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Granfondo do Brasil de Ciclismo

(Postado em 29/01/08, às 16:54.)

Dia 11 de novembro de 2007, o dia em que sobrei bonito. Sobrar, no jargão ciclístico, é ficar para trás, é comer poeira, é amarelar, é ser um pontinho preto no horizonte, é pedalar sozinho e chegar um século e meio depois da comissão de frente.

Cara-de-pau foi achar que não sobraria, ou que não tão cedo. Devia ter feito a inscrição no Mediofondo, 106 quilômetros de sobe-e-desce naquela beleza que é a Rio-Santos. Mas quem quer 106 quando pode ter 160? Sendo iguais os preços, aceitei os 54 Km de brinde e encarei o Granfondo mesmo, a prova completa.

Tinha muita gente boa lá, a elite amadora. Na verdade, tinha muita gente boa inscrita no Medio. E eu, no meio daqueles loucos sanguinários, achando que sobreviveria. Tolinho.

Fui de ônibus, dessa vez. Seis horas entre Rio de Janeiro e Ubatuba, contando com a parada para o almoço. Almoço esse, aliás, em que tive a oportunidade de bater um papo com o Raymundão, ciclista veterano e considerado um dos melhores mecânicos de bicicleta do Rio. Ele estava inscrito, também. Tânia, sua esposa há mais de trinta anos, o acompanhava na viagem. Foi um prazer conhecê-la e saber um pouco da bela história dos dois.

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Tudo muito bem organizado pela federação paulista

Em Ubatuba, fui recebido pelo Diógenes, amizade estabelecida no Desafio da Serra de Campos. Ele estava de carro e, gente finíssima, ficou me aguardando na rodoviária. Acabou dando carona também para a Tânia, a esposa supra, já que Raymundão, seu marido, iria pedalando até o local onde os kits para a prova estavam sendo entregues.

Retirados os kits e deixada na boa pousada a bagagem, saímos, eu e Diógenes, para o tradicional pedal de reconhecimento. Andamos um pouco à beira-mar, fizemos algumas fotos e tomamos suco numa tal de Sucolândia ou coisa que o valha. O suco não vinha num copo, como de costume; vinha num copo mais uma jarra enorme! Foi a medida exata de minha lendária voracidade suqueira. Coisa inédita.

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Eu e Diógenes explorando as praias de Ubatuba

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Cenas do passeio da véspera

Depois do divertido rolê, parte do qual debaixo de chuva, voltamos para a pousada. Abrira um belo arco-íris no céu, daqueles nítidos e enormes, de semi-arco completo. Fotos. Depois saímos para jantar e voltamos cedo. Tínhamos que descansar bem para o dia seguinte. Afinal, ninguém quer ter a chance de usar um déficit de sono como desculpa para uma bela sobra.

DSCF1545Eis que surge…

O dia seguinte começou, evidentemente, com o café-da-manhã na pousada e minhas duas ou três idas ao banheiro. Número Dois, sim, que fico nervoso nesses dias de competição, desarranjado como um pato. Um pouco de correria para não perdermos a largada e pronto, estávamos alinhados para o começo do massacre.

Apesar do corre-corre, deu tempo de sentir aquele climão que precede as largadas. Bicicletas de várias marcas e cores, pessoas idem, cheiro de adrenalina no ar, todos com o mesmo objetivo: destruir você. E, mesmo sabendo que não vai exatamente vencer a prova, alguma coisa muito estranha lhe diz que você vai dar tudo de si, pedalar à exaustão, deslocar-se o mais rápido que puder durante quatro, cinco, seis horas… um frango no abatedouro é o que você é.

Quanto mais cedo você se desgarrar do pelotão principal (ou melhor, quanto mais cedo o pelotão se desgarrar de você), mais longa será sua agonia. E mais solitária e terrível, sua morte. Você se verá sozinho, vento na cara, exposto aos urubus à beira da estrada. Não tem jeito: você tem que se manter com o grupo, misturado à massa como um pingüim que migra.

Mantive-me pingüim durante uns cinqüenta minutos, não mais. Cinqüenta sofridos minutos. O ritmo do pelotão era alucinante, puxado mesmo, principalmente nas subidas. Não cabe desculpa alguma aqui: quando o cara sobra, ele sobra mesmo. E eu sobrei.

Foi bom para restaurar minha perspectiva (correta do mundo). Eu, que me julgava bom escalador, estava sem treino nos últimos meses, relaxado, bon vivant. Tinha que dar nisso. Cá entre nós, teria dado nisso de qualquer jeito, mesmo que eu estivesse no auge da forma. Preciso comer muito feijão com arroz, ainda.

Mas foi bom, também, para ver que servir de comida aos urubus não é tão ruim assim. Você forma grupetos, você até lidera grupetos, você luta, você até… curte. Ora, já sobrei mesmo!… olha que marzão lindo lá na frente!

Completei a prova em 5h05, média de 29,11 Km/h. Nada péssimo, dada a altimetria.

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O logo, na camisa do evento

Se a vida é feita de momentos, o passado é feito de momentos marcantes — os outros são os que você esquece. Comendo poeira e tudo, esse foi mais um fim-de-semana agradabilíssimo que vai certamente figurar no painel de memórias dos anos mais “ativos” de minha juventude. Valeu, Diógenes!

Veja também:
– o álbum de fotos completo.


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7 comentários em “Granfondo do Brasil de Ciclismo”

  1. Bruno Pinheiro diz:

    Como é bom ler um relato (ainda quente) no Crônicas, nem bem saiu e já li!

    Estou esperando a novela. :)

  2. Renato diz:

    Sumidão! Que você até pare de pedalar eu entendo. Mas parar de escrever, de jeito nenhum.

    Um grande abraço,

    Renato

  3. Diógenes diz:

    Ué, achei que nem teria mais relato do Granfondo… vai ver que a viagem ao Chuí trouxe tanta inspiração que até sobrou um pouco para relatar a última prova (ciclística) de 2007.

    De qualquer forma foi legal relembrar aquele final de semana, ainda mais com um texto escrito por você.

    Valeu, Vinicius!

  4. Bruno Feijó diz:

    Rapaz, achei que você tinha parado de escrever, que bom que isso não aconteceu, espero novas histórias.

    um abraço.

  5. Bianca diz:

    “Mané” ;-)

    “Sobrou” porque ainda não me conhecia. rs … Faltava pouco…

    “Sobrou” na prova, no sentido de “ficar para trás”, mas é muito importante que se diga que o que sobra mesmo é capacidade para dirigir uma vida da forma como você a faz!
    Sobra capacidade para colocar em um texto (em um não, em tantos!) tanta emoção! Capacidade de colocar tanta emoção em cada nova atividade exercida.
    Sobra disposição para pedalar, não só um “Granfondo do Brasil de Ciclismo”, mas tantos “Pedais sem fome”… Pedalar até o Chuy, no Uruguai (ainda está devendo este relato…)…
    Sobra disposição não só para pedalar, mas para correr também… Embora esta atividade não tenha sido merecedora de um site com belos textos, é preciso expor a capacidade, a tão brilhante capacidade, de completar, em um único ano, uma meia-maratona do Rio de Janeiro, a Volta da Pampulha (BH) e a São Silvestre (SP)! Que ano!!!! Que ano bom!!!
    Sobra capacidade para ser um excelente esportista e ainda conseguir conciliar uma brilhante vida pessoal e profissional!
    Parabéns Vinícius! Que você continue “sobrando” muito nesta vida!!!

  6. Leo Gomes diz:

    Como acabei adiando minha viagem pro início de março, tô pensando em fazer uma crônica de motocicleta saindo aqui do interior de SP passando por Sampa, Curitiba, Balneário e Floripa. All alone pq o Sr. Naná tá enrolado aqui :)

    Acho q vai ser maneiro. Tô entusiasmado. Vamos ver se o tempo ajuda.

    Abraço!

  7. Alessandro diz:

    Ô meu brother!

    Se você sobrou, se você precisa comer feijão-com-arroz… Nem quero pensar “nimim” e nos outros mortais, hahaha…

    Parabéns pela humildade em reconhecer o “fracasso”, o que quer que isso queira dizer para ti, e ainda assim ter tido o bom humor para aproveitar o evento!

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