assustadas, cair abaixo da casa dos trinta minutos.
Há menos de um ano que passei a treinar com regularidade naquelas curvas, não apenas utilizando-as freqüentemente como rota para o trabalho como por vezes saindo de casa exclusivamente para subi-las e descer em seguida para o mesmo lado jacarepagüense. Virou um verdadeiro CRI (contra-relógio individual), com todos os tempos devidamente anotados. A cada recorde batido, uma celebração — onde participa até minha namorada, que vibra muito com as vitórias e decepciona-se com os fracassos tanto quanto eu.
Quando passei a fazer a subida de speed (não mais de mountain bike), meu tempo já estava abaixo dos vinte minutos. Em janeiro deste ano (antes, portanto, dos três meses em que estive, a trabalho, na planíssima Londres), estabeleci a marca de 15′19″ como meu recorde pessoal, depois de muito penar para baixar a casa dos 16′. Em abril, já de volta ao Brasil, frustrou-me terrivelmente o resultado do primeiro teste: dezoito minutos e muitos segundos, quase dezenove. As vezes seguintes foram apenas ligeiramente melhores: 17′40″, 17′12″, 17′30″. Eu estava mesmo pior, bem pior. Depois de um 16′45″ um pouco mais animador, abandonei a Serra e passei a me concentrar nos treinos de base, com constância, alguma disciplina — coisa que nunca tivera — e num ritmo cada vez mais forte. Mas não tinha me submetido ao teste da Serra, ainda. Até hoje de manhã.
Sabe quando você sai para o treino com a sensação de que vai rasgar a estrada ao meio? Foi assim. Algo me dizia que eu iria finalmente bater o velho recorde. A dúvida era: por quanto? Mas eu podia estar errado, é claro, e ter que engolir outra decepção.
Vista 3D (Ave, Google Earth!)
Vocês querem saber como foi, não é? Bem… não há nada melhor do que a sensação de estar vivendo o auge absoluto depois de tê-lo perdido (e este texto surgiu meio que para eternizar, de alguma forma, esse sentimento). Acho que aprendi um pouco a recomeçar, a ter paciência e confiança. A gente sempre pode fazer melhor.
Consegui. Estou de volta. Bati o recorde… por dois segundos!
…
Veja aqui mais informações sobre esta subida.
…
June 6th, 2007 at 7:37 am
Esse é o CARA hehehehe Quando crescer vou ser assim
June 6th, 2007 at 9:09 am
Ainda tenho esse seu trajeto no meu Google Earth, “Serra do Vigusmão”
Parabéns, dois segundos podem até ter sido um peido mais forte, mas ainda são dois segundos!!!
June 11th, 2007 at 9:12 am
Aê! Parabéns!
Não pelo record, mas pela perseverança…
June 14th, 2007 at 12:57 pm
Parabens !! Espero o próximo relato com mais segundos mais rápidos !!!!
June 15th, 2007 at 11:26 pm
Parabéns pela superação de seus limites… e por relatar isso de forma tão espontânea…
Beijão
June 18th, 2007 at 1:20 pm
15′13″ hoje.
)
Deve rolar uma crônica sobre as subidas do Rio, com meus recordes pessoais e espaço pro pessoal que quiser postar seus melhores tempos. Em breve!
July 25th, 2007 at 10:43 pm
Nussa, c é bom mesmo heim fi ? bão d +
July 28th, 2007 at 3:46 pm
UFA!
O pequeno samurai derrubou o gigante
E viu surgir, em seu lugar, para deleite de todos,
Um caquizeiro
De frutos doces
Como o sangue que escorria de sua alma.
Agora o tempo era de calma.
Refestelar-se para depois crescer mais
E, do alto de alguma sabedoria,
Ver que há muitos caquizeiros
Aguardando descobrimento.
July 28th, 2007 at 5:10 pm
O próximo caquizeiro a ser conquistado é a Rio-Petrópolis. Eu iria hoje, mas tô com sinusite e de molho, nos últimos dias.
December 22nd, 2007 at 6:52 pm
Prezado Vinicius,
Encontrei a Crono-escalada de Estimação por acaso enquanto pesquisava sobre cicloturismo. Já li o texto duas vezes. Preciso lê-lo ainda outras tantas vezes com mais vagar, saboreando-o trecho por trecho. É que nessas duas primeiras vezes em que o li, o fiz exatamente como a minha cachorra fez no dia em que roubou um pedaço de carne do meu prato: devorei rápido, com medo de ser interrompido. E isso se explica pelas outras excelentes crônicas que voce escreveu sobre o tema que tanto nos apaixona. A interrupção a que me refiro é aquela que se dá quando clicamos com o botão direito do mouse num link para descobrirmos atônitos o que se esconde ali. E o teu site tem muita coisa bonita: Ladeira N.S. da Pena (já morei em Olaria e o texto me lembrou uma época muito boa), Primeiro treino na madrugada (tô com vontade de imitar), Ode às manhãs de domingo (obra prima cara – voce escreve bem, hein!), Tour da Serra .
Além de compartilharmos a mesma paixão pela bike, compartilhamos também o mesmo sentimento de desafio diante de uma estrada que sobe indefinidamente. Além disso, temos em comum o fato de sermos vizinhos de verdadeiros desafios a todo ciclista: você, do lado de Jacarépagua, tem a “Serra”; eu, morando aqui na Tijuca, tenho a Estrada Edson Passos (subida do Alto da Tijuca).
Vencer a subida para o Alto levou algum tempo, mas de tanto insistir acabei me acostumando a subi-la. Vencido esse desafio comecei a me aventurar para o outro lado e aí descobri a Vista Chinesa, o Sumaré, o Bom Retiro, as Paineiras, etc.
Continuo procurando ladeiras todos os finais de semana para acrescentá-las ao meu costumeiro passeio ciclístico. Mas, existe uma estrada que ainda me mete medo: Furnas. É que quando desço para a Barra, geralmente há bastante trânsito ali. Na hora de voltar pra casa, fico sempre inventando uma desculpa para não enfrentar o trânsito no aclive da Estrada das Furnas. Resultado
estou ficando expert em subir a Estrada do Joá.
Gostaria de saber suas impressões pessoais quanto à subida da Estrada das Furnas no que toca ao trânsito. Você pode responder em seu site ou mandar a resposta direito para o meu email.
boas festas
e boas subidas
Celso
.
September 22nd, 2008 at 8:19 pm
Em quanto está o tempo atualmente?
September 22nd, 2008 at 10:01 pm
Fala, Alê.
O tempo está em 15min03s. Ainda não consegui fazer sub-15, mas tenho ido lá muito pouco, agora (uma vez por mês, se tanto). De qq forma, esse 15min03s foi conseguido há duas ou três semanas, depois de o recorde ter ficado empacado em 15min05s por mais de ano.
Abração, véio!
September 23rd, 2008 at 10:43 pm
1 segundinho pode ser até o vento de um caminhão… Duro quando a gente chega nesse maldito patamar, né? Onde para baixar um cagagésimo tem que sofrer uma caralhada…
No geral os tempos para essa subida têm sido consistentes? Na casa dos 15 minutos?
Tem uma subida aqui em Itu que quero te apresentar… Batalhando muito com minha híbrida consigo 30:01 (recorde) e tempos consistentes em torno de 31 ou 32 minutos. Já com a speed de um amigo, num rolê de teste (sem maiores pretensões) mas socando a bota, cheguei a 27 baixos. Só preciso melhorar a metodologia de marcação, porque estou zerando o cronômetro na porta de casa e tenho uns 400m até chegar na estrada em si, onde posso pegar trânsito. E zerando o crono na estrada nunca fiz, mas acho que vou começar a fazer, ao menos pra esse “benchmark”.
September 24th, 2008 at 10:40 am
Pois é, tem que ter as linhas de largada e chegada muito bem definidas, ainda mais quando se chega a esse patamar do garimpo de segundos.
Não posso dizer que os tempos na Grajaú-Jacarepaguá estejam sendo consistentes, porque praticamente não tenho mais pedalado lá. Nas últimas três vezes, observei uma queda vertiginosa no tempo, até chegar ao recorde atual (dois segundos mais rápido que o ex-recorde de um tempaço).
Agora, depois do último grande “salto de qualidade” que observei, há coisa de dois meses, o progresso tem sido mais lento, talvez dê pra falar de consistência, ou de patamar.
Na subida da Mesa do Imperador, que é onde tenho treinado de uma a duas vezes por semana, a variância tem sido pequeno, tempos consistentes. O recorde do ano passado era de 25:30. Esse ano, saí lá de cima (27 alto) e vim descendo, tirei um minuto inteiro do recorde antigo e agora já estou em 24:10. O normal agora é essa faixa aí dos 24 médios.
October 16th, 2008 at 2:42 pm
Bom, agora está em 14min50…
March 6th, 2009 at 10:20 am
Fraco ……………… huahahaahaha
Só pilha, cuidado com o Galinha Velha e com o Pombo. principalmente com o Pombo, no Alto da Boa vista o Tempo dele é de 14′00″ subindo 3/4 do tempo no meu vácuo.
Frango
March 6th, 2009 at 10:59 am
Frango, és um imundo!!
October 14th, 2009 at 8:08 am
Sou acompanhante novato nesse blog… mas no nosso esporte perseverança é tudo… e ojetivo é objetivo… tanto faz ganhar um tour da frança ou bater o record da serra ao lado de casa!!!