Audax Rio 200 Km
(Postado em 20/04/08, às 9:31.)Não é uma competição. Não tem pódio, nem medalha. Nem troféu, nem prêmio em dinheiro, nem divulgação de uma lista com os nomes dos participantes em ordem crescente de tempo e decrescente de glória. Não há glória.
Na verdade, não há a glória diferenciada das disputas, aquela que é maior ou menor conforme a colocação do atleta; no Audax, tanto faz se você usou mais ou menos horas, contanto tenha chegado ao fim sem estourar o limite de tempo. Chegar é a meta; e na meta, a glória.
Isso talvez explique o porquê de eu ter chegado em primeiro lugar, ou naquilo que numa competição seria assim considerado. Enfim, fui o cara que pedalou em menos tempo os 200 Km do Audax Rio, que aconteceu no dia 16 de março de 2008. Achei divertido. É divertido. Principalmente se você finge que está numa competição empreendendo uma sensacional fuga — e mais ainda se você está convencido de que os outros também estão fingindo que estão na mesma competição que você.
Segundo definição dada pelo Audax Brasil, entidade capacitada pelo comitê francês do Audax Club Parisien a realizar tais provas no Brasil e no exterior, o objetivo das provas Audax é o de “promover, motivar e aplaudir os esforços daqueles ciclistas que desejam testar seus limites pessoais combinando os prazeres das pedaladas com as exigências do ciclismo de longa distancia”. É, portanto, um evento ciclístico não-competitivo.
Se o bom desempenho em um Audax não pendura em seu pescoço uma reluzente medalha, o feito confere ao participante um não menos cobiçado brevet (brevê), isto é, um certificado de conclusão. O brevê do Audax de 200 Km habilita, então, o audacioso cidadão a participar do Audax de 300 Km; o de 300 habilita-o ao de 400; depois ao de 600 e, finalmente, ao de 1200, com que sonha a grande maioria.
Mas havia pouca gente para muita chuva, naquele domingo: umas 40 cabeças inscritas para o percurso completo, outras tantas para o percurso resumido, o “Desafio 100 Km”, que não dá direito a brevê.

Às 5h30 da manhã, os ciclistas e seus aparatos brilhantes
Saí de casa às 4h30 da manhã. A largada estava marcada para as 6h, mas havia a recomendação de que chegássemos com antecedência de até uma hora para a inspeção dos veículos. Sim, há toda uma (correta) filosofia: você é obrigado a usar capacete, luzes na bicicleta e refletores na roupa; é desclassificado sumariamente se for pego jogando lixo no chão, essas coisas.
A largada aconteceu às 6h15. Sempre debaixo d’água, pedalamos pela ciclovia do Aterro do Flamengo até o Museu de Arte Moderna. Depois passamos para a pista mesma dos carros e atravessamos o centro do Rio até o estádio do Maracanã. Um grupo de 4 ou 5 mountain-bikers estava indo na frente, com um passo firme mas sem exageros. Cheguei até eles pouco depois de contornarmos o Maracanã. Logo em seguida, um pelotinho de umas 6 speeds passou voando por nós. Apertei o ritmo e consegui grudar nos caras. Seguimos, então, de volta ao Aterro, e de lá para Laranjeiras, onde começou a primeira subida do dia, até o bairro de Santa Teresa.
De Santa Teresa até as Paineiras encaramos a subida mais difícil do dia. O carinha que estava ao meu lado foi logo profetizando algo como “agora é que seleciona”, querendo dizer, provavelmente, que ali sucumbiriam os fracos. Dito isto, se mandou na frente, empolgado como um foguete.
Não demorou muito e o fanfarrão ficou para trás para nunca mais ser visto. Havia dois caras, estes sim, pedalando muito forte e convincentemente na minha frente, e, embora tenha conseguido diminuir um pouco a distância que me separava deles, fui o terceiro a chegar no Posto de Controle número 1 (PC-1), nas Paineiras.
O caminho até o PC-2, na Barra, foi muito bonito, pois descemos das Paineiras até o Alto da Boa Vista e, de lá, seguimos para o Jardim Botânico via Mesa do Imperador, ou seja, subidas e descidas no meio do verde e com vistas deslumbrantes dos melhores ângulos da Cidade Maravilhosa.
Depois veio a Avenida Niemeyer e a subida do Joá, entre São Conrado e a Barra da Tijuca. Foi nesta subida que grudei nos dois que iam na frente. Chegamos juntos ao segundo Posto: nós três, de speed, e um quarto participante, de mountain-bike. Saímos em pelote e beiramos toda a orla, da Barra ao Recreio dos Bandeirantes. Foi ali pela Reserva que empreendi uma espécie de fuga e nunca mais vi ninguém.
Do Recreio, o caminho voltava para a Barra pela Avenida das Américas. Num posto de gasolina em frente ao Barra Shopping, minha namorada me aguardava, de carro, com um Gatorade, muitas palavras de apoio e uma câmera fotográfica. Estávamos ainda na metade da prova.
Fotos: Bianca

Fotos feitas de dentro do “carro de apoio”
Dali em diante, o caminho compreendia uma passagem em frente ao autódromo de Jacarepaguá (onde ficava o PC-3), depois em frente ao Rio Centro, e então por toda a Estrada dos Bandeirantes e a Estrada do Pontal até a Praia da Macumba, para finalmente retornar, pela orla, até o PC-4 (que ficava no mesmo local do PC-2).
No PC-4, o pessoal da organização me fez saber que eu estava muito tempo na frente dos outros, que “podia ir com calma”. (Que importa a posição dos outros, afinal, se não é uma corrida?, lembro de ter pensado.) Sentindo-me bem, apertei ainda mais o ritmo e quase bati meu recorde pessoal na subida do Joá. Por fim, acabei cruzando a linha de chegada inexistente apenas um minuto depois de terem os organizadores atracado no local e 49 minutos antes da chegada do “segundo lugar”. Mas não adiantou de nada, não era uma corrida.
Estão todos de parabéns: os participantes, por terem encarado um dia inteiro de pedal debaixo de muita chuva, e, principalmente, os organizadores, por nos terem proporcionado um evento como esse sem qualquer apoio oficial (apesar de todas as disposições oficiais contrárias à realização da prova, na verdade). Outro gol de placa da organização foi a doação dos sanduíches — que, por sinal, estavam ótimos, assim como as frutas servidas em todos os Postos de Controle — e dos copos plásticos que sobraram para as crianças do Educandário Romão de Mattos Duarte.
Que venha o de 300. Mas sem correria.
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April 20th, 2008 at 10:32 am
Queremos mesmo ser deuses, belos mortais, cuja essência é tentar chegar. Antes. Antes que o faça outro. De que outra maneira poderemos experimentar o topo do Olimpo, não é mesmo?
April 21st, 2008 at 3:54 pm
Qual GPS vc usa em suas pedaladas???
Ele perde o sinal em locais mais arborizados como as Paineiras ou em meio a prédios???
Quais prós e contras vc vê nele???
[]s
April 21st, 2008 at 4:45 pm
Oi, Gledson.
O GPS é um Garmin Edge 305. Ele perde sinais apenas dentro de túneis. Nas Paineiras e em meio a prédios o sinal continua firme e forte.
Prós:
(1) Você chega em casa e descarrega pro computador não apenas os dados do seu treino (velocidades, tempos, cadências, batimentos cardíacos etc.) mas também o CAMINHO EXATO por onde passou. É fantástico.
(2) Você está em algum lugar que não conhece muito bem. Marca sua localização atual (para onde você quererá retornar depois) e sai pra explorar o lugar, sem a menor preocupação em se perder. Ele o levará de volta.
(3) Você pode carregar nele, de antemão, a rota de uma viagem inteira. Nunca ficará perdido.
Contras:
(1) A bateria dura pouco. De 9 a 10 horas. Então você tem que tomar cuidado com pedais mais longos.
(2) Não mostra mapas de ruas na tela. Você tem que usar o computador para plotar as rotas sobre um mapa.
PS. O modelo Edge 705, recém-lançado pela Garmin, supre as duas deficiências acima.
Abração!
April 23rd, 2008 at 5:02 pm
Opa. Vi que vocês fazem mountain bike, alem de viagens. Vim de Minas (BH) e ainda nao encontrei um grupo novo para pedalar - Lá, andava com o Mountain Bike BH e Le Velo. Alguma indicaçao de grupo, trilhas no Rio ? Obrigada!
April 23rd, 2008 at 9:07 pm
Vc tá bem servida Cristiane o que não falta é trilha no Rio pra pedalar pena que não posso ajuda la pois moro em Macaé mas tenho certeza que o Vinicíus te indicará uns lugares bons pra pedalar abraços
April 23rd, 2008 at 11:36 pm
Oi, Cristiane. Recomendo-lhe o fórum de discussão do site Pedal.com.br. Lá você encontrará uma seção de mountain-bike, onde os participantes combinam encontros e passeios.
Conheço um grupo que sai, aos domingos, da porta da Bike’ Sport, em Jacarepaguá, e outro que sai da Praça Jauru, no mesmo bairro, também aos domingos.
Um abraço,
Vinícius.
April 29th, 2008 at 5:53 pm
Valeu, filho….show….na próxima quero estar lá também no apoio.
Beijão.
April 30th, 2008 at 4:18 pm
Muuuuito bom estar ao seu lado em mais esta conquista! Sei o quanto este brevet é importante para você!
Parabéns mais uma vez, você é um vencedor!
Agora já pode colocar as fotos, que, com certeza animarão este belíssimo texto!
Beijocas,
Bianca
May 1st, 2008 at 9:09 pm
Não… Vai me dizer que, além de chegar quase uma hora antes do segundo colocado, você ainda tirou fotos? Hahahahaaaa… Tá abusando, hein!
May 9th, 2008 at 4:00 pm
Vinícius,
quem escreve é o Padilha que encontrou contigo na subida do Cristo na quarta-feira. Aquele seu amigo é doido, primeiro dia de pedal e vai logo para o Cristo, é bom que ou fica “vacinado” ou traumatizado.
Quanto ao pedal em itatiaia, dependendo da data, estou dentro, adoro aquela região, já estive no pico em uma ocasião.
Ps: Fala para o Fabrício aparecer, e pede para ele não esquentar com as asneiras do blog do Triathlon, já me ofenderam bastante por lá também, sempre sem se identificar.
Um abraço, Fernando Padilha
Cel: 8251-5887
June 11th, 2008 at 1:40 pm
Ta ai .. fiquei curioso .. qual foi o tempo total dos 200km ??
Parabéns
June 11th, 2008 at 3:03 pm
Oi, Tubbarao. O tempo foi de 7h43. Abraço!