Copa VO2-Caloi
(Postado em 08/11/07, às 13:50.)Tudo de que eu precisava era um fim-de-semana como esse para reacender minha competitividade dormente — eu andava muito preguiçoso.
Esse percurso da Serra de Campos é, assim me parece, bem freqüentado pelos ciclistas paulistas. Eu, carioca forasteiro, ainda não o conhecia. Na verdade, já tinha estado em Campos do Jordão quando minha memória de criança ainda não era capaz de reter muita coisa; lembro-me apenas de um teleférico e um horto florestal. Mas estão de parabéns, o lugar é lindo.
A organização do evento, patrocinado pela Caloi e pela revista VO2, dividiu as opiniões. De uns, ouvi que tratava-se da prova mais bem organizada de nosso calendário ciclístico; de outros, testemunhei a mais genuína revolta. Em minha opinião desapaixonada, os caras teriam que se esforçar muito para estragar a festa. E, tanto quanto eu tenha percebido, sequer tentaram: água distribuída com presteza nos pontos certos, guarda-volumes e guarda-bikes direitos, frutas e energéticos no final, atraso insignificante na largada, nenhuma confusão para a retirada dos kits no local mesmo da prova. E quase 700 ciclistas para brincar de ver quem chega primeiro lá em cima. Bom demais, não parece? Bom demais.
A véspera
Saí no sábado, véspera do evento, e dirigi os 360 Km que separam minha casa da Pousada Alemã, em Santo Antônio do Pinhal. (Guarde os tomates, leitor inclemente: seria humanamente impossível ir pedalando até lá e ainda competir no dia seguinte.)

Na estrada (preferia estar pedalando)
A pousada em questão ficava a dois quarteirões da linha de largada e havia sido reservada pelo Bruno Pinheiro, novo grande amigo, que, até então, conhecia apenas pela Internet. (Mais uma vez, o fórum do Pedal.com.br servindo para promover encontros e selar novas amizades.) Só que ele chegaria apenas tarde da noite. Depois do registro na hospedagem, portanto, saí de bicicleta para uma exploração solitária das redondezas.
O que vi foi uma cidadezinha totalmente voltada ao turismo, espetada no meio de uma invejável Área de Proteção Ambiental. Tudo limpo e de muito bom gosto. Consegui algumas boas fotos e, de quebra, a bênção de São Geraldo para a água que eu beberia no dia seguinte.

Água de fonte (e, ainda por cima, “benta”)
Depois, comi uma truta honesta no Massa ao Mel, restaurante tão agradável quanto seus arredores. Pude entrar com bicicleta, capacete, bretele e tudo. Adélio, o garçom, era um fanático por bicicletas e perguntou tudo sobre minha Pinarello e minha vida.
Já era tarde e eu dormia quando chegaram os novos amigos paulistas Bruno, Diógenes e Ronaldo. Devidamente apresentados e interados dos rostos por trás dos nicks (o Diógenes é também membro do fórum), saímos para comer pizza num lugar onde um cidadão cantava e tocava um violão correto. O indivíduo, que estava lá pelo menos desde o fim de minha volta vespertina, era daquele tipo inesgotável que não pára nem para um copo d’água. As atendentes talvez não agüentassem mais ouvi-lo cantar, o que devia explicar o mau humor que elas mal disfarçavam.
A pizza desceu redonda e manteve aquecidas as barrigas, minha e do Bruno, durante toda a conversa que varou a madrugada. Parecia que nos conhecíamos de longa data. É claro que deveríamos estar descansando para a prova, mas como inventar sono onde sono não há?
O dia
Café-da-manhã. Calibragem. Kit. Fotos. Câmera fotográfica no guarda-volumes (que subiria a serra de forma motorizada). Posicionamento estratégico (no final do pelotão). E foi dada a largada.
Começamos em ritmo de passeio, eu não tinha a menor pretensão de levar o cronômetro a sério. Primeiro, porque não me sentia em meu melhor condicionamento; segundo, para que pudéssemos pedalar juntos sem que um acabasse acelerando demais e comprometendo o desempenho do outro no restante da prova. Acontece que aquele clima de competição é contagiante demais, aquelas subidas abrem o apetite ciclístico demais, o ar estava puro demais, todos os possíveis estímulos começaram a atuar de forma tão inapelável sobre meu ser que, mal tinha começado a serra propriamente dita, eu já estava dando tudo. Ah, nada como uma corrida de bicicletas!… Allez, allez!
E que bom que foi assim. Por ter largado na rabeira, não fui ultrapassado por absolutamente ninguém durante toda a subida principal. Deixei para trás, por outro lado, umas duzentas ou trezentas cabeças, o que é de uma utilidade psicológica incrível. A única exceção — e que foi também um dos pontos altos do dia — foi a disputa homem-a-homem com um carinha numa Merida lindíssima. Ele acabou vencendo nossa pequena contenda, já no final da serra, depois de bem uns trinta minutos de hostilidades mútuas.
O trecho urbano, em Campos do Jordão, foi bacana. As pessoas aplaudindo, dando força, crianças pedindo nossas garrafinhas vazias, mentirosos dizendo que seria só descida daquele ponto em diante, um climão. Com alguma boa vontade, podíamos nos sentir numa verdadeira etapa do Tour de France.
Preciso dizer que disputei um sprint na chegada. Foi o primeiro da minha vida, se descontarmos as covardias que fiz com dois caras bem mais velhos em duas ocasiões passadas. É muito emocionante. (Deve ser ainda mais emocionante ganhar a disputa do sprint, mas isso eu só poderei contar de uma próxima vez, quem sabe…)
Parece que aquele trecho final não fez parte das versões anteriores da prova. Segundo ouvi, tornou-a mais difícil e interessante. De fato, eram umas subidas brabinhas. Muitos houve que ziguezaguearam para conseguir vencê-las, outros que desmontaram e empurraram a bicicleta ladeira acima. E ainda outros, menos felizes, que desmontaram e cairam no chão, exaustos. Tem dessas coisas.
Meu tempo oficial foi de 2h05min02s80, na 177ª colocação. Alex Diniz, o grande bicampeão, completou em 01h26min34s90. (Tem dessas coisas, também…)
Diógenes e Ronaldo fecharam o percurso numa boa e sentiram a mesma coisa que eu: estar ali e completar a prova já era bom demais. Já o Bruno, herói do dia, viveu experiências próprias, e o que sentiu — provavelmente um misto de raiva, desconsolo, orgulho e consciência tranqüila — não foi sentido por mais ninguém.
O que houve foi que ele presenciou um acidente dramático. Segundo ele, um tiozão perdeu o controle da bicicleta, numa curva, e não apenas caiu feio como levou junto uma ciclista que passava a seu lado. Ambos machucaram-se bastante, e o Bruno, sem pensar duas vezes, parou para lhes prestar auxílio, tendo com eles permanecido até a chegada da ambulância. Isto, evidentemente, lhe custou minutos tão longos quanto preciosos, e, para sua desgraça, veio a ser cortado da prova em um dos pontos de controle: estouro do limite de tempo.
Compreensivelmente frustrado, ainda tentou dialogar com os organizadores, mas sua atitude samaritana não amoleceu os corações dos que tinham um regulamento a cumprir. Chegou, portanto, a entrar na van oficial, a bicicleta já desprovida do chip convencedor de futuros netos.
Poucos metros à frente, ainda ruminando a má sorte de não completar o percurso com as próprias pernas, viu uma segunda cena que lhe falou alto à boa índole: um ciclista grandalhão estirado no chão de cansaço, quase chamando pela mãe. “Parem o carro!”, gritou Bruno. “Quero descer. Dêem-me minha bicicleta!” Não quiseram atender-lhe o pedido. “Parem o carro, não entenderam? A bicicleta é minha e é aqui que eu fico.” Devem ter percebido que não era uma súplica, mas uma ordem. A van não era um cárcere, afinal, e o cidadão tem o direito de descer. Pararam.
O que sucedeu foi todo um trabalho persuasivo-motivacional do Bruno em cima do desistente-em-potencial. O grandalhão, finalmente convencido, subiu na bicicleta e pôs-se a martelar os pedais quase que com o poder da mente. E seguiram ambos até o fim, pedalando sempre, para honra e glória de suas futuras gerações!
Mas não posso deixar de narrar também o belo gesto do Ronaldo, que ajudou uma ainda mais bela donzela a recolocar a corrente de sua bicicleta, que tinha soltado no meio da subida. Já depois da cerimônia de premiação, o desinteressado rapaz foi encontrado pela moça e agraciado com um beijo na bochecha. Endoidou. Quis mais. Foi atrás da morena (o cara é bom). Fiquei de longe, câmera na mão, paparazzo total. Quando achei que ia clicar o momento da troca de telefones — ou quem sabe o de um beijo melhor localizado –, testemunhei o corte mais elegante que se pode conceber: “Ah, deixa eu te apresentar meu marido.” Não deu, garoto; valeu a tentativa.
Depois da cerimônia de premiação, pedalamos de volta a Santo Antônio do Pinhal. Caía uma chuvarada. Chuvarada que, como todos sabem, não quebra ossos. Foi apenas molhado e divertido. Ainda paramos, debaixo d’água, para algumas fotos indispensáveis no caminho.
Aprumamo-nos, então, no hotel, e almoçamos no mesmo Massa ao Mel da véspera. Depois, arrumamos tudo nos carros e partimos. Por conta de uma interdição em uma das pistas da Serra das Araras, dirigi, sozinho e com sono, por mais de cinco horas até o Rio de Janeiro. Mas é claro que não estava nem um pouco chateado. Valeu demais.

Vinícius, Diógenes, Ronaldo e Bruno na volta para Pinhal
Fica a lição: abandone a corrida, não um companheiro. Essa pode não ser a melhor estratégia para vencer o Giro d’Italia, mas é infalível para voltar para casa com um imenso sorriso na alma. Parabéns, meu amigo.
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November 8th, 2007 at 2:16 pm
Ler um relato no Crônicas é sempre muito bom. Ler um relato tendo participado da aventura é muito melhor.
Modéstia é uma das virtudes do Vinicius… o cara pedala todo dia e ainda diz que estava preguiçoso…
Vinicius, parabéns pelo relato, pelas fotos e pelo cara “maneiríssimo” que você é.
Nos vemos esse fim-de-semana no Granfondo, já que foi reacesa sua competitividade dormente.
Um abraço, Diógenes
November 8th, 2007 at 2:18 pm
O sorriso esteve presente em meu rosto durante o texto inteiro !!!! Quando vi a parte que se referia a mim, meus olhos encheram de lágrimas de lembrar daqueles momentos trágicos. Onde uma boa ação foi seguida pela frustação de ser cortado. Mas no fim, tudo se resolveu. Mesmo não considerando que “conclui” o evento. Mas valeu a pena o fim-de-semana.
Vinícius, aquele noite, teria que ter pelo menos 24 horas para falarmos tudo que gostariamos de falar.
Com certeza uma amizade nova !!!
de minha parte é claro !!!
Melhor tentarmos durmir agora né ?? já são 3h da manhã rs…
Perfeito relato !!!!
November 8th, 2007 at 2:20 pm
Em uma só palavra: sensacional!
November 8th, 2007 at 5:07 pm
Parabéns a todos! Tive a oportunidade de conhecer os dois moços dos comentários acima via forum e depois pessoalmente - claro que estávamos todos em cima de bicicletas e eu só vi o Bruno sem capacete quando ele tira pra ficar bem na foto =P
Os relatos que ouvi na semana seguinte foram de crianças felizes e com vontade de mais! E que venha o Granfondo!
November 8th, 2007 at 7:10 pm
Put* merda! Ler os textos do Sr. Pernito é como uma dose de ânimo na veia!! Impressionante!!! Legal a atitude do Bruno, atitude de um grande campeão!
Bem que podíamos animar o Tour em Dezembro para reunir o pessoal hein?!?! Mas tem que ter nível pangaré rs…
November 8th, 2007 at 10:25 pm
Tour de Sanroquê hehehe! Estarei lá com certeza! Bora, Baianowww, não vai faltar, hein!
November 9th, 2007 at 8:57 am
Podem contar com minha presença nesse Tour !!!!
Aonde vai ser ???
November 9th, 2007 at 9:43 am
Bruno, estamos combinando por aqui.
Abração.
November 9th, 2007 at 10:44 am
Como diria o Sr. Burns: Excelente !!
Vinicíus, bem que a galera do Pedal.com.br comenta que seus textos são ótimos. Relato animal, ótimas fotos… Não fui, mas como conheço bem o percurso me senti como se estivesse lá !!
Virei fã e adicionei ao meu favoritos… Parabéns cara !!
Espero vocês na “Volta de São Roque” (só p/ ser diferente, huáhuáhuá…)
November 11th, 2007 at 8:56 pm
Valeu, filho…mais um lindo relato, uma outra grande aventura e uma bela atitude de seu colega Bruno. Parabéns a todos vocês e que Deus os proteja sempre.
November 12th, 2007 at 10:42 am
Cool!
De Campos de Jordão só lembro do Poço das Corujas, se é que é lá, mesmo.
Beijo.
November 12th, 2007 at 11:55 am
Poço das Corujas é em Itatiaia.
November 20th, 2007 at 12:29 am
Não me canso de ler meu amigo !!!
Que fim-de-semana maravilhoso !!! Esquecemos de dizer ao Baiano, sobre o placa: “Furou seu pneu ??? chame o Baiano” porém esquecemos da foto !!
November 20th, 2007 at 1:27 pm
É mesmo! “Furou? Chame o Baiano!”