Ode às manhãs de domingo
(Postado em 20/06/07, às 13:35.)Só quem faz, ou pelo menos já fez, sabe da sensação de acordar antes do sol numa manhã de domingo, comer, vestir-se, calibrar os pneus da bicicleta e sair para uma pedalada, respirando aquele ar tão puro e fino, anterior às emanações poluentes dos veículos motorizados. Veículos cujos donos provavelmente dormem, àquela hora, de ressaca, preguiça, cansaço ou tédio.
Também é sobre aquele silêncio diferente — que só o têm as manhãs de domingo — a qualidade desse pedal. Não é o silêncio do escuro da madrugada de um dia-de-semana; é um silêncio às claras, possível apenas por ser domingo e as ruas encontrarem-se vazias, num efeito de volta no tempo ou viagem no espaço em que nos sentimos em época ou lugar onde não há correria, gritaria, individualismo ou desrespeito pelas ruas.
É bem verdade que a máquina do tempo está lá para quem quiser acordar cedo para experimentá-la, com ou sem uma bicicleta. Mas, se ao leitor ainda não foi dado o prazer, acredite: com é bem melhor. Beira a perfeição que seria, talvez, poder voar. A bicicleta, sob o conveniente (e verdadeiro) pretexto de lhe proporcionar saúde e bem estar físico, tem o poder muito maior de transportá-lo, em curto espaço de tempo, a pequenos recantos de paraíso que não seriam de outra forma desvendados. A razão é simples: o paraíso em questão não é um lugar que se descortina após uma curva ou cume de montanha: é um lugar mais a sensação única de tê-lo conquistado com o próprio suor. Depende do meio a qualidade desse fim — ou vai ver o fim é apenas um resumo, uma constatação simbólica do quanto valeu a pena o meio.
Fica aqui — como exemplo, estímulo ou simples contação-de-história — o relato do passeio que fiz, no último domingo, com meu amigo e companheiro de pedal Fabricio.
Saí de casa, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e pedalei os 27 Km planos até o bairro do Rio Comprido, onde nos encontraríamos. Serviu para aquecimento e contemplação. Eram as tais primeiras horas da manhã, ô coisa especial.
Já em dupla, subimos o trechozinho íngrime da praça do Rio Comprido até o túnel da Rua Alice, que atravessamos para seguir até Santa Teresa, de onde começaríamos a encarar os 9 Km até o alto do Sumaré (morro onde ficam as antenas de transmissão de TV da cidade do Rio, a 700 metros de altitude). A subida do Sumaré é longa, mas não muito inclinada, e você pode subir, se quiser, em ritmo de cochilo. Por outro lado, se quiser fazer um contra-relógio, o lugar é também perfeito. Volta e meia há corridas de bicicleta por lá.
É tão boa a subida e a vista lá de cima que até os bichos gostam, ao que parece. Íamos tranqüilos morro acima quando nos vem descendo, a pé, um pobre homem, de expressão preocupada, procurando um cachorro que lhe tinha fugido. O sujeito dizia que o bicho teria subido na mesma direção que nós, e que, portanto, ordenássemos ao animal que voltasse para casa imediatamente caso o encontrássemos! Dissemos que não se preocupasse, que daríamos o recado. Na curva seguinte já não pensávamos mais em cachorro algum, é claro.
Com o esforço da subida, não sentíamos frio. Mas a temperatura não era muito alta por ali naquela manhã brumosa. A névoa, por vezes, era tão densa que parecia que passávamos por dentro das nuvens, em alguns trechos, nosso campo visual limitado a poucos metros. Mas espere um pouco… quem vem lá? Ah, é apenas um cachorro!
Achamos graça mas, descrentes de que um discurso comovente lograsse reconduzi-lo aos braços daquele que pranteava seu sumiço, não interrompemos nossa marcha para falar com o melhor-amigo do cidadão, no que fomos também solenemente ignorados. Depois fiquei pensando se deveríamos tê-lo feito, demonstrando bem incisivamente ao fujão o quanto sua falta era sentida. “Faça-nos a gentileza de ir para casa, sim, tenha a bondade. Passa fora. Xô!” Se bem que uma hora ele ia acabar voltando mesmo, só estava curtindo um pouco a paisagem, deixa o cara.
Do topo dessa primeira subida do dia descemos para as Paineiras, e de lá para o Alto da Boa Vista. Então tivemos a idéia de subir mais 4 Km até o Bom Retiro, na Floresta da Tijuca. Eu já tinha feito essa subida de mountain bike algum tempo atrás, mas nunca de speed. É muito boa e inclinada. Estava era bastante úmida, de tão fechada é a vegetação por ali, e minha roda traseira patinou diversas vezes enquanto pedalava de pé. É um susto divertido, mas não tente fazer em casa — ou, por sua saúde, mantenha os braços muito firmes no guidom.
Vencida a segunda subida do dia, descemos para a saída da Floresta, na Estrada do Açude. Ainda dentro do imenso parque, tive um pneu furado, que trocamos sem problemas, embora dando chance aos mosquitos.
Foi aí que resolvemos improvisar. Primeiro decidimos virar à direita na tal Estrada da Paz, ao invés de pegar à esquerda o acesso à Estrada das Furnas. O Fabricio tinha uma vaga idéia de que subiríamos um pouco até um lugar onde supostamente haveria um clube. Subimos foi muito. E a inclinação não era nada levinha. No final, havia uma espécie de clareira com uma igreja, nada de clube (ou talvez para chegarmos ao clube devêssemos ter seguido um acesso de paralelepípedos a partir da tal clareira). Era realmente um mirante, o lugar, e uma vista fantástica — e inédita — das praias da Barra e do Recreio, até o Pontal, nos foi oferecida. Valeu.
Aí veio o improviso-mor. Ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho da Estrada da Paz, resolvemos nos aventurar por uma estradinha muito estreita e de asfalto ruim, que, segundo nos informou um sujeito que estava na clareira mexendo num carro, nos levaria de volta à Estrada das Furnas, num ponto láááá para baixo. Ainda segundo o cara, um trecho da estrada havia desabado, mas poderíamos passar de bicicleta por uma trilha de barro improvisada às margens do ponto erodido. Resolvemos arriscar. Não demorou e o asfalto ruim acabou repentinamente num precipício. A trilha de barro era escorregadia e carregamos nossas estradeiras nos braços. Eu ainda tentei pedalar, mas desisti na primeira patinada. Tinha um abismozinho à minha esquerda, só por isso. Mais à frente, o asfalto voltou. Sua qualidade era ainda pior, mas o lugar era mesmo muito bonito e interessante, verdadeira aventura.
Aventura que ficou ainda maior quando percebemos que estávamos num lugar meio esquecido-por-Deus, com casebres sem muro no meio do mato, roupas nos varais estendidos entre as árvores, sabe? A carcaça de carro toda carbonizada no meio da estradinha foi só para confirmar, e o Fabricio raciocinou, com muito acerto, que muita gente já deve ter ido “ver Jesus” por ali — e não tinha nenhuma igreja por perto, não. Mas a emoção era inédita e a vista, fantástica, ponto.
Muito mais à frente e para baixo, terminamos passando por dentro de uma favela de verdade, com aquelas ruas de concreto inclinadíssimas. É claro que estávamos descendo, e fazíamos isso com um bocado de pressa, dois ET’s de bicicleta no meio da favela dos outros. Subir por ali talvez não seja muito recomendado.
De volta à Estrada das Furnas, e já com mais de 1200 metros de subida acumulada, despedimo-nos, um para cada lado. Cheguei em casa com 92 Km pedalados e muito feliz. E ainda com todo um domingo pela frente.
Ainda que não esteja a meu alcance narrar com fidelidade — ou ao do leitor absorver — toda a gama de cheiros, cores, sons, temperaturas, paisagens, descobertas, risos, reflexões e picadas-de-mosquito por que passamos naquelas poucas horas, fica de um lado a vã tentativa e de outro o exercício de imaginação (auxiliado pela ausência de fotos, desta vez). Mas fica, como não podia deixar de ser, a recomendação óbvia: faça. Just do it. A gente devia desligar o computador agora, eu e você, e aproveitar o tempo. Porque tem um chão, bem ali em algum lugar, que nossas rodas nunca tocaram.
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June 20th, 2007 at 4:45 pm
Cara, sem dúvida nenhuma o melhor texto do site! Apesar de não ter fotos e sem conhecer o lugar, dá para ir imaginando o caminho! Mesmo depois de um pedal de 100km com um gel (e pagar com “fringale”) a vontade que bate é de pegar a magrela e cair na estrada novamente! Parabéns mesmo e da próxima não esquece a máquina hehehe
June 20th, 2007 at 5:19 pm
Olha, se eu nao tivesse que trabalhar agora, ia seguir a sua sugestao do ultimo paragrafo! Maneiro pra caramba
June 21st, 2007 at 3:09 pm
Baiano,
o combinado era de voltarmos lá com a máquina fotográfica pra ilustrar a aventura antes que o escriba colocasse no papel, mas a secura de escrever é tanta….
Hoje pela manhã lembramos desse pedal, contando ao colega Padilha, numa das escaladas do dia.
Na verdade, o trecho em que fala de ver Jesus, foi assim:
Passamos por uma clareira a nossa esquerda, com algumas árvores e umas rochas por lá. Aí eu disse para o Vinícius, acho que muita gente já deve ter morrido ali. Ele emendou: -É mesmo! E sorriu… Não entendi nada e perguntei o que era o morrido dele, e ele prontamente respondeu: Ué, mulher … “morreu”! (hehehe - sacou?). Aí a nossa frente numa das curvas, apareceu o tal carro depenado e queimado, quando eu falei: Não é essa não, é morte de ver Jesus!
hahahahahaha - Melhor eu parar aqui pq meus neurônios estão se recompondo das 3 escaladas da manhã. Estou com dor de cabeça até agora!
June 22nd, 2007 at 3:55 pm
A sugestão no final foi covardia, principalmente tendo sido lida às 15:54 de sexta feira!!!
Mal posso esperar por amanhã cedo
July 20th, 2007 at 3:24 pm
Vi, mais uma vez me emocionei p’ra caramba… cheiros, sons, cores, temperatura… acho que nem todo mundo sente isso… .
SOU CORUJA MESMO!!!!
Bibow.
July 24th, 2007 at 9:12 pm
Vinícius…. sem comentários… Um exemplo, show de luz, show de vida. Parabéns. Ainda me junto à vocês.
July 25th, 2007 at 10:47 pm
Ví, vim lendo alguns dos relatos, mas é covardia…
Se não leio, por aqui, você não conta na vida real. Não vale!
Beijo.
Babalbina!
July 27th, 2007 at 11:17 am
Maravilhoso o seu texto!!! Especialmente o final que me fez ter muita vontade de sair por aí pedalando agora mesmo.
Muito obrigada pelo comentário que deixou no meu blog. Vc foi o primeiro, sabia?
Quero te dizer que foi lendo o seu blog que me inspirei em fazer o meu. Muito obrigada. Continue escrevendo sempre, viu?
Bjs.
July 30th, 2007 at 2:44 pm
Hoje mesmo, por uma dessas coisas a que costumamos chamar coincidência (bicicletas me perseguem), um cliente divaneou-se numa cadeira à minha frente e pôs-se a narrar uma quilométrica aventura com doses generosas de curvas, serra, rios e lama.
Num certo ponto da trama, surgiu um zumbido - não na nossa conversa; no curso da trilha que ele fazia - ao que ele respondeu com um tapa no próprio braço. Ali, ele não soube como, mas bem agasalhada, uma abelha reagiu à agressão não explicada. Se eu quisesse insistir na pieguice da rima não planejada, diria que a resposta do bicho, óbvio, foi uma ferroada.
Bem, o importante não foi o ferrão, mas o que ele proporcionou. O ciclista estreante ganhou uma pomadinha de um colega veterano no pedal e seguiu impressionado com a pequenez das pedras no caminho de quem descobre que o bom mesmo é caminhar. Pequenez…? Talvez ele tenha mesmo é descoberto que as pedras, mais que perigosas, são as pedras. Valei-me, Foucault!
July 31st, 2007 at 10:42 pm
É, é você mesmo…
Esse texto fácil e que dá vontade de estar dentro só você sabe fazer tão bem…
Vc não perde o jeito, hein?!
Um deleite!
beijinhos…
September 2nd, 2008 at 12:44 pm
Só para compartilhar… Meu passeio ciclístico do último domingo foi presenteado com a visita de uma baleia franca e seu filhote bem na beirinha da praia da Armação, aqui em Floripa. Em compensação, na volta, quase se foi o guidom da bike do meu namorado e o retrovisor de um chevete velho que passou raspando, também rendeu uma denúncia na polícia, contra um senhor grisalho que esqueceu da seta e chamou a nós de burro (burro ele que não deu seta, e que só sabe aproveitar sua velhice entrevada passeando de automóvel). Espertos nós munidos de freios regulados, bons reflexos e uma câmera fotográfica no celular, pra fotografar a Baleia e a placa do carro desse senhor.
É, bicicletas nos dão muitas histórias a contar. Ótimo texto, dificilmente leio textos grandes na internet, porque o tempo urge e a magrela chama.
Boa semana!